Coluna de Carlos Brickmann, publicada no domingo em diversos jornais:
A Odebrecht, uma das maiores empresas brasileiras, pediu recuperação
judicial – aquilo que antigamente chamávamos de concordata. As equipes
que montou, e que nada têm a ver com pixulecos e propinas, já perderam
muitos talentos, e os que sobraram perderão o emprego se a empresa
quebrar. Os donos vão bem: vivem confortavelmente (alguns diriam
luxuosamente) e estão entre os que mais têm a receber da empresa,
fortemente endividada.
Por que? Por que punir a empresa (e não falemos apenas da Odebrecht,
mas de todas as envolvidas na Operação Lava Jato), se quem cometeu os
atos de que todos sabemos não foram os prédios nem os funcionários, mas
seus diretores? Equipes talentosas, que foi difícil montar, são e serão
desfeitas sem que seus integrantes tenham culpa; e são eles que ficarão
sem emprego. Perde também a engenharia brasileira, porque o know-how não
é usado, e os clientes se afastam de empresas com problemas. “A lei
manda punir as empresas” – mas leis podem ser modificadas. Se quem
estava irregular eram os donos e seus executivos, por que não puni-los,
afastá-los da empresa até que sejam julgados, tomar-lhes as ações e
entregá-las a, por exemplo, uma cooperativa de funcionários? Do jeito
que a coisa anda, donos e executivos se salvam e quem não participou de
ilegalidades paga com seu emprego.
Como diz o jornalista Luís Nassif, é possível punir quem deve ser
punido sem desmontar a empresa toda. Beneficiar quem não merece é mau
exemplo.
Os credores
Na recuperação judicial de quase R$ 100 bilhões da Odebrecht, figuram
entre os credores o comandante da empresa, Emílio Odebrecht, com R$ 80
milhões a receber. Seu filho Marcelo, o Príncipe dos Empreiteiros, que
ficou pouco mais de dois anos na prisão por ter, digamos, pago pixuleco a
uma lista telefônica de corruptos, vive hoje em prisão domiciliar, em
sua bela casa, usando tornozeleira (haverá tornozeleira de grife?), e é
credor de bons R$ 16 milhões. Pai e filho, quase R$ 100 milhões. Sobrará
o suficiente para pagar indenizações a funcionários que não subornaram
ninguém? Está certo?
Moro, um palpite
Não tenho ainda qualquer informação sobre como repercutiu o diálogo
de Moro com a Comissão de Constituição e Justiça, mas arrisco um
palpite: a popularidade do ministro deve crescer nas próximas pesquisas.
Estava tranquilo, saiu-se bem, nem utilizou um argumento explosivo à
sua disposição: dos senadores que o interrogaram, 25% tinham problemas
com a Lava Jato. Moro manteve a conversa em alto nível (já Bolsonaro,
falando do tema, chamou Jean Wyllys, militante homossexual, de “aquela
menina”). Moro agiu certo, sem apelar. E isso deve render-lhe pontos na
pesquisa.
Quem tem razão?
De acordo com os diálogos (lembrando que não houve perícia para
provar que são verdadeiros), Moro ultrapassou o limite da lei ou se
manteve dentro do legalmente aceitável? A discussão está brava. Creio
que, com algumas exceções, quem quer Lula livre ou apenas não tolera
Bolsonaro dirá que Moro ultrapassou os limites e deve ser demitido. Quem
acha que o presidente é o máximo ou detesta Lula acha que Moro agiu
dentro da lei. É simples: se o pênalti favorece nosso time, com certeza
ocorreu e foi bem marcado.
Os adversários 1
Este colunista já escreveu sobre um fenômeno curioso: quem o processa
tem tido falta de sorte. O ex-governador goiano Marconi Perillo, que
reclama da cobertura do casamento de sua filha, não apenas perdeu as
eleições para o Senado (embora houvesse duas vagas, o eleitor negou-lhe o
cargo que lhe daria foro privilegiado), como o candidato que lançou ao
Governo foi derrotado por seu principal adversário, Ronaldo Caiado.
Enfrenta uns quinze inquéritos promovidos pelo Ministério Público
estadual. Agora o Ministério Público Federal o denunciou sob a acusação
de ter recebido propina de R$ 17,8 milhões da Odebrecht. A denúncia foi
feita via Operação Cash Delivery, um dos braços da Lava Jato. A defesa
do ex-governador diz que a denúncia é a comprovação “da parcialidade e
da perseguição que este Procurador (Hélio Telho) promove, há anos,
contra o ex-governador”.
Os adversários 2
A Marabraz, gigante do comércio, iniciou processo contra este
colunista com base na contestação de informação aqui publicada - uma
notícia seca, sem juízo de valor. Pois bem, o procurador do Estado-chefe
Celso Jesus Mogioni e a Assistência da Presidência da Jucesp, Junta
Comercial do Estado de São Paulo, confirmaram a informação. Segundo
documentos oficiais, a LP Administradora de Bens tem alteração do
contrato social com texto divergente da escritura pública, omitindo
entrada e saída do Grupo Marabraz do sócio Fábio Fares. E a procuração
da matriarca do grupo estava revogada desde 2008, anos antes de sua
utilização.
Este jornalista sempre verifica suas fontes. Como não disse um anúncio famoso, checagem melhor ninguém faz.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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