O espetáculo nacional é deprimente! Cenas pelo mundo mostram pessoas sendo vacinadas, enquanto as estatísticas da morte em nosso país só aumentam. Um mínimo de bom senso ensejaria a pergunta: por que pessoas são lá vacinadas, enquanto aqui vivemos de uma verborragia de quinta categoria?. Denis Rosenfield para o Estadão:
Um
ano foi encerrado e outro se inicia sem que tenhamos ao certo uma linha
divisória entre um e outro. Talvez por décadas seja esta uma
experiência única, pois a sensação do não acabou ainda ou a pergunta de
quando esse ano de 2020 vai terminar persistem. A humanidade foi
severamente atingida por uma pandemia que segue ceifando vidas, as
pessoas, acossadas, não sabem mais como responder. Algumas adotam a
atitude de estar cansadas e decidem pela imprudência e pela doença,
quiçá a morte, enquanto outras procuram se proteger. Vida e morte se
entrelaçam de outra maneira, com esta última avançando.
Sinais
de vida são fortalecidos mediante uma frenética e, parece agora,
bem-sucedida busca por vacinas. Num esforço global gigantesco, 12 meses
foram suficientes para que novas formas de combate à covid-19 fossem
descobertas. Sinais de morte também encontraram o seu caminho, com
governantes irresponsáveis menosprezando a doença, deixando as pessoas
morrerem aos milhares. A irresponsabilidade do governo Bolsonaro é
gritante, com 200 mil pessoas nos abandonando definitivamente. Nem numa
guerra morrem tantas pessoas e, contudo, nem combatentes temos.
Zeram-se
os impostos para importação de armas como se se tratasse de uma
prioridade nacional, suponha-se, então, para dar uns tiros no
coronavírus. Este, porém, não se deixa abater pelos discursos
demagógicos. Quanto mais se atira nele dessa maneira, mais se espraia.
No seu íntimo, deve estar rindo de nossos governantes. Os verdadeiros
tiros, que seriam uma política responsável de combate à pandemia,
encontram-se estranhamente ausentes.
O
espetáculo nacional é deprimente! Cenas pelo mundo mostram pessoas
sendo vacinadas, enquanto as estatísticas da morte em nosso país só
aumentam. Um mínimo de bom senso ensejaria a pergunta: por que pessoas
são lá vacinadas, enquanto aqui vivemos de uma verborragia de quinta
categoria?
Lá
fora, em países minimamente responsáveis, quase em outro planeta, e já
se contam às dezenas, as campanhas de vacinação começaram. Não importa
que seus governantes sejam de direita ou de esquerda, o que deve ser
levado a sério é a vacina e as medidas de precaução no combate à doença.
Dizendo uma obviedade: as pessoas lutam pela vida, não fazem encenações
macabras, como se morrer por descaso fosse normal.
O
presidente Bolsonaro, em seus dois anos de mandato, alinhou-se ao
presidente Trump e ao primeiro-ministro Netanyahu. Ora, o que fizeram
esses governantes? Lançaram grandes campanhas de vacinação, deram
prioridade à vida, tudo fazendo para que as pessoas possam proteger sua
saúde. Não lhes importou a origem das vacinas, contanto que deem
resultados. Pessoas sendo vacinadas, governantes dando o exemplo, nenhum
negacionismo! Será que o nosso presidente não poderia alinhar-se a
essas políticas, seguindo-as?
Se
continuarmos nesse diapasão, a única imunidade que vamos adquirir será a
de rebanho, o que levaria pelo menos mais 12 meses. Será que é isso que
merecemos, ser tratados como rebanho? Se isso persistir, talvez nos
reste procurar uma sociedade de proteção dos animais!
A
situação chega às raias do absurdo. O presidente Bolsonaro e o
governador Doria polemizam sobre a eficácia de vacinas pelos meios de
comunicação. A luta pela vacina tornou-se uma guerra publicitária, não
de saúde! Nem um nem outro seguem os protocolos científicos. Para que se
comprove a eficácia de uma vacina, há etapas a serem cumpridas, dentre
as quais, ressalte-se, a divulgação do relatório de pesquisa com a
conclusão de sua fase 3, a publicação dos resultados por uma revista
cientificamente reconhecida, submetida a pares independentes, e a
submissão de todos esses documentos a uma agência reguladora.
Foi
o feito pela Pfizer/BioNTech e pela Moderna, a partir do que, com
segurança, começaram as aplicações. Aqui, no Brasil, a vacina da
Sinovac/Butantan não cumpriu ainda esses procedimentos, no entanto, o
começo de uma campanha de vacinação já foi anunciado! Na verdade, só
tivemos anúncios sendo sistematicamente postergados. Melhor não fazer
campanha publicitária nenhuma, pois essa já é suficientemente
contraproducente! A AstraZeneca/Fiocruz, embora divulgue com maior rigor
os seus resultados, apenas agora conseguiu a sua aprovação na agência
inglesa, abrindo caminho para a sua aplicação, após erros metodológicos
em sua terceira fase. A Anvisa, até agora, não recebeu a documentação
completa dessas respectivas pesquisas. Logo, evidentemente, não pode ser
responsabilizada por nenhum atraso. O resto é campanha publicitária e
luta política.
Em
mudanças de ano, habitualmente desejamos um feliz ano novo, expressando
com isto um sentimento de amor e de fraternidade. Uma esperança sempre
se faz presente, mesmo em modos aparentemente formais. Há um sincero
desejo de que as coisas melhorem, deixando eventuais infortúnios para
trás. Que assim seja, e oremos, talvez sem muita confiança, para que
nossos governantes tomem juízo! Está difícil...
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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