Nada de bom nasce da violência, ainda que ela encontre justificativa numa visão deturpada de justiça. Via Gazeta, a crônica diária de Paulo Polzonoff Jr.:
Desde
Caim, o mal do mundo é procurar justificativas para erros cometidos
conscientemente. O personagem bíblico, no caso, matou o irmão Abel por
inveja. Uma vez confrontado, foi logo colocando a culpa na suposta
“predileção” de Deus pelo outro. Condenado a errar pelo mundo, Caim
continua em seu périplo eterno, disseminando não só crimes, mas
sobretudo o ímpeto de fazer de si uma exceção às leis morais que regem a
vida.
O
que se viu ontem, durante e depois da invasão do Capitólio por
manifestantes pró-Trump, foi um festival de cainzices. Todo mundo
reconhecendo o erro da violência política que resultou na morte de ao
menos uma pessoa, mas também todo mundo procurando (e encontrando)
justificativas para a violência. A eleição foi fraudada, Joe Biden vai
destruir os Estados Unidos, a imprensa é parcial e ecoa o discurso
esquerdista. Etc.
Tudo
isso é ou pode ser verdade. Assim como, por insondáveis motivos, talvez
a preferência de Deus por Abel fosse verdade. No entanto, é justamente
diante dessas situações de conflito que o certo deve se sobrepor. E o
certo nunca é recorrer a alguma forma de violência real ou simbólica só
para ver prevalecer um conceito muito particular (e torto) de justiça.
Vingança
Já
há alguns anos me esforço cotidianamente para me abster da noção de
justiça que norteia a vida pública e privada contemporânea. Não é fácil.
E tudo por causa de um simples post de Facebook escrito por um autor
com o qual, infelizmente, nunca me dei muito bem. O parágrafo escrito
por César Miranda me foi enviado por um amigo ainda no turbulento ano de
2016. E diz o seguinte (grifos meus):
“A
grande inimiga da paz é a justiça. O senso de justiça avilta o senso de
perdão e fecha as portas ao amor. Para haver paz é preciso,
primeiramente, esquecer a justiça. Quando não se dispõe da justiça, o
amor é o que resta. Institua a justiça como primeiro item de um processo
de paz e o ódio vem à tona. O mundo só vai sair desse lamaçal quando o
homem tiver “orgulho de perdoar”. A Justiça dos homens não é justiça, é
vingança. No paraíso haverá bilhões de almas que foram para lá
‘injustamente’, ganharam a eternidade da bem-aventurança por obra e
graça da bondade divina. No inferno não, para o inferno só vai quem
merece, todos os habitantes do inferno estão lá por justiça. O inferno é
o reino da justiça, o paraíso é o reino do amor e do perdão”.
Não
espero que você concorde com a mensagem. Até porque sei que ela é
incômoda demais. Quase contraintuitiva, sobretudo numa época em que
evocamos a todo instante a justiça, com suas promessas de reparação
(vingança) a qualquer preço. Eu mesmo tive de lê-la e relê-la e
treslê-la, e ainda hoje ela me desce arranhando a garganta, quase como
uma heresia. Afinal, somos todos descendentes simbólicos de Caim e,
diante do que entendemos como injustiça, sentimos que precisamos fazer
alguma coisa – a justificativa a gente dá um jeito de encontrar depois. É
na justiça reparadora (vingativa) dos homens que estão todos os males
do mundo.
Depois
de assimilar essa incrível lição dada por uma pessoa que nunca vi
pessoalmente e com a qual troquei meia dúzia de palavras, três delas
provavelmente ríspidas, minha vida mudou. Para melhor. Não que eu espere
do leitor epifania parecida. Infinitas foram as circunstâncias que me
levaram a abdicar do senso muito mundano de justiça e, assim, seguir com
a minha vida. Fica aqui, porém, o testemunho, não com a esperança de
convencer, e sim de fazer o leitor refletir.
Coragem e covardia
Ainda
que não tenhamos, ainda bem, o impulso assassino de Caim, agimos como
ele o tempo todo. Nossa violência, seja ela em atos ou palavras, é
sempre sucedida por justificativas as mais estapafúrdias. Argumentos e
mais argumentos, muitos deles desavergonhadamente falaciosos, são
evocados na hora de prestar conta de nossas ações e palavras a nós
mesmos. Foi ele quem começou. O PT também fazia isso e ninguém falava
nada. Se eu não fizer alguma coisa, a esquerda vai destruir tudo o que
eu lutei para construir. Etc.
Complica
ainda mais a situação quando adicionamos a esse caldo noções bastante
superficiais de coragem e covardia. Grosso modo, corajoso (e admirável) é
aquele que vai lá e faz alguma coisa. Qualquer coisa. Invade o
Capitólio. Bloqueia o amigo bolsonarista/petista/isentão. Dá uma
“voadora retórica” no adversário e o bota “em seu devido lugar”. E assim
por diante.
E
associamos a covardia à inação, mesmo quando virtuosa, e ao perdão. Daí
a ideia, muito presente no espelho do mundo que são as redes sociais,
de que é preciso se sublevar a fim de restaurar a ordem. Discurso
contraditório, principalmente quando dito por quem se considera um
conservador. De passagem, vale mencionar aqui como contraponto os
inúmeros objetores de consciência nas guerras recentes – tratados todos
como covardes e, alguns, condenados à morte.
Quanto
ao perdão, acreditam os guerreiros virtuais que perdoar é para os
fracos. Já escutei muito também que quem perdoa hoje amanhã acabará num
pelotão de fuzilamento ou campo de concentração. É sempre uma
possibilidade. Mas não seria justamente esse medo o que definiria o
covarde?
Vivemos
dias de Caim. De um lado, há os ressentidos e invejosos, também
chamados de oprimidos e desprivilegiados, que, incapazes de perdoarem a
si mesmos por sua inveja e temerosos das consequências de uma predileção
divina que só existe na cabeça deles, recorrem à justiça dos homens em
busca de reparação, na forma diabólica de vingança. De outro estão os
guerreiros que se consideram ungidos e que, levados ao confronto pelo
medo herético de que o mal vença o conflito eterno, acabam por destruir a
si mesmos e a tudo de bom e belo que seus antepassados foram capazes de
criar – na expectativa de ver triunfar um ideal de justiça que também
só existe em suas cabeças.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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