Políticos e celebridades que não respeitam as regras para segurar a Covid-19 tentam se safar com fracos pedidos de desculpas - às vezes, nem isso. Vilma Gryzinski:
Depois de uma “longa reflexão”, o húngaro Jozsef Skajer, deputado por seu país no Parlamento Europeu, resolveu renunciar.
A
reflexão durou exatamente quatro dias, o período entre o flagrante no
eurodeputado, pego pela polícia belga ao tentar fugir pela janela de um
apartamento no primeiro andar onde rolava uma festa de sexo grupal com
25 homens, e a constatação de que não daria para continuar.
“Não
consumi drogas”, acrescentou Skajer, flagrado em Bruxelas, sede do
Parlamento Europeu, com as mãos ensanguentadas na tentativa de fuga e
uma mochila devidamente revistada. Sobre as “pílulas do amor” – também
conhecidas como ecstasy -, encontradas na mochila, disse: “Não eram
minhas e nem sei como foi colocada lá”.
A
história é irresistível, inclusive pelo detalhe nada desprezível de que
a festa onde a polícia baixou, por infração às medidas de
distanciamento para o combate à Covid-19, era frequentada por
homossexuais.
Skajer
é um dos fundadores do partido Fidesz, o mesmo do primeiro-ministro
Viktor Orbán, detestado por progressistas de todos os matizes. O governo
húngaro é contra o casamento gay.
“Lamentar
profundamente” o próprio erro, como fez o ex-deputado, é o mínimo que
prescreve o manual de amenização de danos prescrito para pessoas famosas
quando flagradas infringindo regras que, em alguns casos, elas mesmas
criaram.
Outro ponto do manual: isolar a mancada como um erro pontual, uma exceção numa vida ilibada.
“Peço
que avaliem meu passo em falso contra o pano de fundo de 30 anos de
trabalho duro e dedicado”, apelou o deputado húngaro de 59 anos, casado,
dois filhos.
“Foi
um erro de julgamento sério e indesculpável”, disse Rita Ora, a
curvilínea cantora britânica de origem albanesa, também surpreendida no
sábado pela polícia numa festa de 30 anos num restaurante londrino.
A
cantora disse que a festa, com convidados famosos como a modelo e atriz
Cara Delevingne, foi fruto de uma decisão “ao sabor do momento”, como
se uma festa para trinta pessoas se materializasse, de repente, do nada.
Outras
privilegiadas pela fama: as australianas Nicole Kidman e Dannii Minogue
puderam entrar em seu país, onde vigem várias das restrições mais
severas do mundo, sem fazer a quarentena obrigatória de 14 dias num
hotel fechado pelo governo.
As
restrições também são bem rígidas na Califórnia, onde o governador
Gavin Newson ignorou a regra número um da vida digital – os celulares
estão em toda parte – e foi ao jantar de aniversário de um amigo num
restaurante famoso.
“Todos nós somos humanos. Todos nós não correspondemos às expectativas algumas vezes”, filosofou Newsom ao admitir o erro.
O
lobista que ofereceu a festa tentou alegar que o jantar tinha sido num
espaço ao ar livre – mas lá estavam as fotos de celular para desmentir.
Newsom
passou dias levando pancada de adversários políticos republicanos,
especialmente suculentas por ele ter sido casado com Kimberly Guilfoyle,
atual companheira de Donald Trump Jr.
O
governador pelo menos admitiu o erro, ao contrário de Nancy Pelosi, a
presidente da Câmara, que se recusou a pedir desculpas quando apareceu
num infame vídeo – de celular – andando sem máscara num salão de
cabeleireiro. Ainda por cima, disse que a dona do salão é quem deveria
se desculpar pela “armadilha”.
A
hipocrisia é a homenagem que o vício presta à virtude e pelo menos
fingir alguma contrição é necessário para disfarçar o fato de que os
famosos e poderosos vivem num mundo com regras diferentes das que valem
para todos nós.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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