O desfecho desta guerra é o evento decisivo para o futuro da ordem regional e global. Se regressarmos ao regime de direito de conquista, iremos todos viver num Mundo muito mais perigoso. Bruno Cardoso Reis para o Observador:
Esta
semana fazemos um balanço do ano que está a terminar, destacando um
acontecimento e um protagonista. Sei que o calendário é um artifício,
como qualquer criação humana. Mas nem por isso deixa de ser um
instrumento muito útil para colocar ordem na natureza e para nos ajudar a
situar em conjunto a sucessão de eventos que marcam a nossa vida,
individual e coletiva. Para a semana ficarão alguns livros que marcaram o
meu ano e nos ajudam a perceber o mundo em que iremos viver.
Uma guerra diferente das outras
Estamos
a falar, claro, da invasão russa da Ucrânia iniciada a 24 de Fevereiro
de 2022 e que já completou 300 dias, resultou em dezenas de milhar de
baixas militares dos dois lados, mais de 4000 vítimas civis, e milhões
de refugiados. É verdade que não faltaram conflitos violentos nas
últimas décadas, não ignoro isso. Sei que os EUA e os países ocidentais
estiveram envolvidos em guerras no mínimo questionáveis. Mas nada disto
altera o facto de que esta é a primeira guerra de conquista e anexação
imperial desde o final da Segunda Guerra Mundial.
Também
é claro que os sonhos imperiais de Vladimir Putin, no poder na Rússia
desde 2000, são os responsáveis por esta agressão armada. Ela viola não
só a Carta da ONU de 1945, como também o memorando de Budapeste, de
1994, em que a Rússia garantia a independência plena e a integridade
territorial da Ucrânia em troca das suas armas nucleares. Esta guerra
demonstrou a fragilidade do poderio militar russo. Mas o conflito não
acabou ainda e tem o potencial de ser profundamente perturbador da ordem
regional e global.
É
verdade que ambos os lados têm sofrido enormes perdas, mas nem Moscovo,
nem Kiev dão sinais de cedência, e as suas exigências mínimas não
parecem conciliáveis por via de um acordo negociado. A Ucrânia continua a
apontar como prioridade a recuperação dos 15% do seu território ocupado
pela Rússia. O Kremlin considera que tem no mínimo de “libertar” todo o
território dos quatro distritos do Sul e do Leste anexados, mas está
longe de o conseguir. Veja-se a tentativa desde Maio de tomar Bahmut,
que transformou numa espécie de Verdun do século XXI, uma batalha de
atrição nesta fase de guerra de trincheiras a fazer lembrar a Primeira
Guerra Mundial.
O
que torna tão decisivo este conflito é ser uma demonstração da enorme
fragilidade das pretensões da Rússia a ser uma grande potência, o que
não a torna menos perigosa, pelo contrário. É a possibilidade, remota,
mas não impossível, de uma escalada descontrolada levar a um choque
direto entre os EUA e a Rússia, e potencialmente a uma guerra nuclear.
Ou ainda, por ser um teste, bem-sucedido para já, à solidez do Ocidente e
à sua capacidade de defender aliados democráticos em circunstâncias
geoestratégicas muitos adversas. O decurso e o desfecho desta guerra é o
evento decisivo para o futuro da ordem regional e global em que vamos
viver nos próximos anos. Se regressarmos ao regime de direito de
conquista pelas grandes potências, iremos todos viver num Mundo muito
mais perigoso.
O homem mais poderoso do Mundo
Seria
normal escolher Zelensky como personalidade do ano. Ele revelou grandes
qualidades de liderança, ultrapassando grandes divisões internas,
criando uma frente nacional de resistência ao invasor, mobilizando
apoios internacionais indispensáveis para viabilizar um combate
assimétrico com uma potência que batia a Ucrânia em dez para um nas
principais capacidades militares. Optei, no entanto, pelo líder chinês,
Xi Jinping. É certo que ele está no poder desde 2012, mas este ano é um
marco decisivo no seu percurso. Xi devia reformar-se este ano, depois de
dois mandatos, em linha com o modelo político de autoritarismo
moderado, institucionalizado pela elite comunista chinesa liderada por
Deng Xiaoping, desde 1978. Este modelo, claro, não garantia um
democracia pluralista e liberal, mas visava limitar os piores excessos e
os maiores riscos de uma concentração excessiva de poder numa só
pessoa, como tinha sido o caso de Mao Zedong. O dito “grande timoneiro”,
que definiu o rumo da República Popular da China desde 1949 até à sua
morte em 1976, tinha levado o país a desastres que causaram milhões de
mortos. Xi conseguiu pôr de lado esse modelo pós-Maoista, alterando a
lei e consolidando o seu controlo do Partido-Estado que domina a China
continental. O congresso de Outubro passado do PC chinês foi, portanto, a
consagração definitiva duma concentração de poder que não se via na
China desde o tempo de Mao.
Os
EUA ainda são mais poderosos que a China, mas o poder de Biden é muito
mais limitado do que de XI, desde logo no tempo. Putin tem mais poder
pessoal, mas a invasão da Ucrânia revelou grandes fragilidades na
potência russa. Já Xi garantiu este ano que poderá continuar a ser a
figura central na política chinesa nas próximas décadas, com enorme peso
na vida global.
É
verdade que ser o homem mais poderoso do mundo não é o mesmo que ser
omnipotente ou omnisciente. Logo a seguir a este triunfo pessoal, Xi
enfrentou o maior desafio desde a sua subida ao poder, em 2012: uma vaga
de protestos populares sem precedentes contra o regime draconiano de
Covid zero, que tinha identificado como um sucesso do seu governo e um
sinal da superioridade do regime chinês. Xi acabou por se ver forçado a
aceitar uma moderação na postura de combate ao vírus, correndo o risco
duma nova vaga mortífera da doença. Esta é uma possibilidade real nas
próximas semanas que poderá ter um impacto muito negativo no próximo
ano, a nível global, e, quiçá, no regime e no líder chinês. O futuro
continua em aberto, para Xi como para todos nós, mas o seu peso na
política global é, para já, uma certeza.
Postado há 1 hour ago por Orlando Tambosi

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