Não esquecer: quando o
juiz Moro aceitou a denúncia de Palocci na Lava-Jato, Lula declarou que o
companheiro era um homem íntegro. Coluna de Augusto nunes em Veja.com:
Prefeito de Ribeirão
Preto de 1993 a 1996, descobriu-se que Antonio Palocci andava fraudando
licitações para a compra de cestas básicas e cobrando mesadas de
empresas fornecedoras da administração municipal. Imediatamente, Lula
garantiu que Palocci jamais faria uma coisa daquelas. A demonstração de
confiança foi reiterada em 2002, quando o chefe ordenou ao prefeito que
renunciasse ao segundo mandato para comandar a coordenação financeira da
campanha presidencial que levaria ao poder o candidato do PT.
A recusa dos
primeiros da fila dos cotados para o cargo antecipou a chegada de
Palocci ao Ministério da Fazenda, onde brilhou até meados de 2006.
Começou a perder o emprego quando se descobriu que o manda-chuva da
economia frequentava assiduamente a mansão em Brasília conhecida como
República de Ribeirão. O ministro negou o status de freguês mais
graduado do local reservado a festas ornamentadas por belas mulheres e
lobistas com prontuários assustadores. Testemunha das constantes
aparições do chefe, o caseiro Francenildo Costa implodiu a versão
anêmica. E entrou na mira da bandidagem.
À caça de
irregularidades que comprometessem a credibilidade de Francenildo,
Palocci encomendou o estupro do sigilo da conta que mantinha na Caixa
Econômica Federal. Imediatamente, Lula declarou que o grande companheiro
jamais faria uma coisa daquelas. Fracassadas as tentativas de mantê-lo
no cargo, o presidente caprichou na pose de viúva inconsolável ao
despedir-se do parceiro a quem conferiu o título de “melhor ministro da
Fazenda que o Brasil já teve”.
Em 2009, quando o
ministro Gilmar Mendes inventou o estupro sem estuprador para absolver
Palocci no julgamento do caso do caseiro pelo Supremo Tribunal Federal,
Lula lançou a candidatura do então deputado federal a governador de São
Paulo. Em 2010, o chefão decidiu que o ex-ministro seria muito mais útil
no papel de coordenador da campanha presidencial de Dilma Rousseff.
Consumada a vitória do poste, o fabricante ordenou-lhe que instalasse o
craque em coleta de doações eleitorais na chefia da Casa Civil.
Palocci durou pouco
no emprego. Soterrado por bandalheiras que transformaram em
multimilionário um despachante de negociatas fantasiado de consultor de
negócios, foi despejado do 4° andar do Planalto em 7 de junho de 2011.
Lula repetiu que o companheiro era inocente. Em novembro de 2016, quando
Sergio Moro aceitou a denúncia do Ministério Público Federal que
incluiu o ex-ministro entre os réus da Lava Jato. Lula solidarizou-se
com o “exemplo de integridade”.
O ex-presidente
repetiu a afirmação em junho passado, depois da condenação de Palocci a
12 anos de cadeia, e derreteu-se em elogios em sucessivas entrevistas.
Numa delas, protestou contra a injustiça perpetrada contra “um dos
homens mais inteligentes, leais e respeitáveis” que já conheceu. Também
por isso, jurou que não lhe tirava o sono uma possível delação premiada
do parceiro acusado por executivos da Odebrecht de administrar
pessoalmente a conta de Lula no Departamento de Propinas da empreiteira.
Ninguém mais qualificado do que o Italiano para lidar com a fortuna à
disposição do Amigo.
Nesta quarta-feira,
no segundo encontro com Sergio Moro em Curitiba, Lula mudou de ideia.
Ainda grogue com as revelações de grosso calibre feitas por Palocci na
semana anterior, enxergou no velho companheiro um “mentiroso, simulador,
calculista e frio”. O setentão corrupto condenado a 9 anos e meio de
gaiola anda enxergando as coisas pelo avesso. O Palocci que mentia para
protegê-lo é que se encaixa nos adjetivos que agora usa. Tornou-se um
perigo ambulante ao começar a contar a verdade.
A discurseira do
ex-presidente a caminho da morte política também confirmou que os
devotos da seita se curvam sem miados a uma regra que contém apenas uma
exceção. A regra: “Todo petista é inocente, seja qual for o crime que
tenha cometido”. A exceção: “Não haverá perdão para quem cometer o crime
de revelar os crimes do mestre”.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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