As grandes tragédias do Brasil e a pior de todas as tragédias...
Quem tem a culpa?
12/02/2019 às 13:36 JORNAL DA CIDADE ONLINE
Somente
este ano, que mal começou, o Brasil se deparou com duas grandes
tragédias que poderiam ter sido evitadas, e cujos saldos foram centenas
de vidas brutalmente ceifadas pela avalanche de lama, e uma dezena de
jovens vidas consumidas pelo fogo. Uma lástima.
Se aceitar os
resultados das tragédias causadas por desastres naturais é algo que para
nós não é fácil, mesmo que não tenhamos sido de alguma forma envolvidos
nas suas consequências, imaginem o que deve ser para aqueles que
perderam entes queridos. Conviver com tragédias que poderiam ter sido
evitadas e que foram causadas pelo descaso e pela negligência é algo
infinitamente pior. Além da dor e do sofrimento pela perda, há o
elemento da inconformação. Só quem sabe avaliar a extensão desse
sentimento é quem passou ou está passando por isso.
A
apuração da culpa e a punição dos culpados não traz as vítimas de
volta, mas certamente causa algum conforto, pelo sentimento de justiça
feita. Mas qual justiça, se aqueles que são diretamente responsáveis
pelas tragédias são os primeiros a posar de "vítimas"? Qual justiça, se
no Brasil a impunidade e o esquecimento sempre andaram de mãos dadas?
Vale
a pena aqui fazer uma breve retrospectiva pegando apenas alguns desses
tristes eventos que culminaram na morte de um grande número de pessoas.
ELEVADO ENGENHEIRO FREYSSINET
No
Rio de Janeiro, em 20 de novembro de 1971, um trecho de 50 metros do
Elevado Engenheiro Freyssinet desabou sobre o cruzamento da Rua Haddock
Lobo com a Avenida Paulo de Frontin, na Tijuca, matando 29 pessoas e
ferindo outras 18.
Erros no cálculo estrutural e também a abertura
de janelas de inspeção fizeram com que apenas um caminhão betoneira
passando pelo viaduto – ainda em construção – provocassem o colapso da
estrutura. O engenheiro Sérgio Marques de Souza foi condenado a um ano e
quatro meses, mas não ficou preso porque conseguiu um sursis, uma
dispensa do cumprimento da pena. Quem pagou pelos erros alheios? As 29
pessoas que morreram.
EDIFÍCIO ANDRAUS
Em
24 de fevereiro de 1972 a cidade de São Paulo viu arder um dos seus
grandes prédios comerciais – o Edifício Andraus. O prédio de 32 andares
foi tomado pelas chamas, causadas por um curto-circuito proveniente de
uma sobrecarga elétrica no segundo andar. As chamas foram tomando os
andares superiores. Foram 16 mortos, e o número de vítimas só não foi
maior graças ao resgate aéreo, cujos pilotos extremamente habilidosos
fizeram a maioria dos salvamentos.
Uma sobrecarga não ocorre
dissociada de um erro técnico na instalação, e erros técnicos acontecem
associados à falta de vistorias sérias, rígidas e que exijam a
utilização de padrões de segurança corretos.
EDIFÍCIO JOELMA
Em
1974 tivemos a clara demostração de que a lição não havia sido
aprendida com o evento do Andraus, ocorrida a quase exatos dois anos
antes, e outra tragédia abala São Paulo. Por volta das 08h50 do dia 1º
de fevereiro o edifício Joelma, localizado no Vale do Anhangabaú, pegou
fogo depois de um curto-circuito no sistema de refrigeração do Banco
Crefisul, que ocupava boa parte do prédio.
O incêndio começou no
12º andar, durou mais de três horas, destruiu 14 pavimentos, deixando
como saldo final 187 mortos e mais de 300 feridos. Não houve a
responsabilização de ninguém e a conta foi paga com a vida, por aqueles
que não tinham culpa no evento.
PAVILHÃO DO PARQUE DAS GAMELEIRAS
Passados
apenas três dias do incêndio do Joelma, do qual o Brasil não havia
ainda se recuperado emocionalmente, outra tragédia acontece, agora em
Belo Horizonte. Às 11h45 do dia 4 de fevereiro toda estrutura – 10 mil
toneladas – do pavilhão em construção no Pargue das Gameleiras veio
abaixo.
A obra estava atrasada. O então governador de Minas,
Israel Pinheiro, vivia seus últimos dias no cargo, pois deixaria o
Palácio da Liberdade em 15 de março de 1974. Com esse atraso, o governo
começou a pressionar os trabalhadores para que as obras terminassem
antes do fim do mandato.
Sem ouvir os operários, o governo mandou
retirar as vigas de sustentação, o que foi feito apesar das
recomendações contrárias e avisos dos operários que já vinham alertando o
governo sobre fissuras e estalos nos alicerces. Com a queda , mais de
69 trabalhadores morreram e muitos ficaram por meses internados em
hospitais da capital mineira – vários deles sofreram amputações. Ninguém
foi punido. Quem pagou? 69 pessoas que morreram no local e outros que
vieram a morrer no hospital.
BATEAU MOUCHE
Na
noite do dia 31 de dezembro de 1988 a embarcação Bateau Mouche IV
zarpou do Iate Clube do Rio de Janeiro, na Urca, para as comemorações da
virada do ano em Copacabana. O barco tinha a capacidade para 62
passageiros, mas levava 142. Assim que a embarcação deixou a boca da
barra, ou seja, a saída da baía de Guanabara, uma movimentação de
passageiros no deck superior fez com que o barco adernasse e afundasse.
55 pessoas morreram.
Em 1993 os sócios majoritários da empresa
proprietária do barco foram condenados por homicídio culposo (???),
sonegação fiscal e formação de quadrilha, em maio de 1993, a quatro anos
de prisão em regime semiaberto (só dormiam na prisão).
Em
fevereiro de 1994, graças a uma lei extremamente benevolente e também a
uma sentença estúpida, em vez de retornarem para a prisão, eles fugiram
para a Espanha, onde vivem muito bem. Alguns aguardam uma extradição que
jamais acontecerá. 55 pessoas efetivamente pagaram com a vida pela
omissão e pela irresponsabilidade de outros.
Vale lembrar que
tragédias semelhantes ocorrem quase todos os anos nos rios da Amazônia,
deixando até saldos maiores de vítimas. E ninguém paga por isso... só as
vítimas.
BOATE KISS
Vamos
dar um salto para o fatídico dia 27 de janeiro de 2013. Na madrugada
daquele dia, centenas de jovens se divertiam na Boate Kiss, na cidade de
Santa Maria, no Rio Grande do Sul. Por volta das 2h30 min durante a
apresentação da banda Gurizada Fandangueira, a segunda banda a se
apresentar na noite, o irresponsável vocalista da banda resolveu detonar
um sinalizador de uso externo no interior da boate.
O teto
revestido por material inflamável pegou fogo e em cerca de três minutos
uma fumaça espessa se espalhou por toda a boate. Numa ação criminosa, os
seguranças não permitiram inicialmente que as pessoas saíssem pela
única porta do local, por acharem que se tratava de uma briga, e que as
pessoas estavam saindo sem pagar. Foram 242 mortos.
Seis anos se
passaram e não tem ninguém na cadeia. Não houve sequer a
responsabilização do Corpo de Bombeiros local, que era responsável pela
vistoria de segurança e emissão do certificado de conformidade, sendo
que a casa não tinha saída de emergência e havia materiais inflamáveis
por todos os lados.
Quem pagou por isso até agora? As 242 vítimas e
mais as 242 famílias que, passados seis anos da tragédia, continuam de
luto, não viram a justiça ser feita e muito provavelmente não verão.
MARIANA
Na
tarde de 5 de novembro de 2015 no subdistrito de Bento Rodrigues, a 35
km do centro do município de Mariana-MG, um estrondo é ouvido. A
barragem do Fundão, construída para acomodar rejeitos tóxicos se rompeu,
e um verdadeiro tsunami de lama invadiu o pequeno lugarejo, levando
tudo o que estava em seu caminho. Foi uma tragédia de proporções
monumentais, com um impacto ambiental ainda impossível de ser calculado,
e que causou a morte de 19 pessoas.
O Ministério Público de Minas
Gerais havia sido contrário à renovação da licença de funcionamento da
barragem, tendo solicitado a realização de análise de ruptura e um plano
de contingência para o caso de riscos ou acidentes. A barragem já
apresentava riscos e no entanto funcionava normalmente graças a alvarás
concedidos sabe-se lá por quanto. Houve negligência, sabe-se nomes e
funções, mas ninguém foi responsabilizado criminalmente até hoje e
ninguém foi punido. Quem pagou? 19 pessoas... com a vida.
CICLOVIA TIM MAIA
Construída
para ligar a praia do Leblon a São Conrado e margeando a encosta da
Avenida Niemeyer, a ciclovia Tim Maia havia sido inaugurada em janeiro
de 2016. Apenas três meses após a sua inauguração, no dia 21 de abril,
uma onda mais forte – devido a uma ressaca - atinge parte da ciclovia e
20 metros da sua estrutura desmoronam.
A construção tinha várias
falhas no seu projeto e na sua construção. Os cálculos não levavam em
conta a possibilidade de uma ressaca e os efeitos de uma onda mais forte
sobre a estrutura da ciclovia, cujo piso era apenas assentado sobre as
colunas de sustentação. Duas pessoas morreram. Três anos se passaram e
ninguém sofreu qualquer punição.
BRUMADINHO
No
dia 25 de janeiro de 2019 a certeza da impunidade, a irresponsabilidade
técnica e a benevolência do governo em conceder autorizações causaram
aquele que é considerado o maior desastre com rejeitos de mineração no
Brasil. Repetindo Mariana, só que em proporções muito maiores. a
barragem de rejeitos localizada em Brumadinho-MG se rompe resultando em
um desastre com mais de 160 mortos confirmados (até agora) e 200
desaparecidos.
Classificada como de "baixo risco" e "alto
potencial de danos", era controlada pela Vale S.A – mesma empresa
responsável pela barragem de Mariana.
A única certeza que temos até agora é que ninguém será punido.
NINHO DO URUBU
No
último dia 8 de fevereiro o Brasil acordou com a notícia de mais uma
tragédia. Um incêndio causado por um curto-circuito no ar condicionado
de um dormitório ceifou a vida de dez crianças cheias de sonhos.
O
local não possuía alvará de funcionamento, quem deveria fazer um laudo
técnico de segurança não fez, quem deveria fiscalizar não fiscalizou,
quem deveria interditar a área não interditou e o local funcionava
normalmente, à parte da legalidade.
Mais uma vez, quem será
responsabilizado? Ninguém. O caso não passará de homenagens aos mortos e
em pouco tempo será apenas uma história a ser lembrada.
A PIOR DE TODAS AS TRAGÉDIAS
Todas
esses mortos foram vítimas daquela que eu chamo de "mãe de todas as
tragédias", e que é a nossa justiça. Essa mesma justiça que com seus
códigos carregados de erudições e pouca objetividade garante infindáveis
recursos, cometendo a negligência de permitir a impunidade.
Leis
ultrapassadas, cheias de brechas e permissivas em excesso pelos
infindáveis recursos, traduzem na sua linguagem pomposa e rebuscada que
as únicas sentenças advindas da sua morosidade e ineficiência são
aquelas que condenam as vítimas ao esquecimento ou que precificam cada
corpo.
E é justamente por isso que vamos continuar acordando
escandalizados pelas tragédias, que vão continuar acontecendo pela
omissão da justiça, que por sua inoperância faz e sempre fez cara de
paisagem diante das perdas de vidas humanas, e tem em suas mãos o sangue
de todas essas vítimas, por ter garantido a impunidade e até a fuga dos
culpados, abençoando as negligências em vez de punir exemplarmente os
responsáveis.
Aqui Juízes se sentam sobre processos que se
arrastam até a prescrição ou são cooptados por aqueles que deveriam
perder a liberdade. Na concepção da Justiça brasileira, apenas valorar
monetariamente os corpos e forçar as indenização das famílias parece ser
suficiente. Não é. O dinheiro não é suficiente para trazer a sensação
de que a Justiça foi feita e muito menos tem qualquer caráter didático
que venha a prevenir o acontecimento de outras tragédias e mais perdas
de vidas.
Todavia, o sangue dessa gente também respinga em nós.
Esquecemos que a Justiça deve ser feita para dar ordenamento a uma
sociedade e não para ser propriedade e poder absoluto daqueles que a
operam, e cuja manipulação muitas vezes se faz com descaso e apartada de
qualquer humanidade.
Abaixamos a cabeça para os "intocáveis de
toga donatários incontestes de toda a verdade" e adotamos uma conduta
cordata diante de discrepâncias como os recursos dos recursos dos
recursos, em vez de pressionarmos fortemente os legisladores para que
promovam as mudanças necessárias nas Leis, e também aos operadores para
que apliquem essas Leis de acordo com a lógica e com o rigor que se
espera.
Mas o que esperar de uma Justiça que nada de braçada no
corporativismo e que pune o Juiz que erra com o prêmio de uma
aposentadoria compulsória e salário integral?
O que nos falta:
Dura Lex Sed Lex. Centenas de mortos e ninguém preso. Experimente estar
desempregado e atrasar 3 meses de pensão alimentícia, e verá o quanto a
Justiça é implacável, na forma de um Oficial de Justiça batendo em sua
porta...
Nenhum comentário:
Postar um comentário