Montadora chinesa utilizou amianto, que é cancerígeno, para vedar motor.
Confira quais substâncias já foram banidas de carros no mundo.
Priscila Dal Poggetto
Do G1, em São Paulo
Chery Cielo (Foto: Divulgação)
A
Chery
inicia nesta segunda-feira (1º) o recall de 12.462 unidades de dois
modelos de carros no Brasil, para troca de peças que contêm amianto. O
material foi utilizado vedação do motor e do escapamento do Tiggo, e na
vedação do motor do Cielo.
O amianto é um material cancerígeno que, assim como outras substâncias tóxicas
(veja abaixo),
já foi banido dos carros no Brasil e em outros países devido ao alto
grau de periculosidade. O recal da Chery no mercado brasileiro é
voluntário porque, embora haja a restrição para a produção de peças com a
substância, não existe lei no país que obrigue a convocação neste caso.
Como os modelos são importados, a homologação dos carros no Brasil foi
permitida.
Envolvendo apenas 12.462 unidades no país
(confira os chassis ao fim da reportagem),
segundo divulgou a empresa, o risco maior pelo uso do amianto nesses
veículos não é para os ocupantes, mas para quem manipularia diretamente o
material, como mecânicos, dizem especialistas consultados pelo
G1.
A Chery afirma que buscou uma empresa autorizada pela Cetesb para fazer
o descarte correto do material. Serão trocadas a junta do coletor de
admissão e a junta do sistema de escape do Tiggo e a junta do coletor de
admissão do Cielo.
"Embora tenha sido constatada que a pequena composição de amianto
(asbesto) identificada nos componentes dos veículos não representa
nenhum risco à saúde, a Chery alerta aos seus consumidores que não
realizem por conta própria a substituição das peças, o que deverá ser
feito apenas por técnico qualificado de uma das concessionárias da rede
Chery Brasil", diz o comunicado da empresa.
De acordo com a montadora chinesa, o recall foi uma decisão assumida
pela própria matriz para tratar o assunto de forma clara, já que o tema
ganhou repercussão internacional quando carros da marca foram
interceptados pela fiscalização alfandegária da Austrália. Ainda segundo
a Chery, o fornecedor que utlilizou a substância foi trocado por outro.
A empresa chegou a ser
notificada pelo Procon-SP
porque anunciou à imprensa que realizaria o recall, mas não realizou
anúncios publicitários exigidos para esse tipo de convocação.
Saiba quais são os riscos
Antes de ser banido, em 1991, o amianto da variedade anfibólio
(conhecida como amianto azul ou marrom) foi utilizado em larga escala
pela indústria automobilística na fabricação de lonas de freio e no
revestimento dos discos de pastilhas de freio e embreagem, além na
vedação de motores e sistemas de escape. Na China, o uso dessa
substância é permitido.
Técnicas como zincagem e bicromatização e o uso do amianto, berílio,
tíner, entre outros, hoje são substituídos por materiais orgânicos ou
não tóxicos. Isso porque qualquer veículo, quando se desloca, não emite
apenas CO2. Diversas substâncias são jogadas no ambiente em
micropartículas que nem sempre saem do escapamento. Por causa disso, a
exposição aos materiais não é somente de quem dirige ou manipula peças
do carro, mas sim de qualquer um que respire partículas expelidas por
ele.
"Todas as peças do carro sofrem desgastes e emitem partículas no
ambiente, como pneus, freios, discos de embreagem, etc.", afirma o
diretor e conselheiro da Sociedade dos Engenheiros da Mobilidade (SAE
Brasil), Francisco Satkunas. “Na realidade, o veículo, quando passa,
deixa um rastro de emissões e particulados. A gente não enxerga, mas
está lá", ressalta o especialista, que inclui o amianto entre tais
materiais.
"Na rua, o impacto de 12.462 veículos em todo país deve ser muito
pequeno ou desprezível. Com o recall, o problema será resolvido”, afirma
o médico pneumologista Ubiratan de Paula Santos. Segundo ele, o risco
aumenta quanto maior for o contato com o material e o tempo desse
contato, como no caso, por exemplo, de mecânicos. Quem se expõe ao
amianto sem a devida proteção, explica, corre o risco de desenvolver
doenças como o câncer de pleura tipo mesotelioma, câncer de pulmão e
fibrose da pleura.
É preciso fiscalizar o descarte do material do recall"
Ubiratan de Paula Santos, médico
Descarte do materialO pneumologista alerta para
que o descarte do material recolhido no recall da Chery seja feito de
forma correta e em aterros específicos para materiais perigosos.
“Onde existe material com amianto deve ser programada a remoção
progressiva e, neste caso, com uso de roupas especiais. Os resíduos têm
que ser dispostos em aterros para materiais perigosos, como recomenda a
Cetesb”, diz Santos. “É preciso fiscalizar o descarte.”
A montadora ressalta que tanto o motor quanto o sistema de escape mantêm o material isolado.
Cobre e a extinção do salmão
Mas não é somente o ser humano que se prejudica com as partículas
expelidas pelos carros. De acordo com o Satkunas, uma pesquisa feita nos
Estados Unidos apontou que as partículas de cobre que são desprendidas
durante a frenagem dos carros vão parar em rios por meio do escoamento
das águas de chuva e contaminam peixes da espécie salmão.
Partes como freio soltam material particulado
(Foto: Divulgação)
“Segundo a pesquisa, hoje, nos Estados Unidos, os carros emitem 37
toneladas métricas de cobre só pelas pastilhas de freio. O salmão ingere
esse cobre e somente 10 micro gramas já alteram a capacidade de se
locomover do peixe. Por isso, ele não consegue se alimentar e acaba
morrendo”, explica.
Por causa do salmão, os EUA querem, em 2014, fazer com que a quantidade
de cobre nas pastilhas seja inferior aos atuais 5%. “É preciso achar um
substituto ecologicamente viável”, diz o especialista. Pastilhas de
freio e de embreagem podem ter até 40 elementos diferentes em sua
composição. O cobre é um deles e ajuda a aumentar o atrito que faz com
que o carro freie.
Veja chassis dos veículos envolvidos no recall da Chery
Tiggo
Fabricados no Uruguai:
Chassi mais antigo: 9UJDB14B7AU003549 (data de fabricação 11 de fevereiro de 2010)
Chassi mais novo: 9UJDB14BXCU007534 (data de fabricação 17 de agosto de 2011)
Fabricados na China:
Chassi mais antigo: LVVDB14BXBD010310 (data de fabricação: 09 de abril de 2010)
Chassi mais novo: LVVDB14B2CD037938 (data de fabricação: 22 de agosto de 2011)
Cielo
Cielo Sedan:
Chassi mais antigo: LVVDC11B0BD011015 (data de fabricação: 24 de maio de 2010)
Chassi mais novo: LVVDC11B7CD044983 (data de fabricação: 21 de setembro de 2011)
Cielo Hatch:
Chassi mais antigo: LVVDB11B1BD011110 (data de fabricação: 24 de maio de 2010)
Chassi mais novo: LVVDB11B0CD045122 (data de fabricação: 22 de setembro de 2011)