BLOG ORLANDO TAMBOSI
No
fim, toda essa patacoada sobre o “sonho americano” me fez pensar em
qual seria a personificação do sonho brasileiro: ganhar na Mega da
Virada, passar em concurso público, herdar uma fortuna, talvez ir além
das quartas de final em uma Copa. A crônica semanal de Ruy Goiaba para a
Crusoé:
Vocês
já conhecem a história de George Santos? Brasileiro nos EUA, filho de
imigrantes, 34 anos, ele se elegeu para a Câmara dos Representantes
(deputados) americana agora em novembro, nas mid-term elections. Veio do
nada, trabalhou duro, estudou numa faculdade pública de Nova York, fez
sucesso como financista e investidor em Wall Street e tem uma ONG que
resgatou mais de 2.500 cães e gatos. A “personificação completa do sonho
americano” — e, ainda por cima, republicano, apoiador de Donald Trump e
gay assumido.
O
problema é que, excetuando o nome do sujeito e o fato de que a eleição
de meio de mandato aconteceu, quase tudo isso que escrevi no primeiro
parágrafo é mentira. O New York Times foi checar o currículo de Santos e
descobriu que no Citigroup e no Goldman Sachs, onde o deputado eleito
diz ter trabalhado, ninguém sabe dele; no Baruch College, onde ele
afirma ter estudado, também não. Da mesma forma, o IRS, a Receita
Federal dos EUA, não tem registro da tal ONG de resgate animal, e a
empresa da família, que segundo o self-made man gerencia US$ 80 milhões
em ativos, não consta do LinkedIn nem tem site público.
Tem
mais: aparentemente empenhado em garantir para si o mais amplo combo
possível de minorias perseguidas, Santos fez constar de sua biografia
avós judeus, que teriam vindo para o Brasil fugindo de perseguições na
Ucrânia. O site judaico Forward, porém, revelou que os avós dele eram
cariocas, nascidos em 1918 e 1927, que batizaram a filha com o nome de
uma santa católica (Fátima). Mas a cereja do bolo foi publicada por O
Globo na quarta (21): a personificação do sonho americano é réu por
estelionato em Niterói. Em 2008, quando tinha 19 anos, Santos meteu um
par de cheques que não eram dele, e sim de um paciente da mãe morto no
ano anterior, para fazer compras em uma loja de roupas.
É
claro, picaretagem existe em todo lugar desde que o mundo é mundo.
Agora mesmo, os EUA prenderam por fraude o “rei das criptomoedas”, Sam
Bankman-Fried, um garoto muito parecido fisicamente com aquele seu
colega da faculdade a quem você JAMAIS emprestaria nem derreal. E há o
caso clássico de Bernie Madoff, condenado a 150 anos por armar o maior
esquema de pirâmide da história (fraude de estimados US$ 65 bilhões),
que morreu na cadeia no ano passado. Mas, fora o fato de essa turma
geralmente ficar presa, nenhum deles tem no currículo, o verdadeiro,
esse grau máximo da brasilidade que é BO por 171 em Niterói. Se Santos
não conseguir manter sua vaga na Câmara americana após as investigações,
sugiro que se candidate ao governo do Rio: seria perfeito.
No
fim, toda essa patacoada sobre o “sonho americano” me fez pensar em
qual seria a personificação do sonho brasileiro: ganhar na Mega da
Virada, passar em concurso público, herdar uma fortuna, talvez ir além
das quartas de final em uma Copa (sei que esse último é pedir demais).
Ou seja, excetuando o concurso, é basicamente ficar rico sem esforço, o
exato oposto do que eu e outros milhões de brasileiros otários — meus
semelhantes, meus irmãos — temos feito ao longo da vida toda. Proponho
que, em 2023, a gente acenda uma vela para são Jorginho Guinle: que em
algum momento da vida a gente consiga se materializar na pérgula do
Copacabana Palace, com a flûte de champanhe na mão. Amém.
***
A GOIABICE DA SEMANA
Como
estamos às vésperas do Natal, dedico a seção a um caso envolvendo o
papa. Francisco estava sendo entrevistado por dois repórteres de um
jornal espanhol e disse que já tinha preparado — logo no início de seu
pontificado, em 2013 — uma carta de renúncia para ser usada em caso de
“impedimento médico”. “O senhor quer que isso seja conhecido?”,
perguntaram os intrépidos repórteres. Em vez de dizer “não, inclusive
minha Guarda Suíça lamentavelmente terá de matar vocês dois agora” ou
“enganei vocês; pegadinha do Mallandro, rá!”, o Santo Padre respondeu o
que deveria ser óbvio (“é por isso que estou lhes dizendo”). Fico feliz
de constatar que, entra ano, sai ano, as “respostas cretinas para
perguntas imbecis” da velha revista Mad não saem de moda nunca.
***
BOAS ENTRADAS
Esta
é minha última coluna de 2022; se sobrevivermos, retorno na primeira
semana de janeiro, enviando a goiabada diretamente da Lulalândia. Até
lá!

O papa deve seguir o conselho de São Paulo sobre suportar tolos de cara alegre
Postado há 1 hour ago por Orlando Tambosi
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