Aos 14 ou 15 anos, é normal meninas se angustiarem com o próprio físico; anormal é estarem tão versadas no vocabulário da ideologia de gênero, e acharem que rótulos resolvem problemas. Bruna Frascolla para a Gazeta do Povo:
Pense
numa mulher jovem de seios amputados. A que essa imagem lhe remete? Se
você for de cultura católica, provavelmente pensará na imagem de Santa
Águeda, reconhecível por segurar uma bandeja com um par de seios.
Ninguém precisa ser psicanalista para apontar o simbolismo presente:
seios de mulher jovem estão ligados à sexualidade, e a jovem cristã, ao
desafiar o poder secular para seguir seu ideal de castidade, suportara
uma brutal castração.
Saindo
do reino simbólico (mitológico, para quem não tem fé) e partindo para o
quotidiano, seios amputados remetem a câncer de mama. A mastectomia é
tida por grande trauma para as doentes, e felizmente a cirurgia plástica
avança de modo a tornar as próteses mais convincentes. Nada repara,
porém, a capacidade de amamentar e de sentir prazer erótico ali.
De
um jeito ou de outro, amputação de seios remete a castração e
sofrimento. Qual não será a reação do leitor ao descobrir que na
sociedade norte-americana as pessoas já se defrontam com capas de
revista onde uma moça maquiada exibe o torso com cicatrizes no lugar dos
seios. Amputação pop.
Se
o leitor clicou e não entendeu nada, cabe explicar que a moça se
identifica como transgênero não-binário. Descobre-se fácil que é uma
atriz nascida em 2001 e tem um verbete até na Wikipédia lusófona. Aí
encontramos a informação de que fez mastectomia para se adaptar à
própria identidade de gênero, e tem como fonte uma reportagem de 2018 em
que ela, já amputada, trata da própria transexualidade.
Conta
que começou a se sentir “um pouco queer” aos 13 anos, considerou-se uma
lésbica cisgênero (cis é o contrário de trans) durante um ano e meio,
mas concluiu que o rótulo “não encapsulava a dor que eu estava sentindo
de verdade. Havia algo relacionado ao corpo, havia algo a mais aí, e
tudo o que tive de fazer foi rotular isso como eu ser trans.”.
Aos
14 ou 15 anos, é normal meninas se angustiarem com o próprio físico;
anormal é estarem tão versadas no vocabulário da ideologia de gênero, e
acharem que rótulos resolvem problemas. Continuando: “O rótulo abrangeu
de maneira precisa a rejeição de Watson à sua forma feminina, e cerca de
dois anos e meio depois [de deixar de se considerar lésbica], Watson se
preparava para do próximo passo na sua transição e foi até a clínica de
gênero da Duke University”. Depois, “olhando para as cinco páginas com
os efeitos colaterais da testosterona […], Watson percebeu que o
crescimento de pelos faciais e o engrossamento de sua voz pareciam tão
errados quanto o crescimento dos seus seios. ‘Eu percebi que o problema
não era eu não ser homem, o problema era só eu ser mulher’, disse ele
[sic]. E assim chegou à fase atual […] como não-binário, residindo no
‘vazio do gênero’. Identificar-se como não-binário significa que uma
pessoa não se identifica totalmente como homem, nem como mulher, mas
existe em algum lugar no espaço ou/ou, nem/nem. Como todas as áreas do
espectro de gênero, ser não-binário pode diferir bastante entre as
pessoas.”
O livro de Abigail Shrier
Esse
caso não está arrolado no livro da jornalista Abigail Shrier
Irreversible Damage: The transgender craze seducing our daughters [Dano
irreversível: A loucura transgênero que seduz nossas filhas], mas se
enquadra em tudo o que ela descreve. Sem tradução para o português, o
livro foi lançado ano passado nos Estados Unidos, e contou com a
propaganda involuntária dos censores. A Amazon proibiu a editora de
fazer publicidade paga. Grandes jornais se recusaram a fazer resenhas.
Quando Joe Rogan fez uma entrevista com a autora, os funcionários do
Spotify fizeram pressão para que fosse retirada do ar. Tudo isso sob a
alegação de que o livro era transfóbico.
Abigail
Shrier tem uma tese sobre os Estados Unidos e o Canadá: existe uma
loucura transgênero ceifando adolescentes problemáticas, que têm um
perfil de doentes muito parecida com a anorexia, e conta com o apoio
institucional de médicos e educadores.
A
doutrinação começa ainda na pré-escola, quando, sempre a pretexto de
combate ao bullying, surge a figura do especialista em gênero, que
apresenta o biscoitinho humano (o “genderbread person”) ou o unicórnio
do gênero, explicando que orientação sexual, identidade de gênero e sexo
biológico são coisas totalmente independentes umas das outras.
Com
o sexo, essa gente faz a distorção contrária à da cor de pele. Existem
mestiços de várias cores, mas são enquadradas no esquema binário de
raças branca ou preta. Existem apenas homem e mulher (sexos masculino e
feminino), mas inventa-se que o “gênero” é um espectro contínuo com os
dois polos, que são “homem” e “mulher”. Tudo o que está no meio é
“não-binário”, “genderqueer” e sei lá mais o quê — toda hora inventam
alguma denominação nova.
Em
nome do combate ao bullying, apresenta-se então às crianças e
adolescentes as definições psicológicas do que é ser homem ou mulher. E
essas definições poderiam sair da boca de um aiatolá. Cito Shrier: “Se
‘mulher’ não pode mais ser definida conforme características físicas ou
biologia [– o que seria transfobia –], como as definimos? A proeminente
autora transgênero Andrea Long Chu tem a resposta: ‘fêmea é uma
“condição existencial universal definida pela submissão aos desejos de
outrem’.”
É
uma pena que “machismo” seja uma palavra gasta, porque serve exatamente
para descrever a ideologia de gênero. A misoginia é tamanha, que as
mulheres passam a ser referidas como “breeders” (parideiras) e
“bleeders” (sangradeiras), tudo em nome da separação entre biologia e
identidade de gênero.
Assim,
as meninas da escola que se saem bem em esportes e matemática são tidas
como não conformantes de gênero. Talvez a menina Watson fosse assim,
daí dizer-se um pouco queer. Queer, literalmente, significa aberração, e
era um xingamento dirigido a gays. Foi apropriado pelos ideólogos de
gênero como uma coisa elogiosa. De todo modo, uma menina que não se vê
como fêmea de aiatolá se acha uma aberração, alguém que não pode ser uma
mulher.
Depois,
chega a adolescência. Nessa época, as meninas estão todas recebendo uma
porção de hormônio novo, ficando mais fracas que os colegas, ganhando
peito e bunda, menstruando, tendo cólicas. Meninos morrem de orgulho do
buço. Enquanto isso, muitas meninas andam recurvas, com vergonha, quando
começam a precisar de sutiã. É natural que sintam um mal estar, e a
australopiteco fêmea na puberdade devia sentir também. Mas hoje a
cultura geral é a de levar os filhos para a psicoterapia quando eles se
sentem mal. O passo seguinte é dar antidepressivo.
Abigail
Shrier acha que os pais tentam fazer das filhas umas Belas Adormecidas,
que passam uma adolescência indolor e despertam como mulheres feitas.
Uma coisa que ela não aponta, mas que eu acho que valia a pena notar, é
que muito antidepressivo tem perda de libido como efeito colateral, o
que deve fazer muita menina se achar “assexual” ou “agênero”. A
humanidade não tem documentação massiva de como é chegar à puberdade com
libido inibida.
A
escola nos países desenvolvidos é em tempo integral — ao contrário do
Brasil, onde tipicamente as crianças estudam ou de manhã, ou de tarde. A
faculdade dos Estados Unidos afasta ainda mais o adolescente de casa,
pois eles ficam em internatos. Tanto num quanto no outro ambiente, é
possível a criança ou adolescente fazer a dita transição social de
gênero, ou seja, adotar um nome do sexo oposto e viver uma vida dupla,
com um nome no ambiente educacional e outro na família.
O
sistema encara os pais como transfóbicos potenciais e não se preocupam
em avisar do que está acontecendo. Seu novo nome é o que consta na lista
de chamadas. As adolescentes aprendem que agora elas têm uma glitter
family, que é a sua verdadeira família, que a compreende e aceita, sem
transfobia.
Se
a menina ainda na adolescência revelar que é trans aos pais, eles farão
aquilo que aprenderam como sendo correto: levarão ao terapeuta. Não
saberão que a área passou por uma verdadeira caçada às bruxas (da qual
participou inclusive Deirdre McCloskey), em que profissionais e
cientistas com décadas de experiência no tratamento de disforia de sexo
(identificar-se com o outro sexo) foram banidos como transfóbicos.
Shrier
entrevista alguns deles. As práticas anteriores ao surto ideológico
eram variadas e focavam em fazer a criança e o adolescente se sentirem
bem com o próprio corpo. Mudança de sexo era uma possibilidade
terapêutica admitida pela maioria. Todos, porém, tinham em comum um
princípio elementar da medicina que consiste em negar o autodiagnóstico.
Mas hoje, qualquer terapia que tenha por finalidade fazer a adolescente
se sentir bem com o próprio corpo é tida por criminosa, porquanto
transfóbica.
Machismo,
homofobia e transfobia foram jogados no mesmo balaio retórico do
racismo, como crime de ódio e discriminação inaceitável. Valendo-se
desse clima, os ideólogos de gênero acusam os tratamentos científicos da
disforia de serem análogos às terapias de “reconversão” à
heterossexualidade. Consultórios tradicionais e bem sucedidos foram
fechados. Restou a “terapia” afirmativa de gênero, que consiste em
perguntar ao paciente o que ele é — ou mesmo sugerir que é trans — e
aceitar a resposta. Ou seja: autodiagnóstico.
Transexuais
têm um índice alto de suicídio. Valendo-se disso, os “terapeutas” dirão
aos pais que eles têm que chamar a filha pelo nome desejado, senão ela
vai se matar. Aterrorizados, os pais aceitam. O passo seguinte é
“pausar” a adolescência com um bloqueador hormonal. O terapeuta dirá que
é para esperar a jovem decidir se é menino ou menina, e que não há
problemas em retardar a puberdade. Além disso, ver o corpo mudar pode
fazê-la se matar – a ameaça de morte é uma constante.
O
terapeuta não irá contar que o bloqueador hormonal é, originalmente, o
composto usado em castração química de predadores sexuais, nem que o
retardo da puberdade afeta também o desenvolvimento cerebral, nem que
não há dados suficientes de efeitos colaterais em adolescentes
fisicamente saudáveis.
Tampouco
contará que mais de 90% das adolescentes quimicamente castradas
escolhem mudar de “gênero”. O passo seguinte é tomar testosterona, que
dá uma série de complicações, que vão desde a atrofia e secura vaginais
ao desenvolvimento de câncer do útero. Por isso, uma histerectomia
profilática (tirar o útero) costuma ser feita. Histerectomia causa
menopausa precoce. Em suma, é uma bagaceira.
Mas
calma que piora. Se a menina em idade escolar não contar essas coisas
para o pai, quando chegar à universidade ela poderá começar a tomar
testosterona por conta própria sem que os pais saibam. A universidade
dá, desde que ela assine um termo de consentimento informado. A Planned
Parenthood atua nos campi fornecendo testosterona, que sai pelo preço de
uma assinatura da Netflix.
A
testosterona termina por viciá-las. Todas essas adolescentes têm
problemas de saúde mental além da disforia, sendo comuns a depressão e a
ansiedade. A testosterona combate esses dois males, e, como elas não
têm terapia honesta à disposição, acabam dependendo da testosterona para
ficarem menos deprimidas e ansiosas. A testosterona multiplica as
chances de infarto, tornando essas moças ainda mais propensas ao infarto
do que homens.
Por
fim, cabe assinalar que na faculdade a mania trans tende a acometer as
moças com dificuldade de se adaptar. Se elas se revelarem trans, serão
subitamente festejadas e aplaudidas. Abigail Shrier notou também que
elas pareciam assexuadas. Adolescentes normais estão pensando em beijar
alguém. Elas, não. Não demostravam nenhum despertar para o erotismo,
normal da idade. E é assim que elas têm os seios transformados em lixo
hospitalar.
Não
são poucas as que se arrependem. Abigail Shrier entrevistou algumas,
que lhe revelaram a estrutura de seita do movimento. Cabe destacar que
elas — as chamadas detransitioners — são acusadas de transfobia e
removidas do Twitter.
Que fazer?
O
Brasil tem a grande vantagem de não deixar os filhos totalmente
entregues à burocracia educacional, mas a ideologia de gênero tem
abocanhado algumas das nossas adolescentes ainda assim.
Abigail
Shrier dá sete conselhos para prevenir o problema. Um é óbvio, que
consiste em não aderir à ideologia de gênero. Outro é impopular: não dar
smartphone às adolescentes, porque essa é uma inovação associada à
piora da saúde mental das meninas, e é um tremendo instrumento de
controle do grupo de ativistas sobre a sua filha. Outro que também
deveria ser óbvio é não abandonar a autoridade de pai e mãe. Ao que
parece, existe a noção de que os pais devem fazer os filhos se sentirem
bem a qualquer custo, e isso impede os pais de dizerem “não” aos filhos.
(Os pais da efêmera Rebeca Polzonoff não são assim.)
Foram
três. Quarto: reintroduzir a privacidade à casa, ou seja, não ficar
mostrando a intimidade familiar nas redes sociais. Se a sua filha
resolver que é trans não-binária, a coisa será pior ainda se a internet
inteira ficar sabendo; ela não poderá deixar a coisa de lado em paz, e
achará que deve satisfação a todo mundo.
Quinta:
pensar em dar grandes passos para tirar a filha do ambiente contaminado
pela mania trans. Alguns dos pais que Shirer entrevistou resolveram o
problema tirando a filha da faculdade e trazendo pra casa, ou mudando-se
para a zona rural e deixando-a sem internet, ou (no caso de uma filha
de indianos) mudando-se de uma cidade progressista para uma zona de
imigrantes indianos.
Sexta:
parar de tratar a adolescência como doença – aquilo de achar que dá pra
dopar a filha como uma Bela Adormecida para ela não sofrer nesse
período. Aí tome-lhe antidepressivos e dependência de terapia. Depois
ela, que não amadureceu, vai ao terapeuta, e o terapeuta diz que ela é
trans.
Sétima:
dizer que é bom ser mulher. Shrier aponta que as feministas de hoje
vivem falando alto demais que ser mulher é uma calamidade, e não é. As
adolescentes ouvem e acreditam. Daí não ser de admirar que tenham medo
de ser mulheres.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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