Na realidade, as pessoas têm «mais medo sanitário do que medo
econômico», ao contrário do que crê a «esquerda», que apenas pretende
responsabilizar o «capitalismo neoliberal». Manuel Villaverde Cabral,
via Observador:
Desde que o governo nos pôs a andar de cara tapada, penso
irresistivelmente nas minhas leituras infantis em que um herói
libertador se escondia dos «maus» atrás de uma máscara que anunciava a
todos nós que estávamos perante o salvador da pátria, a saber, Zorro!
Quando eu era criança, uma máscara à maneira de Zorro fazia de mim um
herói potencial… Hoje, faz-me senti o olhar do vírus pousado sobre mim e
dá-me mais medo do que outra coisa… Isto para resumir a impressão quem
que não estava totalmente despreparado para este género de cena: vale
mais andar a esconder-se atrás de uma máscara à Zorro ou obrigar a China
a acabar com os seus caprichosos hábitos alimentares afrodisíacos uma
vez por todas? Vale mais esperar por pandemias anunciadas e ter fé em
deus-nosso-senhor ou tomar medidas recomendadas há muitos anos. Para já, medidas contra os incêndios… dos quais a fraca memória deste governo já se esqueceu!
Entretanto, enquanto os políticos profissionais se preocupam em
garantir a reeleição do presidente da República, conforme o 1.º ministro
propôs inesperadamente em público, anunciando a seguir que não haveria
congresso do PS para pôr tal ideia em causa, a massa da população portuguesa, assim como a francesa,
declaram-se claramente contra os riscos do «desconfinamento». Na
realidade, as pessoas têm «mais medo sanitário do que medo económico»,
ao contrário do que crê a «esquerda», que apenas pretende
responsabilizar o «capitalismo neo-liberal»… A verdade é que não é
impossível que as vítimas da pandemia venham a cobrar a decisão do
governo se a evolução não for aquela em que este apostou sem bases!
São esses riscos que estão a aparecer ao cabo de poucos dias com a
multiplicação de «novos casos» na Região da Grande Lisboa. Basta fazer
as contas. A cidade de Lisboa, que tem mais do dobro dos habitantes do
Porto, começou por ter metade dos «casos» e hoje tem quase o dobro, ou
seja, a mesma percentagem relativamente à população. Entretanto, é bom
saber que a capital e mais dois concelhos limítrofes tinham ontem 4.176
casos entre os dez primeiros do país; mais três concelhos entre os 10
seguintes e três nos 10 seguintes; ao todo, entre os primeiros 30
concelhos mais afectados, a Grande Lisboa tinha praticamente 7.000 casos
em 30.000, ou seja, menos de 25% do país. Quanto ao Grande Porto,
igualmente entre os 30 primeiros concelhos do, tinha 16 e um total
superior a 11.624 casos, ou seja, quase 40%. Além daqueles dois grupos,
há ainda entre os 30 primeiros 4 situados entre Ovar e Coimbra.
Ora, não é por acaso sanitário que tal sucede, como noutros países
aliás, mas sim por razões geo-demo-sócio-económicas nunca atendidas pelo
governo nem tão pouco pela DGS. Naqueles 30 concelhos a norte do Tejo,
com a excepção de Almada, estão pois concentrados quase 20.000 casos,
isto é, mais de 2/3 de todos os casos do país! A pandemia não é, pois,
um risco que ataca as pessoas desigualmente da sua localização,
nomeadamente a densidade populacional, nem da sua estrutura demográfica
nem da situação sócio-económica.
Assim como o vírus foi importado de Itália para o Grande Porto por
motivos bem conhecidos, que talvez devessem ter sido logo confinados,
acabou por contaminar a Grande Lisboa com os seus 2,5 milhões de habitantes,
onde agora o vírus parece irromper com redobrada intensidade marcada
por dois factos demográficos muito mal controlados. O primeiro é a idade
cruzada com o sexo – basta dizer que perto de 50% dos óbitos devidos ao
Covid-19 são senhoras com mais de 80 anos – e o segundo é, como os
jornais não resistiram a chamar a atenção, o facto de Lisboa e arredores
concentrarem a maior parte da população de origem africana e/ou
brasileira, a qual seria menos resistente ao vírus do que os europeus…
Para fechar: com uma pandemia que está muito longe de ter sido
ultrapassada e com eleições de vários tamanhos e feitios a resolver, o
chefe do governo e do PS tem mais assuntos na agenda não menos
preocupantes. O mais decisivo, politicamente falando, é provavelmente a
declaração de nova falência em que o país se encontra perante uma quebra
do PIB que pode ir até 10% ou mais e o dinheiro que o 1.º ministro
espera – sem grande certeza – que a União Europeia lhe dê sem aumentar a
enorme dívida que o país já tem… Se o dinheiro grátis da UE poderia
salvar António Costa, a evolução da epidemia não será menos relevante.
Conforme um e outra, saberemos durante quanto tempo durará governo. Dado
que não há oposição, até é possível que dure mais algum tempo para
merecido castigo dos nossos pecados…
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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