António Costa é useiro e vezeiro em utilizar as palavras sem relação direta com o seu significado. É a versão portuguesa do Humpty-Dumpty da Alice: as palavras significam o que eu quero. Coluna do professor Paulo Tunhas para o Observador:
Confesso
que hesitei em escrever este artigo. Primeiro, porque
compreensivelmente receava a dura prova de ler nada menos do que as 11
páginas da entrevista de António Costa à Visão. Um confronto assim com a
temível máquina de palavras que é António Costa ameaçava deixar-me
derreado. Em segundo lugar, porque já tanta gente escreveu ou falou da
entrevista em questão que a probabilidade de notar algo que tivesse
passado previamente despercebido era remota.
E
é verdade que os traços mais salientes da entrevista foram quase todos
notados. Por exemplo, o seu desprezo manifesto pela oposição, expresso
numa linguagem grosseira e primitiva. Assim, a IL é constituída por
“queques” que “guincham”, o que os torna “ridículos”, sem conseguirem
alçar-se ao “vozeirão popular que o Ventura consegue fazer”. O PSD, pelo
seu lado, em estado de desespero, “faz números”. “Guinchos” e “números”
são, naturalmente, amplificados pela “bolha mediática”, aliada à
“central de produção de soundbites da direita”. Toda esta gente ignora
por inteiro os verdadeiros problemas dos portugueses, que intimamente a
desprezam e amam Costa. O único problema do Governo que não se reduz a
“casos e casinhos” puramente imaginários foi o de Pedro Nuno Santos com o
aeroporto, e esse foi resolvido em 24 horas.
Não
é que Costa negue a necessidade de uma verdadeira oposição. Nobremente,
reconhece que “não há nenhum bom governo que não precise de uma boa
oposição”, acrescentando com uma generosidade única: “É muito útil para a
democracia”. Grande verdade, grande sabedoria, grande lição.
Infelizmente, a oposição, que tanto o deveria saber, ajudada pela “bolha
mediática”, ignora-o abissalmente. E com essa atitude, Costa não tem
paciência. Mas mesmo nenhuma. Enumera as suas profundas preocupações de
estadista e desabafa: “se agora andasse a distrair-me com essas coisas
que entretêm os comentadores, meu Deus!”. Tal a sua irritação que
menciona o incómodo que a insistência nos “casos e casinhos” causa junto
dos seus assessores de imprensa, “que podiam concentrar-se noutros
trabalhos e são ocupados a distrair-se com esses assuntos”. Não está
bem, de facto. Os assessores de imprensa a preocuparem-se com as
histórias de Miguel Alves! Não é justo!
Mas
o que o irrita verdadeiramente e provoca a sua indomável cólera é outra
coisa: são as “mentiras vis” – “velhacarias”, diria o seu mestre
Sócrates – de Carlos Costa no livro de Luís Rosa. Isso põe-no fora de
si. E lembra o exemplo do pai e da mãe. Face à turpitude de “criaturas”
que revelam em público conversas, “mantenho-me nas regras da educação
que os meus pais me deram” – que comportam, sem dúvida, os imperativos
de não “guinchar” nem “fazer números”. A família, de resto, ocupa uma
elevada presença no pensamento de António Costa. Respondendo a uma
pergunta sobre os novos dois irmãos no Governo, que aparentemente
violariam a regra imposta desde o tempo do célebre caso das famílias no
conselho de ministros, Costa responde (vale a pena citar a resposta por
inteiro): “Disse tudo: são duas personalidades com competências
reconhecidas. Tenho uma grande vantagem: vejo, pela minha própria
família, que não é pelo facto de eu ser o primeiro-ministro e de o meu
irmão ser quem é [Ricardo Costa, director de informação da SIC] que
deixo de cumprir as minhas funções, e ele também”. Os entrevistadores,
Mafalda Anjos e Filipe Luís, aparentemente não levaram a mal que Costa
não lhes respondesse à questão que tinham colocado – a colisão com um
princípio por ele próprio estabelecido –, já que não insistiram na
pergunta, talvez embevecidos com tão notáveis exemplos familiares.
Tudo
isto tem a sua importância, embora uma importância relativa. O que,
pelo contrário, é verdadeiramente preocupante num primeiro-ministro é
outra coisa: a sua manifesta ignorância do que significa “estrutural”.
Em três colunas da entrevista, Costa usa a palavra pelo menos 11 vezes. O
que significa, sem dúvida, que a aprecia – ou, pelo menos, que ela lhe
lembra alguma coisa. Infelizmente, lembra-lhe qualquer coisa de errado,
atendendo ao modo como a utiliza.
Senão,
vejamos. António Costa começa por distinguir as reformas estruturais
que a direita quer das que ele defende. As da direita, presume-se, são
vãs e malignas (e, no que têm de bom, como as que permitiriam a melhoria
da competitividade da nossa economia, ele fá-las melhor). As dele, pelo
contrário, são magníficas e prosseguem, indomáveis, à velocidade da
luz.
São
elas: “ter reduzido para menos de metade o abandono escolar precoce no
nosso País”, “a mudança mais estrutural do País, porque muda tudo”; a
mudança estrutural – aliás, uma “revolução estrutural” – obtida, no
seguimento “da paixão do engenheiro Guterres pela Educação” e “do
programa tecnológico do engenheiro Sócrates”, nos níveis de qualificação
do País; a mudança estrutural na “forma como temos finanças públicas
sustentáveis e ao mesmo tempo conseguimos aumentar o investimento
público”; a “mudança estrutural em curso” na redução da pobreza; o
encerramento das centrais de carvão; o aumento de dotação para a Saúde; e
a aprovação do estatuto do SNS. “Se isto não são mudanças estruturais, o
que são mudanças estruturais?”, pergunta-se.
Ora,
se entendermos por “estrutural” aquilo que normalmente se entende, isto
é, no mínimo, problemático. “Estrutura” significa uma rede
interconectada que serve de base a uma série de operações que a partir
delas podem ser operadas. É, portanto, algo de que possui uma forte
estabilidade que contrasta com a variabilidade relativa daquilo que a
partir dela pode ser produzido através de um número indefinido de
combinações. É uma versão simplificadora das coisas, é verdade, mas é
aqui suficiente. A natureza, as sociedades, as línguas e um sem-número
de outras realidades possuem estruturas: definem-se a partir delas. As
mutações estruturais, possíveis em algumas dessas realidades – e as
sociedades pertencem a esta categoria –, são transformações nessa base, a
partir de reformas ou de revoluções, que modificam, em graus variáveis,
as combinações possíveis na superfície da estrutura. Não são
modificações na superfície: são modificações na base que determinam,
mais ou menos univocamente, modificações na superfície.
Como
é bom de ver, as “reformas estruturais”, ou “revoluções estruturais”,
mencionadas por Costa não são, com a possível excepção do encerramento
das centrais de carvão, nada de estrutural. São rearranjos, mais ou
menos felizes, mais ou menos credíveis, da superfície. Não quero estar
aqui a discutir a felicidade ou infelicidade desses arranjos, a sua
credibilidade ou inverosimilhança. Apenas quero dizer que nada têm de
estrutural.
Seria
pretensioso da minha parte estar aqui a discutir a pertinência do
vocabulário de Costa neste ponto particular, não fosse ele revelar a
natureza – estrutural, de facto, essa – do modo de relação de António
Costa com a linguagem. Como boa e bem rolada máquina de palavras que é,
ele é useiro e vezeiro em utilizar as palavras sem relação directa (às
vezes, nem sequer indirecta) com o seu significado. É a versão
portuguesa do Humpty-Dumpty da Alice: as palavras significam o que eu
quero. E não há nada a fazer: ele é assim. Para que deixasse de o ser,
seria preciso uma verdadeira revolução estrutural. Suponho que com meras
reformas ele não ia lá.
PS.
Excelente discurso de Biden e excelente discurso de Zelensky ontem em
Washington. As palavras certas e inequívocas. É o que mais importa.
Dependemos dos Estados Unidos – já o sabíamos – e da Ucrânia – sabemo-lo
agora – para vivermos livremente.

Nenhum comentário:
Postar um comentário