MEDIÇÃO DE TERRA

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MEDIÇÃO DE TERRAS

sexta-feira, 23 de dezembro de 2022

Em busca do sonho brasileiro

 

BLOG  ORLANDO  TAMBOSI
No fim, toda essa patacoada sobre o “sonho americano” me fez pensar em qual seria a personificação do sonho brasileiro: ganhar na Mega da Virada, passar em concurso público, herdar uma fortuna, talvez ir além das quartas de final em uma Copa. A crônica semanal de Ruy Goiaba para a Crusoé:


Vocês já conhecem a história de George Santos? Brasileiro nos EUA, filho de imigrantes, 34 anos, ele se elegeu para a Câmara dos Representantes (deputados) americana agora em novembro, nas mid-term elections. Veio do nada, trabalhou duro, estudou numa faculdade pública de Nova York, fez sucesso como financista e investidor em Wall Street e tem uma ONG que resgatou mais de 2.500 cães e gatos. A “personificação completa do sonho americano” — e, ainda por cima, republicano, apoiador de Donald Trump e gay assumido.

O problema é que, excetuando o nome do sujeito e o fato de que a eleição de meio de mandato aconteceu, quase tudo isso que escrevi no primeiro parágrafo é mentira. O New York Times foi checar o currículo de Santos e descobriu que no Citigroup e no Goldman Sachs, onde o deputado eleito diz ter trabalhado, ninguém sabe dele; no Baruch College, onde ele afirma ter estudado, também não. Da mesma forma, o IRS, a Receita Federal dos EUA, não tem registro da tal ONG de resgate animal, e a empresa da família, que segundo o self-made man gerencia US$ 80 milhões em ativos, não consta do LinkedIn nem tem site público.

Tem mais: aparentemente empenhado em garantir para si o mais amplo combo possível de minorias perseguidas, Santos fez constar de sua biografia avós judeus, que teriam vindo para o Brasil fugindo de perseguições na Ucrânia. O site judaico Forward, porém, revelou que os avós dele eram cariocas, nascidos em 1918 e 1927, que batizaram a filha com o nome de uma santa católica (Fátima). Mas a cereja do bolo foi publicada por O Globo na quarta (21): a personificação do sonho americano é réu por estelionato em Niterói. Em 2008, quando tinha 19 anos, Santos meteu um par de cheques que não eram dele, e sim de um paciente da mãe morto no ano anterior, para fazer compras em uma loja de roupas.

É claro, picaretagem existe em todo lugar desde que o mundo é mundo. Agora mesmo, os EUA prenderam por fraude o “rei das criptomoedas”, Sam Bankman-Fried, um garoto muito parecido fisicamente com aquele seu colega da faculdade a quem você JAMAIS emprestaria nem derreal. E há o caso clássico de Bernie Madoff, condenado a 150 anos por armar o maior esquema de pirâmide da história (fraude de estimados US$ 65 bilhões), que morreu na cadeia no ano passado. Mas, fora o fato de essa turma geralmente ficar presa, nenhum deles tem no currículo, o verdadeiro, esse grau máximo da brasilidade que é BO por 171 em Niterói. Se Santos não conseguir manter sua vaga na Câmara americana após as investigações, sugiro que se candidate ao governo do Rio: seria perfeito.

No fim, toda essa patacoada sobre o “sonho americano” me fez pensar em qual seria a personificação do sonho brasileiro: ganhar na Mega da Virada, passar em concurso público, herdar uma fortuna, talvez ir além das quartas de final em uma Copa (sei que esse último é pedir demais). Ou seja, excetuando o concurso, é basicamente ficar rico sem esforço, o exato oposto do que eu e outros milhões de brasileiros otários — meus semelhantes, meus irmãos — temos feito ao longo da vida toda. Proponho que, em 2023, a gente acenda uma vela para são Jorginho Guinle: que em algum momento da vida a gente consiga se materializar na pérgula do Copacabana Palace, com a flûte de champanhe na mão. Amém.

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A GOIABICE DA SEMANA

Como estamos às vésperas do Natal, dedico a seção a um caso envolvendo o papa. Francisco estava sendo entrevistado por dois repórteres de um jornal espanhol e disse que já tinha preparado — logo no início de seu pontificado, em 2013 — uma carta de renúncia para ser usada em caso de “impedimento médico”. “O senhor quer que isso seja conhecido?”, perguntaram os intrépidos repórteres. Em vez de dizer “não, inclusive minha Guarda Suíça lamentavelmente terá de matar vocês dois agora” ou “enganei vocês; pegadinha do Mallandro, rá!”, o Santo Padre respondeu o que deveria ser óbvio (“é por isso que estou lhes dizendo”). Fico feliz de constatar que, entra ano, sai ano, as “respostas cretinas para perguntas imbecis” da velha revista Mad não saem de moda nunca.

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BOAS ENTRADAS

Esta é minha última coluna de 2022; se sobrevivermos, retorno na primeira semana de janeiro, enviando a goiabada diretamente da Lulalândia. Até lá!

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