O dissidente Alexei Navalny solta uma surpresinha com ampla investigação sobre a rede de negociatas criadas para ocultar o tesouro do novo czar. Vilma Gryzinski:
Alexei
Navalny voltou para a Rússia e foi preso, como estava previsto.
Milhares de partidários de seu projeto oposicionista saíram para
protestar e muitos também foram detidos, inclusive sua mulher, Yulia.
Nada fora do roteiro.
A
novidade foi que Navalny, sabendo muito bem o que ia acontecer,
preparou um longo vídeo investigativo sobre a maior, comentada e pouco
exposta residência particular da Rússia.
O
“Palácio de Putin”, como é chamado o suntuoso complexo num morro com
vista espetacular para o Mar Negro, já tem tempo suficiente de vida para
merecer sua própria entrada na Wikipedia.
Mas
Navalny e sua equipe da Fundação Anticorrupção (FBK) tiraram leite de
pedra. Usaram drones para furar o espaço aéreo e marítimo protegidos e
“entrar” na área de 700 mil metros quadrados onde ficam o palacete em
estilo italiano predominante no século 19 e um complexo de construções
auxiliares.
Comparado
a um covil de vilão de James Bond, daqueles de antigamente, o complexo
inclui um túnel por dentro da montanha para chegar até a praia,
anfiteatro ao ar livre, pista subterrânea de hockey no gelo, igreja,
cinema, cassino, um lounge com equipamento para pole dancing e outras
extravagâncias.
A
que mais impressionou Navalny foi a águia czarista no alto do portão
principal – igualzinha à mostrada nas cenas da Tomada do Palácio de
Interno no filme de Eisenstein.
O
palacete em si tem 17.691 metros quadrados. Fotos vazadas durante a
construção mostram interiores suntuosos, com salões principescos,
cúpulas pintadas, camas com dossel e outros detalhes decorativos
copiados de palácios verdadeiros.
Áreas
ainda interditadas e alojamentos em atividade mostram que nem todo o
dinheiro do mundo consegue resolver problemas construtivos comuns como
vazamentos e até mofo.
Fora
explorar o interesse natural pelas imagens de um palácio avaliado em
1,4 bilhão de dólares, Navalny mostra a rede de cupinchas da turma de
Vladimir Putin desde o tempo em que, de modesto funcionário da KGB, foi
trabalhar na prefeitura de São Petersburgo.
Aproveitando
o choque terrível do derretimento institucional que acompanhou o fim da
União Soviética, Putin ascendeu baseado num princípio que Navalny assim
definiu no documentário: “Você quer desviar dinheiro do orçamento e
roubar os cofres públicos? Alie-se a Putin”.
Alguns
dos métodos usados para criar uma rede de empresas offshore e de
fachada, para que nem um copeque aparecesse em nome de Putin, demonstram
o cinismo monumental daqueles que tudo podem.
Entre
outras fachadas, o palácio aparece como uma empresa de pesquisas
educacionais ou um acampamento infantil. Desde 2011, o complexo está
oficialmente em nome do oligarca Alexander Ponomarenko.
Muitos
detalhes da fenomenal prova de desvio de recursos foram revelados por
um “arrependido”, Sergei Kolesnikov, antigo integrante da turma de São
Petersburgo.
A
estonteante rede de corrupção do regime russo não é nenhuma novidade e a
popularidade de Putin, mesmo que não seja a unanimidade dos velhos
tempos, indica que a maioria dos russos está disposta a relevar a
roubalheira em troca da estabilidade e da reconstrução nacional que
Putin indubitavelmente promoveu depois da degringolada na virada do
século.
Seja
um palácio no Mar Negro, seja um triplex no Guarujá, residências fora
do poder aquisitivo nominal de governantes sempre se transformam num
símbolo mais concreto de irregularidades, de fácil entendimento para
todos, ao contrário das redes de fachadas criadas justamente para
dificultar a compreensão dos esquemas.
O
vídeo de Navalny tornou-se viral, com mais de oitenta milhões de
visualizações, mas seria ingenuidade achar que vai mudar alguma coisa.
Da
mesma forma que aconteceu com o envenenamento do oposicionista, em
agosto, que por pouco não conseguiu tirá-lo completamente de cena, Putin
só tem que fazer o que sempre faz: negar tudo.
Os
milhares de russos que foram às ruas para protestar contra a prisão de
Navalny assim que retornou ao país, alguns enfrentando em cidades
siberianas temperaturas de 50 graus negativos, tampouco alteram qualquer
uma das colunas de sustentação de Putin.
Mas
funcionam, como tantos outros bravos opositores da história da Rússia,
como sinal de que a consciência nacional não está enregelada. E nem o
mais prodigioso dos palácios abafa suas vozes.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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