O woke já chegou às revistas científicas: quem não reza pela cartilha politicamente correta é barrado. A "revisão por pares", no anonimato, favorece a censura. Eli Vieira para a Gazeta do Povo:
Na
última semana, o site Retraction Watch, que acompanha artigos
científicos renegados pelas revistas a que foram submetidos, noticiou um
caso de três publicações removidas depois que uma investigação revelou
manipulação na chamada “revisão por pares”. O processo consiste em
críticas geralmente anônimas feitas por outros especialistas (os pares)
que decidem se o artigo de um colega da área será rejeitado ou aceito
para publicação, com ou sem modificações. Os críticos alegam que esse
procedimento não serve para inibir fraudes na ciência, tampouco resolve a
questão da subjetividade, mas fomenta a burocratização, a censura, a
competição entre pesquisadores e até o desenvolvimento de pesquisas
ruins. A revisão por pares, acrescentam, também não minimiza os altos
custos envolvidos, os potenciais conflitos de interesse e os sinais de
enviesamento em publicações científicas.
O
psicólogo experimental Adam Mastroianni chama a revisão por pares de um
experimento que a ciência está fazendo consigo mesma há mais de 60
anos. “O desenho experimental não era bom; não havia randomização, nem
grupo controle. Ninguém era líder, exatamente, e ninguém estava fazendo
mensurações consistentes”, comenta ele em publicação própria, em que
oferece um histórico do procedimento e uma conclusão: “Os resultados
chegaram. Ela fracassou”.
Por
que fracassou? Mastroianni elenca alguns dos altos custos: a cada ano,
as horas que os cientistas gastam atuando como revisores equivalem a 15
mil anos de trabalho. As universidades gastam milhões para acesso às
revistas que devem parte de seu prestígio a serem revisadas por pares.
Segundo o Portal da Transparência, só para acesso das instituições
brasileiras à revista Nature foram gastos, em 2018, R$62 milhões (US$18
milhões) em impostos em um contrato que expira no último dia deste ano e
deve ser renovado. Sem considerar potenciais conflitos de interesse. Em
2022, por exemplo, a revista emitiu editorial pedindo que os
brasileiros votassem em Lula nas últimas eleições, além de dar sinais de
enviesamento ideológico crescente.
“Se
a revisão por pares tivesse melhorado a ciência, isso deveria ser bem
óbvio”, continua Mastroianni. “Não melhorou”, conclui. Ele pensa que a
revisão pode até ter incentivado pesquisas ruins, pois, quando um
revisor pede resultados adicionais, os autores já têm um incentivo para
produzir resultados numa direção pré-definida. Em diferentes áreas, a
produtividade da pesquisa está estável ou em declínio por décadas.
Novas
ideias não parecem encontrar espaço — a revisão ajuda dogmáticos a
rejeitar heresias. Há, também, uma grande crise da replicação — isto é,
quando há tentativas de refazer estudos, os mesmos resultados dos
originais não são obtidos com uma frequência assustadora. Essa crise,
que começou na psicologia, se alastrou como uma metástase até para a
pesquisa do câncer. Além disso, um já célebre estudo do médico John
Ioannidis, de 2005, propõe que a maioria dos resultados de pesquisas
publicadas são falsos.
Em
diferentes estudos da eficácia dos revisores em encontrar erros
deliberados e nada sutis, eles não conseguem passar da marca de 30% de
equívocos corrigidos. Artigos fraudulentos são publicados com
frequência, como é possível inferir das publicações do Retraction Watch.
Fraudes
na pesquisa do Alzheimer podem ter levado ao desperdício de centenas de
milhões de dólares. Enquanto isso, etapas salutares na pesquisa
científica, como o compartilhamento de dados, não recebem a atenção
devida. É um custo de oportunidade: porque o que está instituído é
considerado marca de confiabilidade, e o que realmente aumenta a
confiabilidade, como dados públicos, acaba negligenciado. “A maior parte
das revistas não exigem que os dados sejam públicos”, lamenta
Mastroianni. Ele não é o primeiro cientista a declarar guerra à revisão
por pares.
Malvisto pelos pares
Bruce
Graham Charlton é um médico britânico que teve uma carreira produtiva
na pesquisa científica. O Google Acadêmico soma mais de cinco mil
citações em seu nome. Ele atuou nas áreas da neuroendocrinologia, saúde
pública e psiquiatria. Até 2019, foi professor de psiquiatria evolutiva
na Universidade de Newcastle.
“Minha
crença é que a ciência apodreceu de cima para baixo”, é o diagnóstico
que ele faz no livro Nem Mesmo Tentando: A Corrupção da Ciência Real
(tradução livre para Not Even Trying: The Corruption of Real Science, de
2012, sem edição em português). “Enquanto a causa última da traição tem
sido o abandono da verdade concebida como um valor transcendental”, diz
Charlton, “o mecanismo proximal pelo qual a corrupção foi implementada
foi a revisão por pares”.
A
impugnação de Charlton à revisão por pares pode parecer radical,
afinal, como ele próprio reconhece, a revisão por pares tornou-se “o
autopercebido processo central da ciência”. O problema, para ele, é que
“o triunfo da revisão por pares é um triunfo do comitê sobre o
indivíduo, do protocolo sobre o juízo”: o processo é uma burocratização e
coletivização das decisões científicas e presume que o procedimento de
um comitê é mais objetivo e mais válido que o julgamento individual.
Para
o britânico, comitês não podem ser melhores que a responsabilidade
individual. Pensar que incrementam a objetividade é uma ilusão: “a
revisão por pares não resolve o problema da subjetividade; em vez disso,
ela substitui a subjetividade individual potencialmente responsável
pela subjetividade de grupo necessariamente irresponsável”.
Charlton
compara a ciência contemporânea a uma fábrica polonesa, remanescente da
era soviética, que ele viu uma vez no programa da BBC Troubleshooter
(1990-1993). “A fábrica estava produzindo vastas quantidades de copos
defeituosos que ninguém queria. Ninguém queria comprá-los, nem mesmo
usá-los. Então, os copos simplesmente eram acumulados em pilhas gigantes
ao redor do prédio da fábrica — usando recursos, atrapalhando a
passagem e ocupando todo o espaço útil”. Para ele, este é o estado da
ciência profissional hoje: “foi inchada por décadas de crescimento
exponencial até se tornar uma fábrica soviética de indústria pesada
dominada por burocratas”.
Anualmente
1,8 milhão de artigos acadêmicos são publicados em 28 mil revistas,
segundo estimativa da Associação Internacional de Editoras Científicas,
Técnicas e Médicas em 2012. Em 2014, a economista Dahlia Remler calculou
quantos artigos nunca são citados por outros, um indicativo de que
nunca foram lidos. Seriam 12% na medicina, 27% nas ciências naturais,
32% nas ciências sociais e 82% nas humanidades. No Brasil, o pesquisador
de bioquímica Marcelo Hermes-Lima calculou que, enquanto o país está na
14ª posição mundial em número de artigos publicados, ele fica em 53º
lugar, entre 66 países analisados, em se tratando na quantidade de
citações por artigo, que são apenas duas. A análise do cientista,
publicada na Gazeta do Povo em 2019, aponta que o estado de baixo
impacto da ciência brasileira não se explica por falta de dinheiro.
Hipóteses médicas: a última resistente
Charlton
praticou o que prega: entre 2003 e 2010, ele foi editor-chefe da
revista acadêmica Medical Hypotheses, destituída de revisão por pares.
Fundada em 1975 e editada até 2003 por David Horrobin, um fisiologista
tão heterodoxo quanto Charlton, a revista explicitamente estimulava a
especulação e a diversidade de ideias no debate científico. A revisão
era editorial, não por pares. Havia um grupo de conselheiros, entre os
quais estava o respeitado neurocientista Vilayanur Ramachandran, que
disse à revista Science que a MH era o único lugar em que ideias que
podem parecer implausíveis, mas seriam importantes se verdadeiras,
podiam ser publicadas. Outros conselheiros incluíam o neurologista
português António Damásio e o laureado do Nobel de fisiologia Arvid
Carlsson.
Foi
justamente a publicação de ideias implausíveis que deu um fim ao
pequeno nicho libertário sem comitês da Medical Hypotheses: em 2009,
contra a vontade do editor Bruce Charlton, a Elsevier, gigante da
publicação acadêmica e dona da revista, retratou dois artigos polêmicos,
um dos quais propunha a escandalosa hipótese de que a AIDS poderia não
ser causada pelo HIV. Pressionado a implementar a revisão por pares,
Charlton recusou-se e terminou demitido de sua função em 2010.
Várias
das críticas à revista creditavam a publicação desses artigos à falta
de revisão por pares. Apesar dos protestos de 13 dos 19 conselheiros da
revista, a Elsevier finalmente implementou a revisão por pares. Damásio,
na época, declarou à Science que o artigo negando a associação entre
HIV e AIDS não deveria ter sido publicado. Desde a demissão de Charlton,
o número de menções dos artigos da revista em outras publicações,
utilizado como um indicativo de influência, teve uma tendência central
de declínio até 2020, segundo a empresa de análise de dados de
publicação acadêmica Scimago.
Mehar
Manku, novo editor da revista que foi aluno do fundador Horrobin, disse
em entrevista à Science um mês após a demissão de Charlton que
instituir o protocolo dos pares não era uma traição à missão da revista,
que ele evitaria polêmicas e teria o cuidado de não entrar em assuntos
controversos. Em um obituário, John Stein, colega de Horrobin em Oxford,
diz que ele considerava a revisão por pares “competidores com incentivo
para achar defeitos” e um processo que “encoraja punhaladas pelas
costas; favorece psicopatas”, especialmente no contexto de concessão de
verbas de pesquisa, e que “suprime a inovação”. “Ele entendia que bons
pesquisadores são raridades que precisam de apoio especial, como
artistas”, comenta Stein.
Mastroianni
tem opinião similar: a revisão por pares foi aceita porque a visão de
ciência vencedora na Segunda Guerra foi aquela preocupada com o elo mais
fraco da corrente: ideias falsas devem ser combatidas — o que ecoa na
cultura em geral até hoje, em projetos de lei de criminalização de “fake
news” e “desinformação”. “Mas a ciência é um problema do elo mais
forte: o progresso depende da qualidade dos nossos melhores trabalhos”,
reflete.
“Não
precisávamos de um establishment científico que sufocasse as ideias
erradas. Precisávamos que ele deixasse que as novas ideias desafiassem
as velhas, e o tempo faria o resto”. O psicólogo vê relação desse
problema com o tema geral e premente da liberdade de expressão: “tudo o
que a censura faz é dificultar a derrota das ideias velhas. A revisão
por pares, como toda forma de censura, meramente ralenta a verdade”.
História
Considerada
hoje uma parte salutar da comunicação científica e do rigor em
pesquisa, a revisão por pares na verdade é jovem e não era feita em
obras seminais de cientistas como Newton, Darwin, Lavoisier e Mendeleev.
O próprio Einstein, em toda a sua carreira, teve apenas um artigo
revisto por pares, o que o ofendeu e o levou a publicar em outra
revista.
Não
era incomum para os cientistas clássicos que colegas comentassem ou
ajudassem com suas publicações antes que fossem ao prelo. Darwin, por
exemplo, deixou um grande volume de cartas trocadas com interessados ao
redor do mundo. Mas a revisão por pares burocratizada, como é hoje, só
surgiu na época da Segunda Guerra Mundial, quando os governos deram
verbas em níveis sem precedentes para pesquisa e queriam uma forma de
assegurar que não estavam desperdiçando os recursos.
As
revistas científicas, as primeiras das quais surgiram no século XVII,
que antes precisavam quase implorar por mais artigos, passaram a
necessitar, também, de um método de triagem para uma explosão de
submissões. Raro até a década de 1960, em pouco tempo o protocolo de
revisão se tornou quase universal.

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