A Agência Nacional de Saúde poderia estabelecer algumas regras para isso — se fosse um governo federal eficiente. Carlos Alberto Sardenberg para O Globo:
Quem
correu mais riscos no réveillon? As pessoas que se aglomeraram nas
praias ou as que trabalharam em festas (clandestinas, claro) promovidas
em casas e mansões (cozinheiros, garçons, copeiros, faxineiros,
seguranças, motoristas, operadores de som e vídeo)?
Pelo que diz o CDC (Centro de Controle de Doenças, do governo americano, cdc.gov), foram as pessoas que trabalharam e frequentaram as festas.
O
CDC oficializou as evidências científicas sobre a transmissão do
coronavírus. Entre elas: o risco é muito baixo em atividades ao ar
livre; risco muito alto em festas.
Mas, considerando os quatro fatores básicos para calcular riscos, o pessoal da praia também se arriscou muito.
São eles, sempre colocando na frente os de maior risco:
1) Interior versus exterior;
2) espaços estreitos versus espaços amplos e ventilados;
3) alta densidade de pessoas versus baixa densidade;
4) exposição mais longa versus exposição mais breve.
Há
outros dados interessantes que ajudam a avaliar as situações. A carga
necessária para a pessoa contrair o vírus é receber 1.000 partículas
virais (PVs). Na respiração, a pessoa exala mais ou menos 20 PVs por
minuto. Na fala, são 200 PVs/minuto. Mas, se a pessoa contaminada
espirra, ela espalha nada menos que 200 milhões de PVs, um volume
suficiente para permanecer no ar por horas se o ambiente for mal
ventilado.
Logo,
ao ficar na praia, tomando distância, em grupos pequenos, o risco é
baixo. Aglomerar sem máscaras, confraternizar nos botecos ou
barraquinhas, aos gritos e gargalhadas, risco altíssimo.
Acrescente
aí o pessoal que tomou o busão para ir às praias ou para trabalhar nas
festas, e a conclusão é clara: muita gente, rica ou remediada, festeira
ou trabalhadora, espalhou e recebeu o coronavírus. O efeito das
comemorações de Natal e Ano Novo já está aí, mas o número de casos e
mortes ainda vai aumentar. Com uma desigualdade evidente: os
trabalhadores e “populares” vão para a fila do SUS; os festeiros, para
os hospitais particulares.
Tudo
isso para demonstrar que há muito debate inútil por aí. A ciência já
conhece o vírus principal (está pesquisando as variações) e já
demonstrou como ele se transmite de pessoa para pessoa.
Está
provado que, quanto mais distanciamento social, quanto mais lockdown,
menos contaminações. Sim, há pessoas que precisam sair de casa e tomar
transporte público para trabalhar. Há meios de reduzir os riscos:
máscaras, lotação reduzida, ambiente ventilado — e é papel dos governos
oferecer isso e ordenar o distanciamento onde é possível —, até que pelo
menos a metade da população esteja vacinada.
A
vacinação é tarefa do setor público. Mas uma vez que programas
públicos, federais, estaduais e municipais, estejam em andamento, não há
razão nenhuma para impedir que hospitais e clínicas privadas vendam as
vacinas. É assim que funciona na vacinação anual contra a gripe.
A Agência Nacional de Saúde poderia estabelecer algumas regras para isso — se fosse um governo federal eficiente.
Como
não é, podemos esperar muita confusão e judicialização, tanto na
vacinação pública — governos estaduais podem começar primeiro? — quanto
na privada.
Para
sermos justos, é preciso notar que também nos países desenvolvidos há
problemas e atrasos na vacinação. Por isso mesmo, diante do aumento do
número de casos pós-festas de fim de ano, governos do Reino Unido e da
Alemanha — para citar apenas dois que têm fama de bons serviços públicos
de saúde — estão endurecendo as medidas de lockdown e distanciamento.
Deveria ser feito por aqui também. Mas com esse presidente...
E,
para complicar ainda mais, temos aqui no Brasil um problema muito
especial: o fim do auxílio emergencial, sem que se tenha providenciado
algo para colocar no lugar. Artigo do economista Alexandre Schwartsman,
publicado no Infomoney, mostra estreita correlação entre o auxílio e
vendas no varejo (ou consumo das famílias), como fator importante da
recuperação desse setor.
E,
por óbvio, a queda que deve ocorrer uma vez retirado o auxílio. Sim, o
programa é caro, mas poderia ser aplicado um menor, mais direto — mais
barato, portanto —e com dinheiro tirado dos privilégios do setor
público.
Poderia...

Nenhum comentário:
Postar um comentário