Tensões internas facilitam a vida dos democratas e criam a possibilidade de que o presidente divida um partido ao qual nunca pertenceu totalmente. Vilma Gryzinski:
Donald Trump entregou de bandeja a vitória no segundo turno da eleição para o Senado na Geórgia.
Esta
é a interpretação sussurrada entre os “rebeldes” do Partido
Republicano, os congressistas que rejeitam o explosivo e, acima de tudo,
inútil final de mandato que Trump tem utilizado em tempo integral para
propalar a tese de que a eleição de Joe Biden foi fraudada.
Todo
mundo já sabe da importância da eleição senatorial, com sua capacidade
de dar a maioria do Partido Democrata e propiciar uma largada de governo
mais tranquila para Joe Biden – possibilidade tratada com algum
exagero: Trump e Barack Obama também tiveram maioria nas duas casas
legislativa no começo de seus mandatos e nem por isso fizeram grandes
transformações.
A
diferença mínima da vitória de Raphael Warnock, (50,6%) um simpático
pastor que faria inveja aos padres do PT, sobre Kelly Loefler (49,4%),
mais conhecida como a senadora mais rica da casa, indica que o resultado
poderia ter sido diferente.
A
segunda disputa, entre Jon Ossof e David Perdue, com a possível vitória
do primeiro, ainda não havia sido oficialmente fechada, mas também
favorece o democrata.
Cada
um dos candidatos vencedores recebeu doações de campanha de mais de 100
milhões de dólares, uma quantia absurda até pelos padrões americanos.
Joe
Biden disse que se eles ganhassem, o auxílio emergencial de 2.000
dólares, ao invés do mais modesto de 600, entraria imediatamente no
bolso dos americanos, uma declaração eleitoreira que provocaria repúdio
nos bem pensantes se estes não estivessem igualmente empenhados em mover
céus, terras e tuítes para derrotar os republicanos.
Enquanto
os democratas agiam em frente unida, Trump passou mais tempo brigando
com o governo estadual, republicano, do que defendendo os candidatos do
partido.
O
motivo da briga é conhecido: ele quer achar provas de fraude eleitoral
na Geórgia, um dos estados onde a vitória de Biden foi apertada e o
governador é republicano.
Por
causa disso, fez o telefonema em que exerceu pressão máxima sobre o
secretário estadual responsável pela contagem dos votos, Brad
Raffensperger. Trump chegou a insinuar que o secretário poderia sofrer
sanções legais e tuitou críticas a ele.
No
dia seguinte, a gravação da conversa estava no Washington Post e só não
provocou escândalo maior porque a conta é que faltam apenas duas
semanas para o fim do mandato presidencial.
Alguns
céticos diriam até que Trump de rédeas soltas nos momentos finais do
jogo é benéfico para os democratas. Desse ponto de vista, idealmente ele
deveria levar a briga até o fim e rachar o Partido Republicano,
sabotando por muito tempo suas chances de ganhar eleições para cargos do
executivo.
Pensando
na base fiel que continua a venerar Trump e na importância dela para
2024, um grupo de senadores e deputados vai contestar hoje o resultado
da eleição presidencial. As consequências práticas são poucas, mas
contribuem para o clima de exaltação que Trump pretende levar até seu
último dia na Casa Branca.
Ou
até depois dele. Ninguém imagina Trump contidamente retirado do calor
da política para escrever suas memórias e cuidar de uma futura
biblioteca presidencial.
Poderia
ele anunciar desde já que será candidato em 2024 ou vai criar um
partido dissidente, separado dos republicanos com os quais nunca se
identificou completamente?
A
diferença é que então o presidente será Joe Biden e as tensões internas
do Partido Democrata, que já estão despontando, passarão a ser o
assunto mais interessante.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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