A microempresária Rosângela Carlota plantou uma horta e reduziu os gastos com sacolão
Duas situações opostas – o avanço da inflação e a
redução do desemprego – mudaram o perfil do consumidor belo-horizontino
em pouco menos de dois anos. Agora, a maioria (59,2%) tem ao menos uma
compra parcelada. Antes, a minoria (49,2%) é que tinha contratado a
prazo.
A reviravolta foi diagnosticada pela Câmara de Dirigentes Lojistas
(CDL-BH) na comparação entre duas pesquisas sobre o perfil de quem vai
às compras. A primeira foi elaborada em julho de 2017. À época, o Índice
de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), que é a inflação oficial do país e
é calculada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
(IBGE), havia subido “apenas” 1,88%, em BH, no acumulado iniciado 12
meses antes
.
O IPCA saltou para 4,82% quando o acumulado de 12 meses foi encerrado em abril de 2019, período em que os entrevistadores da CDL-BH foram a campo para a segunda pesquisa.
O IPCA saltou para 4,82% quando o acumulado de 12 meses foi encerrado em abril de 2019, período em que os entrevistadores da CDL-BH foram a campo para a segunda pesquisa.
A alta da inflação freia o consumo ou leva a pessoa a parcelar
compras. Esta é uma má notícia, pois há incidência de juros, dependendo
do número de parcelas. Por outro lado, o recuo no desemprego, mesmo que
ainda continue alto em BH, leva a pessoa a quitar dívidas e a usar parte
do que sobra no salário para compras, muitas vezes, a prazo.
Foi o que aconteceu na capital. Em julho de 2017, quando a minoria
dos consumidores comprava a prazo, o contingente de desocupadas era de
205 mil indivíduos, segundo o IBGE. Já em abril de 2019, quando a
maioria adquiriu produtos a prazo, os desempregados somavam 178 mil.
Um indicativo de que muitos que retornaram ao mercado de trabalho
passaram a fazer compras a prazo é o crescimento do gasto médio com
pagamentos de dívidas, o que aperta o orçamento do lar. Pulou, no
período entre as duas pesquisas, de R$ 494,83 para R$ 561,17. “O
desemprego deu uma pequena reduzida e (muita gente) passou a poder
comprar a prazo”, disse a economista da CDL Ana Paula Bastos.
A especialista acrescenta que, se o desemprego reduzir mais,
engordará a massa daqueles que voltam ao consumo. Mas ter disciplina
financeira é essencial para não alimentar a inadimplência. “A tendência
das pessoas é voltar ao mercado de consumo, mas podendo comprar de forma
parcelada”.
Controle
Controle
A sabedoria para não ter a renda comprometida faz parte do dia a
dia de Hugo Leonardo de Souza, morador do bairro Castelo, região da
Pampulha. Ele não passa aperto financeiro: dono de um salão de beleza no
bairro Padre Eustáquio, região Noroeste de Belo Horizonte, optou por
comprar quase tudo a prazo porque tem consciência de como gastar sua
renda.
“Adquiro muita coisa no cartão de crédito, desde o pão na padaria a
materiais para uso no trabalho. Mas é preciso ter disciplina
financeira. Eu faço este controle do gasto. E por que faço compras a
prazo? Porque, no meu caso, mais vale uma compra parcelada que cabe no
bolso do que uma à vista que me deixará zerado”, justificou,
acrescentando que ainda se beneficia de programas de crédito, como
milhas, oferecidas pelas operadoras da moeda de plástico.
Hugo Leonardo opta pela compra parcelada no cartão de crédito para não ficar com bolso “zerado”
Economia
A pequena horta que dona Rosângela Carlota, de 57 anos, cultiva no
quintal de sua reformadora de móveis lhe rende alface, couve, tomate,
abóbora, cebolinha, hortelã, rúcula, tomate, salsinha e mais ou menos R$
120 por mês. Mas o dinheiro não é resultado de vendas do que ela tira
da terra.
Pelo contrário: “Esse é o valor que passei a deixar de gastar com
sacolão ou supermercado desde que plantei a horta”, explica a
comerciante.
O que a microempresária-consumidora faz é o que especialistas em
consumo recomendam: economize no que puder. “A alta da inflação, o
desemprego elevado (ainda que tenha ocorrido um recuo) e a falta de
hábito de poupar podem gerar inadimplência. Por isso é preciso planejar o
consumo”, advertiu a economista Ana Paula Bastos, da Câmara de
Dirigentes Lojistas de Belo Horizonte (CDL-BH).
O bom exemplo de dona Rosângela ajuda ainda a explicar parte de o gasto médio do belo-horizontino ter recuado com os alimentos consumidos em supermercado entre em 2017 e 2019, de R$ 505,51 para R$ 478,04, segundo os estudos da CDL-BH.
Substituições
Outro motivo para a redução dos gastos em supermercados é apontado
pela economista Ana Paula Bastos: “As pessoas estão comprando o que
precisam e muitas substituíram bens. Se antes adquiriam manteiga; agora,
levam margarina para casa. Se antes era carne de primeira;
agora, nem sempre. São os bens substitutos”.
Dona Rosângela aproveitou uma área ociosa em sua empresa e,
juntamente com funcionários, enterraram sementes de
hortifrutigranjeiros. “Todos levam um pouco para o lar a cada colheita.
Dá uma boa economia no fim do mês”, garante a mulher, que tem disciplina
financeira.
Por fim, a pesquisa da CDL-BH aponta também uma alta nas despesas com planos de saúde/odontológicos e com farmácia, que historicamente sobem mais que a inflação oficial. Esse fator também faz com que o consumidor tente cortar despesas em outras áreas.
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