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| Boaventura Sousa Santos, o sociólogo das esquerdas. |
A rapaziada do BE parte do princípio de que os respectivos apoiantes
possuem apenas dois neurônios, um razoável e o segundo em vias de
aniquilação pelas leituras de Boaventura Sousa Santos. Coluna semanal do
jornalista português Alberto Gonçalves:
No tempo de Pedro Passos Coelho é que era bom: maridos matavam as
mulheres, mulheres matavam os maridos, pais matavam os filhos, filhos
matavam os pais, genros matavam as sogras, sogros matavam as noras,
cunhados matavam quem quer que os cunhados matam, pessoas matavam-se a
si próprias e, no final, podia-se sempre incriminar o governo e a
“troika”.
No “Público”, um dos vários “media” que descobriu a “violência
doméstica”, a angústia existencial e o sofrimento humano para aí em
2012, um psicólogo escrevia que “uma sociedade desigual, de baixos
salários, desemprego, falta de oportunidades é também mais desconfiada,
mais doente, mais ansiosa e mais violenta.” Não importava que a frase
fosse parcial ou completamente desmentida pelos factos (há muito mais
mulheres mortas por familiares na Suíça do que na Eslovénia; há muito
mais suicídios na Eslovénia do que na Nicarágua; há muito mais
homicídios na Nicarágua do que no Burkina Faso). Também não importava
que, em Portugal, a quantidade de assassínios sortidos tendesse a baixar
durante os negros anos da “troika”. O importante é que se pudesse
usufruir das desgraças privadas, decorrentes de múltiplas causas e
insusceptíveis de generalizações, em benefício de campanhas partidárias e
catequização ideológica. Em suma, o oportunismo sem vergonha viveu uma
época dourada.
Desde que a frente de esquerda tomou conta disto, surgiu um ligeiro
obstáculo ao aproveitamento das tragédias íntimas. Claro que os cidadãos
continuaram a matar-se e a agredir-se com o empenho do costume, que
comparativamente com o “estrangeiro” até nem é demasiado. Mas a
impossibilidade logística de culpar Pedro Passos Coelho e a “troika”
pela sessão de pancadaria de anteontem numa marquise de Moscavide tornou
a pancadaria desinteressante, para os “media”, que passaram a
noticiá-la como o caso particular que realmente é, e para os partidos
outrora escandalizados, que partiram em busca de novos desafios. Mesmo
em tragédias públicas, de que os incêndios de 2017 são o maior exemplo,
meio mundo decidiu ignorar a responsabilidade do poder e dos poderes no
destino de centenas de infelizes. Perante os infelizes que perderam a
vida e os infelizes que perderam o resto, a actriz que chefia o Bloco de
Esquerda limitou-se a exigir: “Que venha a chuva. Bom dia!” É triste
ver uma profissional da indignação fingida descer a tais abismos de
moderação e doçura.
Por sorte, à semelhança do sapo africano no Inverno, os profissionais
da indignação vão desenvolvendo técnicas de adaptação à conjuntura
política, a fim de se submeterem à conjuntura sem comprometerem a
política. Há sinais. Um dos sinais foi dado na quarta-feira por outra
amadora dramática do BE, a prof. dra. Marisa Matias, que, “a propósito”
de um crime recente, declamou: “Fixem bem este nome: Lara. Tinha 2 anos e
foi assassinada pelo pai (…). Da próxima vez que disserem que não há
desigualdade de género, que não há discriminação ou violência contra as
mulheres, lembrem-se da Lara.”
Não vale a pena entrar em minudências e notar que, habitualmente, o
número de filhos mortos pelas mães é superior ao de filhas mortas pelos
pais. Além de irrelevante, o pormenor implicaria descer ao nível de
“argumentação” da dona Marisa, criatura capaz de usar (ia escrever
“abusar”) um cadáver fresquinho para satisfação pessoal e
abrilhantamento da sua repulsiva “agenda”. Não é esse o ponto. O ponto é
que a eurodeputada (!) em questão diz estas coisas porque sabe que pode
dizer o que calhar sem consequências eleitorais ou sequer
contraditório. Nisso, a dona Marisa traduz com exatidão o respeito que
os figurões e as figuronas do BE têm pelo votante típico da seita:
nenhum. A rapaziada do BE parte do princípio de que os respectivos
apoiantes possuem apenas dois neurónios, um razoável e o segundo em vias
de aniquilação pelas leituras de Boaventura Sousa Santos. E, por uma
vez na vida, a rapaziada do BE arrisca-se a estar coberta de razão.
É um tique indissociável dos comunistas? Não vou tão longe. Veja-se a
história da Venezuela. Os comunistas do PCP assumem sem rodeios a
simpatia por uma tirania sanguinária na medida em que consideram o
eleitorado e percebem que este não lhes perdoaria simpatias por um
regime substancialmente distinto. Já os comunistas do BE passaram a
negar qualquer entusiasmo pelo sr. Maduro na presunção, possivelmente
correcta, de que os fiéis não consultam os incontáveis louvores ao
“chavismo” e às suas metástases escarrapachados nos arquivos do
esquerda.net – e não reparam nas sucessivas declarações formais em prol
do Odre de Caracas. Na óptica do utilizador, leia-se o povo, os
comunistas do PCP são coerentes, fanáticos, rigorosos e brutais. Os
comunistas do BE são só ignorantes, ou propensos a engolir as patranhas
que os mentores produzem independentemente da relação das patranhas com a
realidade. E da relação das patranhas entre si. Não é à toa que
defendem a Palestina e a “causa” gay em simultâneo. Ou se opõem às
“construções sociais” sem compreender que se resignam a milhares delas.
Ou, lá está, “combatem” a “violência doméstica” enquanto veneram as
culturas que a praticam a coberto da lei.
O votante típico do BE aceita tudo, excepto lucidez e um mínimo de
instrução. Quando uma daquelas Irmãs Mortágua vem agora propor o fim dos
exames do 9º ano, o que a preocupa não é o “insucesso escolar”: é o
sucesso. Para o BE, o analfabetismo é um abono de família, uma família
que reparte as tarefas e a violência sobre o bom senso.
Nota de rodapé
É óbvio que as únicas greves decentes são as organizadas pelos
comunistas para perturbar as democracias. Sem o aval de uma instituição
totalitária e criminosa, qualquer greve merece desconfiança,
requisições, proibições, castigos em suma. Na sua inocência, os
enfermeiros julgavam-se a exercer um direito de países livres e
descobriram-se a desafiar um tabu das ditaduras: a raiva que lhes é
dedicada, do PR ao colunista obediente, não engana. Os enfermeiros têm
azar? Não. Têm sorte de ainda não estar presos. Ao que se vê por aí,
vontade não falta, e o que falta é pouco.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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