‘Caridade política’ de se ocupar 37 ministérios não é um plano de governo. William Waack:
Jair Bolsonaro e Arthur Lira estão no topo da lista de personagens políticos nos quais o STF
“aplicou freios”. Enquanto Bolsonaro era considerado por integrantes do
STF como “um louco” capaz de irresponsabilidades, Lira “a gente sabe
quem é e dispensa apresentações”. Capaz de qualquer coisa para
satisfazer a voracidade fisiológica.
Ao
frear Lira e favorecer Lula o STF inaugurou uma nova fase nas barganhas
políticas. Seus integrantes paralisaram um julgamento, envolveram-se
numa negociação direta com o Legislativo sobre os termos de uma peça
(que o Supremo acabou rejeitando) e desembocaram numa ação coordenada
para livrar o presidente eleito de um presidente da Câmara praticando o
que parecia ser um tipo de extorsão.
O
resultado é um alívio temporário e um mal-estar generalizado. A
“institucionalidade” hoje se traduz numa inversão de sinais: o Executivo
se sentia sob Bolsonaro como refém do Supremo. Hoje está sendo
protegido, mas não é o tipo de “guarda-chuva” que proporcione a Lula vida fácil com o Legislativo. Mesmo com o freio aplicado a Lira, que o atribui a Lula.
Fazer
política depende, sim, de manobras “espertas” como essa combinação
envolvendo o STF contra o presidente da Câmara. Mas depende mais ainda
da capacidade política do chefe do Executivo de mandar na agenda, e aqui
as coisas se complicam bastante. O que Lula basicamente pediu ao
Legislativo foi uma licença para gastar da qual se beneficiariam também
os parlamentares com verbas e cargos.
A
rigor, a disputa política envolveu apenas inflar números e prazo de
validade da licença para gastar – algo em que todos estão interessados
em Brasília. Por mais nobre e necessário que seja ajudar quem passa
fome, caridade não é um plano de governo. Nem é o que se discutiu nessas
últimas três semanas. O ponto principal era como conseguir gastar, e
por quanto tempo, sem ter de dizer de onde virá o dinheiro.
Mesmo num Congresso dominado pelo patrimonialismo e o Centrão,
conta muito o rumo geral que um governo pretende impor com suas
políticas. Também não é um plano de governo a “caridade política” de se
ocupar 37 ministérios com forças políticas que possam parecer uma frente
ampla. É simplesmente uma acomodação, através de verbas e cargos, que
carece até aqui de um rumo geral.
É
fato que o STF pode proteger um presidente Lula mas dificilmente saberá
dizer para onde deve ir. No momento, talvez só Lula saiba. Daí o fato
da confusão com as recentes barganhas ter deixado um misto de
perplexidade e desconfiança. É o que acontece quando o que surge no
horizonte político é só a barganha.
Postado há 9 hours ago por Orlando Tambosi

Nenhum comentário:
Postar um comentário