Uso maciço dos bancos genéticos é altamente efetivo, reduzindo os custos
e a impunidade, afirma Marcos Camargo, presidente da Associação
Nacional dos Peritos Criminais Federais, em artigo publicado pelo Estadão:
Entre as sinalizações dadas pelo ministro Sergio Moro sobre o pacote
de medidas que enviará ao Congresso, chama a atenção, de forma positiva,
a relevância dada ao uso da ciência e da tecnologia no combate ao
crime. Trata-se de um aceno em direção à necessidade de elaborar
soluções capazes de conter a violência e a sensação crescente de
insegurança predominante no País.
O Brasil registra cerca de sete homicídios e sete crimes sexuais por
hora, segundo os números do Anuário Brasileiro de Segurança Pública de
2018, publicado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública. O sucesso da
investida de Moro contra esse problema dependerá, essencialmente, de o
poder público, em todas as esferas, passar a entender que a impunidade é
um propulsor da epidemia de violência e que o aumento da taxa de
resolução de crimes é caminho necessário para reverter esse lamentável
quadro.
Hoje o Brasil apresenta baixa taxa de solução dos casos que não
resultam de flagrante delito e precisam de investigação para apontar os
culpados. Encaixam-se nesse grupo, principalmente, homicídios e
estupros, que na maioria das vezes não são apanhados em flagrante. Sem
encontrar os culpados não há punição e o caminho para se cometerem novos
delitos fica pavimentado.
Uma das ferramentas destacadas pelo ministro Moro neste início de
governo, fundamental para auxiliar na redução da impunidade, é o banco
de dados de perfis genéticos, usado em mais de 60 países. O banco
permite comparar amostras biológicas colhidas em cenas de crimes com o
DNA de suspeitos já conhecidos do sistema de Justiça. Essa tecnologia
não é novidade no Brasil. Mesmo sem ter sido tratada como prioridade
pelo poder público nos últimos anos, ela vem ajudando a resolver casos
que de outro modo permaneceriam pendentes.
Inaugurado em 2009, por meio do convênio firmado pela Polícia Federal
com o FBI, o uso de banco de DNA foi essencial para a identificação de
vítimas do acidente com o avião da Air France que fazia o trajeto entre
Rio de Janeiro e Paris. Na ocasião os peritos criminais empregaram o
software Codis (Combined DNA Index System) para comparar o material
genético das vítimas com o de familiares.
Só em 2012, no entanto, é que o banco de perfis genéticos foi
estabelecido em lei, com a obrigatoriedade da coleta do DNA de todos os
condenados por crimes hediondos e violentos contra a vida. A partir
dessa legislação foram instituídos o Banco Nacional de Perfis Genéticos
(BNPG) e a Rede Integrada de Bancos de Perfis Genéticos (RIBPG), pensada
para centralizar as informações colhidas pelos peritos criminais
federais, dos Estados e do Distrito Federal. No entanto, até 28 de
novembro de 2018, quando foi fechado o relatório mais atual sobre a
RIBPG, pouco mais de 18 mil perfis genéticos haviam sido inseridos nos
bancos - quantidade ínfima se comparada aos 16 milhões de perfis
cadastrados nos EUA e aos mais de 6 milhões no Reino Unido. No caso
britânico, segundo o mais recente relatório anual do National DNA
Database, sempre que um perfil genético de vestígio encontrado em local
de crime é inserido no banco de dados, há probabilidade de 66% de
identificação de algum indivíduo previamente cadastrado, o que aumenta a
probabilidade de identificar o autor e reduzir a reincidência.
Mesmo subaproveitada, a Rede Integrada mostra eficiência no Brasil:
já foram apresentadas ao poder público 545 coincidências confirmadas na
esfera criminal e 559 investigações avançaram a partir do uso dos bancos
genéticos. No âmbito da identificação de desaparecidos, foram feitas 29
correspondências entre restos mortais não identificados e os
familiares.
Os resultados são promissores e servem para apontar culpados e também
inocentes, como mostrou a decisão histórica tomada pelo Supremo
Tribunal Federal em de 18 de dezembro de 2018, inocentando com base em
prova genética um homem erroneamente condenado por estupro (RHC 128096).
O uso do material biológico como ferramenta de investigação criminal
também gera economia para o erário. Pesquisa da economista Jeniffer
Doleac, da Universidade da Virgínia, verificou a eficiência de políticas
de segurança pública e apontou que o custo para evitar um crime grave
adotando a estratégia de aumentar penas gira em torno de US$ 7,6 mil. Se
a estratégia for alimentar o banco de DNA, o custo cai para US$ 555.
Infelizmente, o Brasil ainda emprega o método com timidez. A lei que
obriga à coleta do material genético dos criminosos condenados por
crimes hediondos e violentos contra a pessoa (Lei 12.654/2012) está
sendo questionada no STF, o que prejudica a adequada aplicação da norma,
reduz as chances de esclarecer a autoria dos crimes e dificulta que a
persecução penal seja fundamentada em elementos materiais com o devido
suporte científico.
Há ainda outros desafios estruturais para tornar o uso da tecnologia
mais eficiente no Brasil. Apesar da previsão legal de o banco de perfis
genéticos ser gerenciado por unidade oficial de perícia criminal, o
setor responsável pelo tema na PF ainda é informal, não incluído no
organograma institucional. Além disso, o último concurso público para
perito criminal federal não previu vagas para especialistas em genética
forense. Enquanto isso, o número de materiais pendentes de análise só
cresce - assim como o crime.
É viável, portanto, aumentar a taxa de resolução de crimes no País a
custo baixo, com alta efetividade, a partir do emprego maciço dos bancos
de perfis genéticos, oriundos de amostras colhidas por método indolor e
não invasivo, dentro das normas constitucionais e internacionais de
direitos humanos, do genoma e dos dados genéticos. A consequência
esperada é a redução da impunidade e a restauração da segurança, legados
essenciais que poderão ser deixados pelo ministro Sergio Moro caso ele
consiga concretizar o que indicou em seus primeiros discursos, em
especial quanto ao uso da ciência no enfrentamento da criminalidade.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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