O meu central voto de Ano Novo consiste em que possamos continuar a usufruir com orgulho da determinação pluralista que sempre distinguiu a democracia liberal — obra comum de partidos rivais. Artigo do professor João Carlos Espada para o Observador:
Manda
a tradição — não escrita, não imposta pelo Estado, por isso mesmo muito
estimável, sobretudo para os amantes da liberdade — que, no começo de
um novo ano, devamos exprimir os nossos votos para o ano que se inicia. É
uma tradição civilizada e agradável. Exprime a nossa confiança na
falível possibilidade de melhorar — não por alegados determinismos
historicistas, ou tecnocráticos, ou revolucionários, mas por melhorias
parcelares e reformistas, inspiradas por valores morais partilhados.
Esta
tradição é hoje agradavelmente consensual. Mas convém recordar que ela é
simultaneamente contrária ao positivismo dogmático (por exemplo de
Hegel, ou de Marx, ou de Comte) e ao niilismo dogmático (por exemplo de
Nietzsche). Todos eles tinham em comum aquilo que os grandes autores
liberais do século XX — Walter Lippmann, Joseph Schumpeter, Karl Popper,
Friedrich Hayek, Raymond Aron, Michael Oakeshott, Isaiah Berlin, Ralf
Dahrendorf, para citar apenas alguns, onde faria aliás sentido incluir
Winston Churchill — condenaram como “ópio dos intelectuais” (uma
expressão de Aron): os positivistas e os niilistas acreditavam que
sabiam, sem saberem que acreditavam. Por isso, a sua ignorante
arrogância fatal alimentou os totalitarismos do século XX — o comunismo,
o fascismo e o nacional-socialismo — todos eles fundados nas certezas
vulgares de tribalismos rivais. Novos tribalismos estão hoje na moda,
mas a sua natureza dogmática e primitiva permanece inalterada.
Contrariamente
a esses primitivismos rivais, os tradicionais votos de Ano Novo não se
fundam em vulgares certezas tribais. Pelo contrário, exprimem esperanças
melhoristas, apelando a escolhas livres de pessoas livres, fundadas em
valores morais partilhados e em conhecimentos falíveis que poderão ser
amanhã corrigidos e até refutados.
O
meu primeiro voto de Ano Novo é sem dúvida de esperança na vitória das
vacinas contra a covid-19. Trata-se sem dúvida de esperança na Ciência,
como tem sido justamente observado. Mas deve ser gentilmente
acrescentado que esta “Ciência” não foi produto de um plano central do
estado, mas de uma colaboração entre os financiamentos estatais e as
empresas privadas. As vacinas, que aliás são várias, emergiram de
empresas privadas descentralizadas, com programas de investigação
autónomos e concorrenciais, não de departamentos centrais estatizados,
alegadamente “racionalistas” ou “altruístas”. Por outras palavras,
concorrência privada e interesse público caminharam de mãos dadas — mãos
certamente “invisíveis”, parafraseando Adam Smith, sobretudo para
muitos positivistas, colectivistas e revolucionários (onde incluo os
contra-revolucionários).
O
segundo voto de Ano Novo deve por isso residir no reforço desta
colaboração entre os governos e a iniciativa privada, bem como com as
instituições autónomas da sociedade civil. Vale a pena recordar que esta
colaboração — em regra designada por ‘economia social de mercado’ — tem
distinguido as democracias liberais do Ocidente dos seus vários
inimigos, à esquerda e à direita. Esta distinção merece ser recordada
com orgulho: ela está de novo a revelar os seus frutos.
O
terceiro voto de Ano Novo deve em seguida residir no reforço da coesão e
colaboração entre as democracias liberais que orgulhosamente protegem, e
assentam em, economias sociais de mercado. No eixo dessa colaboração
estão as democracias euro-atlânticas, com particular expressão na NATO, a
aliança militar mais antiga e com mais sucesso da era contemporânea. O
reforço da NATO e do diálogo transatlântico deve por isso estar no
centro dos votos para o ano que agora se inicia.
Um
quarto voto de Ano Novo consiste em apelar à continuação e reforço do
diálogo e cooperação entre a União Europeia e o Reino Unido. A saída do
Reino Unido da União Europeia é certamente susceptível de crítica e de
(aliás visível) irritação. Mas foi resultado de um longo processo
democrático e pacífico na mais antiga democracia parlamentar do planeta.
Os valores que legitimam a escolha democrática da saída britânica são
por isso os mesmos valores que legitimam a escolha democrática de
partilha da soberania pelos Parlamentos dos outros 27 estados membros da
União Europeia.
Por
outras palavras, a legítima partilha da soberania entre os estados
membros da União Europeia assenta na escolha livre e soberana dos
Parlamentos nacionais. Não decorre de uma alegada certeza positivista,
ou tecnocrática, ou historicista, ou revolucionária, sobre a imaginária
obsolescência inevitável dos parlamentos nacionais.
Esta
suave distinção poderá talvez sugerir um quinto voto de Ano Novo: o de
que uma conversação tranquila e civilizada possa gradualmente vir a
amenizar a algazarra tribal que hoje tende a dominar o debate público —
muito estimulada, ao que me dizem, pelas chamadas redes sociais (o que
não posso avaliar, dado que não as frequento).
Para
que a conversação tranquila possa voltar a ter lugar, será crucial
recusar aquilo que Ralf Dahrendorf chamava insistentemente de
“dicotomias infelizes”: entre tradição e mudança; entre sentido de dever
e liberdade pessoal; entre interesse privado e interesse público; entre
identidade cultural e tolerância pluralista; entre soberania nacional e
colaboração multilateral.
Dahrendorf
fazia questão de recordar que as culturas políticas fundadas naquelas
“dicotomias infelizes” tenderam sempre a oscilar entre a revolução e a
contra-revolução — ou, parafraseando Tocqueville, entre o abuso e a
servidão. Por contraste, as mais robustas e pacíficas democracias
liberais — sobretudo entre os povos de língua inglesa — sabiamente
evitaram as “dicotomias infelizes”. Não porque tivessem tentado
aboli-las. Mas, porque as “amaciaram”, ou “moderaram”, ou “civilizaram”,
através do debate tranquilo entre propostas rivais — cuja sede primeira
se situa nos Parlamentos nacionais. Foi por isso que Raymond Aron
gostava de sublinhar que “a democracia é obra comum de partidos rivais”.
É
também por isso que o meu central voto de Ano Novo consiste
simplesmente em que possamos continuar a usufruir com orgulho desta
determinação pluralista que sempre distinguiu — e sustentou — as
democracias liberais: obra comum de partidos rivais.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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