A ficção científica do momento se mistura com a morte por envenenamento de Lin Qi, fundador de empresa de games que pretendia ganhar o mundo. Vilma Gryzinski:
O
que pode acontecer quando se unem os criadores da série Game of
Thrones, o autor do sensacional O Problema dos Três Corpos e o fundador
de uma empresa de games que pretendia unir isso tudo?
Como
a realidade bate a ficção, sempre, essa verdadeira fusão nuclear de
talentos da cultura pop levou um choque letal quando o dia de Natal
terminou, na China, com a notícia do assassinato de Lin Qi, criador da
Yoozoo Games.
Aos
39 anos e 1,3 bilhão de dólares, Lin Qi morreu, aparentemente, por obra
da combinação letal de ambição e briga profissional com um de seus
executivos, Xu Yao.
Essa
foi a versão divulgada imediatamente após a morte. O veneno pode ter
vindo, segundo variam as fontes e as especulações, de um tipo de chá
fermentado que muitos chineses adoram, de uma neurotoxina de origem
ignorada ou de substâncias letais misturadas a remédios.
Lin Qi foi internado em 16 de dezembro, com sintomas de envenenamento; no dia seguinte, foi para a UTI e no dia 25 estava morto.
“Você
viu a imperfeição, mas continuou a acreditar na beleza; conheceu a
maldade, mas ainda acreditava na bondade”, disse a elegante mensagem de
despedida divulgada no site da empresa, a nona maior no brutalmente
competitivo mercado de games na China.
Fora
a conclusão de que o Xu Yao detido como suspeito só poderia ser o mesmo
rebaixado na empresa, mas ainda mantido na divisão de filmes e
televisão, nada mais se sabe sobre as investigações.
Lin
Qi planejava nada menos que conquistar o mundo – e talvez até algum
espaço fora dele – com as adaptações da série Memórias do Passado da
Terra, a trilogia cujo primeiro volume é O Problema dos Três Corpos, uma
referência ao problema de mecânica celeste considerado insolúvel, sobre
a inconstância das órbitas de três corpos com forças gravitacionais
conflitivas.
Os
livros não são fáceis e exigem do leitor ocidental atenção para a série
de personagens com nomes chineses e interesse pela batelada de questões
da física e astrofísica impiedosamente alinhada por Liu Cixin, o
escritor mais incensado da China.
Sem
falar na suspensão da incredulidade, vital para uma série que abarca 18
960 405 anos de história da Terra e do conhecimento científico (antigo
Egito, China de antigas dinastias imperiais, Revolução Cultural entre
outros) e avança para o futuro sem medo de espantar os leitores.
É
claro que uma história assim atrairia nomes como a Netflix e David
Benioff e D. B. Weiss, os criadores da adaptação de Game of Thrones para
a série que hipnotizou o planeta.
A
Yoozoo já tinha feito o Game of Thrones: Winter is Coming, o game que a
divulgou nos países ocidentais. Em setembro, foi anunciada a associação
com a Netflix para a série de ficção científica. A Amazon queria
comprar os direitos para o cinema por 1 bilhão de dólares.
Segundo
o principal jornal chinês de economia e finanças, Lin Qi (pronuncia-se
Lin Chi) queria tirar Xu Yao da jogada e havia cortado seu salário. O
projeto gigantesco também enfrentava outros problemas devido ao
gigantismo e a Yoozoo, que Lin Qi havia vendido, mantendo 25% das ações,
teve que desistir de produzir as próprias adaptações.
Como
bom visionário, ele havia comprado os direitos sobre O Problema dos
Três Corpos pouco tempo depois que o livro saiu, em 2015.
O
escritor é venerado da China – e visto também como uma peça importante
no grande xadrez geopolítico, com o potencial de sua obra se transformar
no maior feito de soft power da superpotência.
Liu
Cixin não é um escritor fácil e não tem posições políticas simpáticas
no Ocidente. Numa reportagem da revista New Yorker, disse que a
democracia não é um sistema adequado para a China e que sairia correndo
do país se ela visse a ser implantada.
No
primeiro livro da série, um governante de Trisolaris, onde se gesta a
invasão da Terra, refere-se a uma civilização que teve “sociedades
livres e democráticas e que deixou ricos legados culturais”.
“Não
sabemos quase nada sobre ela. A maior parte dos detalhes foi selada e
proibida de ser vista”. Exceto que “este tipo de civilização era o mais
fraco e o de vida mais curta”.
Na
trama de O Problema dos Três Corpos, cientistas famosos começam a se
suicidar e outros a jogar um game que os leva a Trisolaris, o planeta
com três sóis que criam uma imprevisível alternância entre eras do caos e
era estáveis – mais do que evocando as tribulações históricas da China.
A partir daí, a coisa fica muito mais complicada e envolve, claro, o futuro da humanidade e da Terra.
A
morte por envenenamento de um bilionário que queria “invadir” a Terra
via cultura pop dá uma guinada espetacular na história. E ainda deixa em
aberto o capítulo com tudo o que Xu Yao, o acusado, tem a dizer.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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