A esquerda nunca é esquerdista o suficiente. Ela sempre precisa ser mais
esquerdista ou os evangelistas da verdadeira esquerda farão questão de
dizer que o problema foi a carência de vermelho. Lucas Berlanza, em
artigo publicado pelo Instituto Liberal:
Na última segunda-feira (20), um dos rostos do Partido Democrata dos
EUA mais alardeados atualmente, a socialista Alexandria Ocasio-Cortez,
se queixou de que sua legenda, vejam só, não é de esquerda. O Partido
Democrata, para ela, pertence ao “centro” ou ainda ao “conservadorismo
de centro” (?).
“Nós não temos um partido de esquerda nos Estados Unidos”,
sentenciou, do alto de sua sabedoria. “O Partido Democrata não é um
partido de esquerda (…) Há membros de esquerda do Partido Democrata que
estão trabalhando para tentar fazer essa mudança acontecer”. Poderia ser
um jornalista ou comentarista político da Globo News, mas foi uma
parlamentar do próprio país quem teve a audácia de proclamar tal
estultice.
Trotskystas não achavam que stalinistas eram socialistas o
suficiente. O PSTU e o PCO não acham que o PSOL e o PT são socialistas o
suficiente. O PSOL não acha que o PT é socialista o suficiente. O PT
não acha que o próprio PT é socialista o suficiente. Os representantes
do PSDB por diversas vezes disseram que eles é que eram a verdadeira
esquerda, não o PT. Manuela D’Ávila e o PCdoB não acham que a Venezuela é
socialista o suficiente.
Ocasio-Cortez parece convicta de que simplesmente os dois últimos
candidatos à presidência por sua sigla, Obama (eleito) e Clinton
(derrotada), discípulos de Saul Alinsky, defensores de controle de
armas, defensores do aborto, do aumento de gastos federais, vinculados –
particularmente o primeiro – às políticas identitárias e reivindicando o
lugar de fala das minorias, não eram de esquerda o suficiente.
A esquerda nunca é esquerdista o suficiente. Ela sempre precisa ser
mais esquerdista ou os evangelistas da verdadeira esquerda farão questão
de dizer que o problema foi a carência de vermelho. Tal desculpa sempre
restará para os utopistas de ocasião.
A verdade é que Ocasio e suas amigas do “Esquadrão”, parlamentares
francamente identificadas com um socialismo radical, assim como Bernie
Sanders – que disputou a posição de candidato do partido à presidência
com Clinton em 2016 e hoje tenta novamente, enfrentando também nas
primárias a igualmente socializante Elizabeth Warren (ex-assessora de
Obama que quer “refundar” o capitalismo americano) -, fariam bem em se
alojar em legendas menores, abertamente adeptas do socialismo e do
comunismo que, sim, existem nos EUA. Não o fazem porque, por óbvio, a
estrutura do Partido Democrata – que é hoje, sim, um partido
majoritariamente com alas de esquerda e de centro-esquerda, cada vez
mais radical – é a única que permite dar efetiva reverberação às suas
plataformas antiamericanas e antiocidentais, garantindo seu eleitorado.
Ao mesmo tempo em que compartilho com os leitores a declaração esdrúxula de Cortez, porém, trago o curioso alento de uma visão mais equilibrada,
de um esquerdista que se mostra mais ajuizado – quem diria – nas plagas
tupiniquins. Trata-se de um artigo publicado pelo ex-senador Cristovam
Buarque, ex-PT e PDT, atualmente no Cidadania. Não se trata aqui de
render loas a Buarque, minimizar seus malfeitos ou assinalar a pureza de
suas intenções de político experimentado. À revelia do juízo de valor a
ser feito sobre o autor, o texto é interessante porque, ao que parece, é
um sintoma de que os tempos são outros.
Raramente isso ocorre, raramente isso é admitido pelas esquerdas –
recordo-me aqui apenas de um raro lapso em que Lula acabou se jactando
de não ter opositores de direita nas eleições -, mas Buarque não teve
receio em afirmar: “Durante 26 anos, a República brasileira teve cinco
presidentes de um mesmo bloco político. Apesar de partidos, ideologias e
comportamentos diferentes, Itamar, Cardoso, Lula, Dilma e Temer vêm do
mesmo grupo que lutou contra a ditadura e defendeu posições
progressistas, em graus diferentes, na economia, na sociedade e nos
costumes. Foi, portanto, ¼ de século e de República governado por
democratas-progressistas”.
Não seria isso efetivamente um sinal dos tempos? Se normalmente as
esquerdas sempre acreditam que quem está no poder é a direita e nunca se
vivenciou a “esquerda suficiente”, Cristovam Buarque admitiu que os
“progressistas” (não sou um grande fã do termo, mas é o que se
consagrou) governaram o Brasil ao longo de quase toda a Nova República.
Admitiu que mantiveram o país sob sua redoma ideológica. Admitiu,
finalmente, que falharam, e nos últimos anos ainda mais gravemente, e
disso resultou a ascensão de Bolsonaro ao poder.
Infelizmente, conquanto admita uma série de fracassos desse bloco
“progressista”, como a tolerância ao Estado ineficiente e inchado e a
aceitação de manobras fiscais criminosas, Buarque disparou em seu artigo
que o primeiro grande erro dos “progressistas” foi “chegar ao poder
como progressistas e nos acomodarmos como democratas conservadores”.
Estava indo bem, mas voltamos ao ciclo: ao fim das contas, os
“progressistas” brasileiros não foram “progressistas” o suficiente.
A verdade é que precisamos, americanos e brasileiros, de esquerda e
“progressismo” de menos. Não há nada de ilegítimo em apostar em forças
políticas que desfraldem a descentralização de poder e a
descentralização administrativa, o respeito à propriedade privada e à
economia de mercado, o cultivo dos valores da civilização ocidental que
embasam a solidez das instituições liberais e a preocupação com a
tirania ideológica nos campos da cultura e da educação. Ao contrário:
precisamos desenvolvê-las, qualificá-las e assentá-las, para que
alcancem o poder e, quando estiverem fora dele, atuem como sentinelas
eficazes, a fiscalizar e conter o perigo.
Precisamos, por fim, de quem trabalhe por melhorar, mas não esteja
sempre doentiamente insatisfeito, esbravejando contra o que a
civilização foi capaz de oferecer, porque desejaria instaurar no lugar o
seu regime coletivista de preferência. Como diria Carlos Lacerda,
precisamos favorecer o desenvolvimento de forças políticas que prezem a
“conservação da liberdade” e, rejeitando a utopia, estejam desejosas de
“fazer do mundo alguma coisa capaz de melhorar e não alguma coisa com
cuja perfeição (falsa) pereçam suas próprias possibilidades de melhoria
verdadeira”.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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