Coluna de Carlos Brickmann, publicada nos jornais deste domingo:
O Governo brasileiro, que já havia notificado o Governo venezuelano
da decisão de expulsar seus diplomatas, voltou à carga: determinou que
os diplomatas se retirem imediatamente do Brasil, no meio da pandemia de
coronavírus. Há voo Brasília - Caracas? O Itamaraty do chanceler
Ernesto Araújo não está preocupado com isso. Se os venezuelanos não
saírem, seja por qual motivo for, poderão ser tratados como imigrantes
ilegais.
Por que? Aparentemente, porque Bolsonaro não gosta do regime imposto à
Venezuela pelo presidente Nicolás Maduro. Este colunista também não tem
a menor simpatia pelo regime que levou a Venezuela à má situação atual e
que pode ser classificado como ditadura. Mas temos relações
diplomáticas com a China, que não é mais democrática que a Venezuela; e
com o Irã, que enforca homossexuais em praça pública por considerá-los
criminosos; e com a Síria, em que o presidente Assad há anos massacra os
oposicionistas. Mas a questão nem é esta: é saber o que o Brasil ganha
expulsando diplomatas, e num momento de crise sanitária da qual não será
possível protegê-los.
Proteger os diplomatas, mesmo de países inimigos, faz parte dos
hábitos civilizados. Quando o Japão, sem declaração de guerra,
bombardeou Pearl Harbor, os americanos devolveram seus diplomatas. O
procurador-geral da República, Augusto Aras, recomendou que a expulsão
seja suspensa. Talvez haja tempo para que um pouco de bom-senso areje os
ares do Itamaraty.
Sensatez
O procurador-geral recomendou que a ordem de expulsão dos diplomatas
venezuelanos seja suspensa até que se avaliem “eventuais riscos para seu
cumprimento”, fixando-se o prazo para a saída de acordo com o contexto
da pandemia, a perspectiva humanitária, normas nacionais e
internacionais”.
Palavras e fatos
Bolsonaro disse que a política de isolamento social não funcionou,
tanto que o Brasil já superou os índices da China. Bolsonaro não disse
que o índice de contaminação e as mortes variam conforme a situação de
15 dias antes – o prazo para que um contaminado passe o vírus para
outros e estes mostrem sintomas da doença. Enquanto a quarentena foi
mantida com alta adesão, os índices caíram. Depois que o presidente
passou a sassaricar em padarias e no meio da rua, o mau exemplo fez com
que a quarentena perdesse força, elevando os índices de contaminação e
morte.
Até o americano Donald Trump, ídolo mor de Bolsonaro & Filhos, fala mal do que ocorre por aqui.
Fatos e palavras
O presidente Bolsonaro também nada falou sobre a demora na aplicação
de recursos federais contra a pandemia. Até abril, o Governo Federal
gastou apenas 23,6% dos recursos previstos para este fim. A informação é
oficial, do Ministério da Economia: foram previstos R$ 253 bilhões para
combater a pandemia, mas até 30 de abril foram gastos R$ 59,9 bilhões. O
restante – bem, como já disse o presidente, todos nós um dia vamos
morrer.
Os favoritos da República
Os trabalhadores do Porto de Santos estão arriscadíssimos a perder o
emprego: acusam o Governo (que comanda o porto, e anuncia que o prepara
para a privatização) de liquidar empregos, dando prioridade ao
agronegócio. Só que São Paulo é o maior polo industrial do Brasil e há
outros portos que podem atender melhor ao agronegócio. De qualquer
forma, trocar produtos que utilizam contêineres por granéis e
fertilizantes é só um dos objetivos da reforma: outro é abrir espaço
para a Rumo, empresa ferroviária do grupo Ometto, sem que o grupo tenha
necessidade de comprar terreno. Outra é permitir que produtos
potencialmente perigosos – por exemplo, gás natural, comprimido até
ocupar 1/10.000 do volume original – operem pertinho de Santos, uma
grande cidade. Pode ocorrer um acidente? É torcer para que não.
O mesmo dono
A propósito, a empresa que opera gás natural altamente comprimido
pertence também ao grupo Ometto, o mesmo da ferroviária Rumo e de
distribuição de combustíveis. Para que o terreno seja entregue bonitinho
ao grupo, o Governo anuncia que não vai renovar a concessão, já
aprovada em todos os escalões técnicos, de uma empresa de armazenamento
alfandegado de contêineres, que gera dois mil empregos diretos e quatro
mil indiretos.
Hora tucana
A Procuradoria-Geral da República denunciou o deputado federal Aécio
Neves, do PSDB mineiro, por corrupção passiva e lavagem de dinheiro. O
então governador de Minas (que teria recebido, entre 2008 e 2011, R$ 65
milhões em propinas da empreiteiras Odebrecht e Andrade Gutierrez) foi
eleito senador, e mais tarde perdeu a Presidência para Dilma Rousseff.
Aécio foi citado na delação premiada de Marcelo Odebrecht, o Príncipe
dos Empreiteiros, que passou dois anos na prisão. Outra investigação
sobre um ex-governador tucano, Geraldo Alckmin, foi arquivada – a
Procuradoria concluiu que não havia motivo algum para denunciá-lo.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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