A nossa moralidade permite que se fale mal do “judeu rico”. Já a expressão “preto pobre” aparece sempre como alvo de compaixão ou condescendência. Bruna Frascolla para a Gazeta do Povo:
Eu
nunca tinha visto discriminação antissemita, então não sabia ao certo o
que se passava na cabeça de quem o praticava. Descobri que a base do
preconceito antissemita é, assim como o preconceito contra a cor e a
origem regional, redutível ao preconceito financeiro. A diferença é que a
gente de pele escura ou de sotaque nordestino passa por pobre, enquanto
que o judeu identificável (de solidéu na cabeça) passa por rico. Ambos
podem ser destratados, ao contrário do que reza o senso comum dos
marxistas. Mas a quem considera a natureza humana, que inclui a inveja,
não há de se boquiabrir com discriminação contra supostos ricos.
Vou
contar o causo. Aconteceu numa pequena agência franqueada dos Correios,
que antes da pandemia era sossegada, e depois da pandemia se tornou bem
movimentada por mais de uma razão: primeiro, as agências estatais já
vinham fechando antes mesmo da pandemia; segundo, muitas agências das
redondezas fecharam durante a pandemia; terceiro, as pessoas têm
comprado mais coisas online.
Mudança na clientela
Na
agência, há cada vez mais caixas de loja de roupas. O peão que as
carregava dizia que o povo tá é doido comprando roupa na internet. Mesmo
que as compras sejam feitas por sites com serviço de entrega próprio,
as devoluções são feitas pelos Correios através de etiquetas pré-pagas. A
atendente já tornou protocolar perguntar ao cliente novato se ele tem a
etiqueta. Quando o cliente fica confuso, é porque não tem etiqueta
nenhuma, e quer só enviar o pacote.
Ou
seja: com a pandemia, a clientela da agência mudou. Antes havia os
velhinhos enviando cartas com bombons para os amigos (carta com bombom é
pesada como bombom, não como impresso, diz a atendente), e havia os
gringos desorientados querendo enviar postais e cartas para seus países
natais (a atendente mandava botar tudo como carta simples), sem saber
falar português direito. Agora há a loja de roupas, os mototaxistas, os
clientes do Mercado Livre, os peões querendo mandar coisa pro interior
sem saber o que são remetente e destinatário, além de um gringo
desorientado ou outro. Os velhinhos se escassearam com medo. Não têm
aparecido mais para enviar mimos nem bater papo com a atendente.
Assim,
não é de admirar que o clima da agência tenha mudado. Antes da
pandemia, eu via dona com quilos de paciência atrasar a fila para
convencer um nonagenário (que queria enviar suas aquarelas para o primo
da aldeia galega onde as casas não têm número) de que ele não poderia
colocar no envelope, junto com o destinatário, um bilhete malcriado para
os funcionários da central dos Correios lerem. Mas durante a pandemia o
pessoal da agência foi humano e prestativo com esses fregueses novos,
os peões semiletrados.
Dia atípico
Vou
eu à agência e fico contente ao ver que dessa vez quase não há fila. Lá
dentro, há somente o número máximo de clientes permitido pela
prefeitura, ou seja, dois, para dois balcões. Um dos clientes era um
judeu religioso: quipá na cabeça, barbona, camisa de botão branca, calça
preta de tecido, fiozinhos brancos saindo de baixo da blusa e pendendo
sobre a calça. Penso que a atendente nunca viu uma figura assim na vida.
Eu nunca vi em Salvador, e só conheço a vestimenta porque um dos meus
irmãos, carioca, se vestia assim. (Eu não sou judia, e ele é meu irmão
por parte de pai. Filhos de judias nascem judeus, sejam as judias
praticantes ou não. Daí os filhos de uma judia não praticante poderem
ser religiosos. Parece que uma sinagoga carioca esteve com essa
tendência de atrair jovens com perfil não religioso e transformá-los em
religiosos. Assim como padres e pastores variam conforme as igrejas,
também os rabinos variam conforme as sinagogas.) Quando vi o cliente de
costas, então, simpatizei. O outro cliente saiu e eu entrei.
Nem
bem eu entrei, e a dona da agência, que estava no balcão, saiu. Ficamos
na sala eu, a atendente e o judeu, que, meio atrapalhado com o
português, queria saber se o pacote que ele esperava estava ali. A
atendente explicava que era pra esperar o pacote chegar na casa dele,
ele dizia que estava com quinze dias de atraso, que foi à agência
principal procurar, mas estava fechada. Puxou o celular do bolso e
mostrou um print que mandaram pra ele com o itinerário do pacote. O
print era velho. Sei que, se tem o itinerário, tem o código de rastreio.
Eu sabia que ele não ia conseguir nada ali, uma mera agência
franqueada, então puxei o meu celular do bolso e mostrei o aplicativo
dos Correios. Disse que, como ele tinha o código, poderia ver no
aplicativo ou no site, e perguntei se ele queria que eu visse. Ditou as
letras e números, apareceu o trajeto do bendito pacote. O trajeto
pareceu esclarecedor para ele. Ele agradeceu, falou a mesma frase
riponga que meu irmão fala (deve ser uma tradução de shalom) e foi
embora. Pelo sotaque, acho que era israelense.
Aparece
enfim a dona da agência, e me explica que eu não deveria ter feito
aquilo. Que o povo é folgado, que atrasa as filas só para olhar o código
de rastreio que pode ser visto na internet. Eu concordaria, se houvesse
filas, e se não fosse um gringo desorientado. Ressaltei isso em vão.
Para ela, aquele era um judeu, judeus têm dinheiro e condições, logo,
têm dinheiro e condições de olhar as coisas na internet, logo, aquele
era um folgado.
É
claro que aquilo não faz sentido. Os gringos não são pobres e são bem
tratados. O judeu não era folgado, pois foi até à agência principal, que
fica longe, atrás do pacote. Estava desorientado, como frequentemente
acontece com estrangeiros. Se aquilo não era discriminação antissemita,
não sei o que era.
Cuidado com a compaixão
Saí
pensando que essa situação toda de “não vou atendê-lo por causa de tal
característica étnica” aparece na opinião pública como sendo a causa da
miséria e destruição de negros, e só de negros. Mas ali não só não era
um negro, como era de um grupo ao mesmo tempo mais maltratado e mais bem
sucedido. Dizem que, se um negro for discriminado, ele irá virar
abóbora até que apareçam burocratas, ongueiros e CEOs iluminados para
empoderá-lo. Mas se os judeus enfrentaram o antissemitismo que culminou
no Holocausto e não ficaram fadados ao fracasso, por que deveríamos
achar que os negros, as mulheres e os gays estão? Presume-se que estes
sejam inferiores?
Voltemos
à dona da agência. Ela é gentil com os velhinhos e com os peões.
Velhinhos são frágeis, e os peões não têm dinheiro. É razoável dizer que
ela se move por compaixão ao ajudá-los. Mas o judeu era alvo de um
antônimo de compaixão; merecia ser sabotado por ter dinheiro. É razoável
dizer que exista inveja aí. E olhar em retrospecto para compaixão para
concluir que ali, talvez, haja uma boa dose de vaidade. Afinal, se a
grama verde do judeu a faz se sentir mal, a grama seca e esturricada dos
peões deve fazer com que se sinta bem.
Voltemos
à dona da agência. Ela é gentil com os velhinhos e com os peões.
Velhinhos são frágeis, e os peões muitas vezes podem ser descritos como
pretos pobres. É razoável...
Nunca
me aconteceu de estar numa situação semelhante, e alguém dizer “não
ajude esse preto pobre”. Não quer dizer que ninguém espezinhe negros,
quer dizer apenas que ninguém espera ser socialmente aceito dizendo que
fez isto. A nossa moralidade permite que se fale mal do “judeu rico”. Já
a expressão “preto pobre” aparece sempre como alvo de compaixão ou
condescendência.
E
os nossos burocratas, CEOs e ongueiros? Agirão por benignidade, ou por
se comprazerem com a tutela sobre os inferiores? Para responder, basta
olhar para como tratam aqueles cujo gramado é verde.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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