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| Poloneses passaram pelos dois infernos. |
Em artigo publicado pela Gazeta, Dionisius Amendola analisa os dois irmãos totalitários:
Atravessar o emaranhado retórico que envolve a discussão sobre as
relações entre o nazismo e o comunismo, suas semelhanças, desavenças,
impacto histórico e, em especial, a contagem de seus cadáveres é destes
esforços que poucos parecem dispostos a realizar. Mais fácil é sempre
reduzir, simplificar e, assim, deixar de enxergar o que ambas ideologias
carregam em seu centro: seu totalitarismo absoluto. Queremos dizer com
isso que ambas ideologias buscam – cada uma com suas “sutilezas” – mudar
radicalmente a sociedade, a cultura e, por fim, a própria natureza
humana.
Um dos grandes autores a lidar com as etapas pelas quais passam os
dois sistemas para a eliminação dos inimigos é Alain Besançon que, em
seu livro A infelicidade do século, analisa cada uma das etapas ou
ferramentas totalitárias, revelando aquilo que é singular em cada
ideologia e o que é comum a ambas. É ele que será nosso guia nesta
travessia.
Besançon mostrará como comunismo e nazismo buscam eliminar aqueles
elementos negativos que impedem a ascensão de uma nova era comunal
(comunismo) ou que corrompem a ordem hierárquica racial (nazismo). Em
ambos os casos, há uma busca por um "bem" que se quer universal
(comunismo) ou que se constrói nacionalista (nazismo). Contudo, seu
principal ponto em comum é que, ao alavancarem uma nova moral, um novo
direito e uma nova justiça, tanto comunismo quanto nazismo passam a ver a
necessidade de se eliminar, expurgar, exterminar os elementos negativos
da sociedade, sejam eles judeus (ou outras raças “inferiores”), ricos,
burgueses, kulaks ou intelectuais.
Para atingir seus objetivos, comunismo e nazismo iniciam seu projeto
com a seleção e destruição de seus inimigos – pois aqueles elementos
negativos da sociedade são exatamente isso: inimigos de um projeto
extraordinário, redentor e até mesmo místico. São, em último caso,
hereges que merecem os piores castigos por impedir o nascer (ou
renascer) de um novo tempo do mundo.
No nazismo temos cinco etapas: expropriação, concentração, operações
de assassinatos, deportação e extermínio. No comunismo são seis etapas:
expropriação, concentração, operações de assassinato, deportação,
execução judiciária e fome. Notem que expropriação, concentração,
operações de assassinato e deportação são comuns aos dois sistemas, mas o
nazismo usa o extermínio, enquanto o comunismo usa a execução
judiciária e a fome como ferramentas totalitárias.
As ferramentas totalitárias
1 Expropriação
Na Alemanha nazista, a expropriação afetou inicialmente os judeus. O
direito à propriedade existia para os arianos, mas, segundo a lógica do
sistema, isto também desapareceria, já que tudo pertenceria ao Estado e
até os direitos políticos seriam reservados apenas aos membros do
Partido Nazista, da mesma forma que a arte e as ideias só seriam
aceitáveis se sustentassem o ideal nazista.
Já no comunismo, a expropriação era mais ampla porque era essencial
ao projeto totalitário comunista, afinal a propriedade privada era
considerada uma das fontes do “mal social”. Isto significava que, desde o
início, os “meios de produção” deveriam ser expropriados em nome da
revolução. Assim, casas, contas bancárias, terra, gado, fábricas, etc.
não pertenciam mais a pessoas concretas, mas ao Estado.
2 Concentração
A ideologia nazista, desde o princípio, tachava os judeus de pestes,
pragas que deviam ser colocadas à parte da sociedade alemã. Não apenas
isso: eles eram vistos e considerados sub-humanos. Os guetos existiam
para que se pudesse, assim, separar os judeus do resto da população.
Eles eram uma infecção a ser contida e, posteriormente, exterminada.
Para tanto era preciso encontrá-los e erradicá-los, como se faz em uma
dedetização contra baratas ou num extermínio de ratos. As tropas que
percorriam as ruas, os agentes da Gestapo, tinham como foco purificar a
Alemanha (e os países conquistados) da presença dos judeus. Em
determinados países essa purificação aconteceu de forma não apenas
sistemática, mas com o apoio dos povos conquistados, pois os alemães
alimentavam o sentimento antissemita das populações locais, que assim
faziam vorazmente o trabalho sujo.
Nos regimes comunistas a tarefa era mais ampla e assustadoramente
mais vaga: a destruição acontecia não contra um grupo específico, mas se
buscava aqueles considerados, genericamente, “inimigos do povo”,
“contrarrevolucionários” ou "inimigos da revolução". Eles podiam ser
aristocratas, soldados do exército branco, ricos, banqueiros e grandes
burgueses, mas também aqueles que traiam sua classe, camponeses que
resmungavam contra as expropriações, trabalhadores das fábricas ou ainda
aqueles pertencentes às classes letradas que ousassem expressar ideias
ou palavras que afrontassem o regime. Em geral, não se buscavam pessoas
com características físicas específicas ou pertencentes a comunidades
bem definidas. Todos podiam ser o “inimigo”.
Aqui, deve-se ressaltar que, pela amplitude de seus inimigos, os
regimes comunistas tinham os maiores aparatos repressores imagináveis
até então. Para efeito de comparação, na Alemanha Oriental a Stasi
(polícia secreta) empregava mais pessoas do que a Gestapo no tempo da
Alemanha nazista.
3 Operações de assassinato
As “operações móveis de assassinato” eram o uso de tropas especiais
para eliminar os inimigos – aqueles “empecilhos” sociais – ou até mesmo o
fuzilamento de soldados capturados. Na Alemanha nazista, elas foram
responsáveis pela morte de milhares de judeus.
Nos países comunistas, seja na União Soviética, na China, no Vietnã
ou no Camboja, essas operações eram uma constante. O massacre de Katyn é
um dos mais conhecidos e maior exemplos deste tipo de operação de
extermínio.
4 Deportação
A deportação para campos de trabalho foi sistematizada pelo sistema
comunista. Os primeiros campos de trabalho forçado soviéticos foram
criados já em 1918, por Lênin, usando como base muitos dos campos
existentes já na época dos czares. A partir destes modelos, os países
que encampavam a revolução implementavam seus campos de “reeducação”. Na
Alemanha nazista, os primeiros campos surgiram em 1933 (Dachau é o
primeiro) e logo se espalham por toda a Europa conquistada.
Há diferenças importantes entre os campos comunistas e nazistas. Na
Alemanha nazista havia dois tipos de campos: os de mortalidade baixa e
os de mortalidade alta. O objetivo era o extermínio de uma parte da
população e o trabalho exercido nestes campos só muito tarde foi visto
como parte essencial do esforço de guerra nazista.
No sistema soviético – copiado por outros sistemas comunistas – havia
ao menos três tipos de deportações para os campos: de povos ou
categorias sociais (no qual a maior parte das mortes ocorriam já durante
o transporte, que normalmente consistia em levar uma população de suas
terras para o nada siberiano); deportações para gulags (as mais
conhecidas), que eram campos de trabalhos forçados que geravam boa parte
da força de produtiva do país; e, ao redor destes campos, estava o
terceiro tipo, as zonas de trabalho forçado e residência vigiada. A mão
de obra desses presos era usada na construção de grandes obras do
projeto soviético. Só a construção do canal Danúbio-Mar Negro acarretou
na morte de 200 mil prisioneiros. Aqui falamos claramente de um sistema
escravocrata brutal que permaneceu ativo em pleno século XX.
5 Execução judiciária
A eliminação “justa” dos inimigos. Na Alemanha nazista, ela foi usada
especialmente contra os não-judeus opositores ao regime – o caso mais
conhecido é o assassinato dos membros de Rosa Branca Hans e Sophie
Scholl.
No comunismo, esse procedimento era amplo e atingia tanto opositores
reais quanto imaginários, isto é, mesmo membros notórios do partido
comunista poderiam, em algum momento, cair em desgraça e ter que
confessar seus pecados diante do tribunal do povo.
6 Fome
Um dos métodos exclusivos do sistema comunista, a fome foi utilizada
na Ucrânia durante os anos de 1932 e 1933. O objetivo era eliminar não
uma parcela da população (como camponeses), e sim o povo ucraniano. Aqui
temos exemplo de um genocídio praticado pelos comunistas que só diverge
em horror do praticado pelos nazistas por não ser tão “mecanicista”.
Totalitarismo
Essas práticas comuns aos regimes nazista e comunista revelam muito
do método, mas não daquilo que os torna realmente totalitários. É a
falsificação do bem aquilo que determina tal classificação.
Em ambos os regimes – no caso comunista, em todas as suas variações:
stalinista, maoísta, castrista etc. –, os atos de terror foram
realizados em nome de um bem, sob a cobertura de uma moral. Aqui, a
destruição moral falsifica o bem para que o criminoso possa manter sua
consciência “limpa” diante do mal que pratica.
No nazismo, o bem consiste em restaurar uma ordem natural corrompida
pela história. Seu principal objetivo é corrigir a hierarquia das raças,
deturpada e destruída pelo cristianismo, pela democracia, pelo
bolchevismo e, em especial, pelos judeus.
A ordem correta do mundo, tendo no topo o Reich alemão, seria
reconquistada com o esmagamento e submissão das outras raças, por meio
de "atos de puro heroísmo, pela superação de si, ao cumprir o dever
superior com o Reich, especialmente ao executar ordens dolorosas" (o
assassinato, a desinfecção, o genocídio).
Há aqui uma visão esteticista da realidade, que enxerga uma ordem que
deve ser imposta por meio do expurgo e da eliminação daqueles que
perturbam a “beleza” da cultura e da raça ariana. O nazista se enxerga,
antes de tudo, como um artista.
O comunismo falsifica o bem por meio de suas ideias morais. É o
imperativo moral que está por trás de toda a pré-história do bolchevismo
– sua vitória é a vitória do bem. Sai a estética (nazista) e entra a
ética. Nas palavras certeiras de Alain Besançon: "O nazista se acha um
artista; o comunista, um virtuoso".
Na visão comunista, a sociedade burguesa corrompeu o homem e seu
objetivo é recuperar aquelas virtudes que existiam nas sociedades
primitivas. É uma recuperação futura, que se dará após o fim do
capitalismo e que revelará uma sociedade justa, igualitária, iluminista.
E, já que este é o caminho natural da Humanidade, por que não acelerar o
processo? Afinal, este renascimento depende apenas da vontade iluminada
pela ideologia. No passado, havia a pura comuna; no futuro, o
comunismo. No presente (eterno), a luta entre dois princípios. As forças
que fazem avançar (progressistas) são boas, as que atrasam
(reacionárias), por outro lado, ruins. Aqui, uma boa dose de gnosticismo
está presente.
Segundo a lógica da ideologia comunista, pode-se determinar
“cientificamente” o que é ruim, o que é atrasado, o que desvirtua a
sociedade em seu avanço ao comunismo. Não é uma entidade biológica (como
no nazismo), mas social, o que atrasa o progresso. São os burgueses, os
kulaks, os bancários, a propriedade privada, os costumes, o direito, a
cultura. E, para implementar sua nova moral, o comunismo fará o que for
preciso para distorcer as velhas palavras: a justiça, a liberdade, a
igualdade.
As duas ideologias buscam remodelar a sociedade partir de sua raiz. O
nazismo já designa, de antemão, seus inimigos. De certa forma, ele é
previsível e, por isso, fácil de identificar. O comunismo escolhe o
inimigo de acordo com seu avanço. Há um componente perigoso de
imprevisibilidade: não se sabe nunca quem será o inimigo (a vítima) de
amanhã.
Para não cair em nenhum desses dois fossos ideológicos, é necessário
prudência, perseverança e um olhar atento para os monstros – humanos,
demasiado humanos – que carregamos dentro de nós.
Ao fim e ao cabo, essas duas experiências políticas resultaram em uma
tragédia humana incomparável na nossa história. É preciso dissecar seus
discursos e métodos, é preciso expor seus horrores. Mas, antes de tudo,
temos que tomar as palavras de Alain Besançon como norte moral: “Quando
estamos diante de um regime ideológico, a primeira coisa a fazer e a
linha que se deve ter absolutamente até o fim é a de recusar, sem
discussão, a descrição da realidade que ele propõe”.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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