Por Rafael Albuquerque

AraKetu, Cheiro, Nana Banana, Yes Bahia Club, Papaléguas. Esses são
apenas alguns dos blocos que já foram alguns dos mais disputados do
Carnaval de Salvador, mas que este ano não vão desfilar na avenida. Os
motivos são diversos, porém a crise econômica e as taxas cobradas por
órgãos municipais e estaduais pesam na conta.
Ao Bocão News, representantes de diversas agremiações relataram que as
taxas são abusivas e que o retorno hoje não compensa. Porém, ninguém
fala abertamente, em especial quando se trata de criticar a prefeitura
de Salvador, até porque muitos são sócios ou donos de bandas e temem
ficar de fora também dos trios elétricos bancados pela gestão municipal
especialmente para a folia.
Para se ter uma ideia, os blocos Cheiro, Nana Banana,
Araketu, Yes, Papa e Nu Outro deixaram de desfilar, colocando bandas
como Cheiro de Amor, Chiclete com Banana, Eva, Araketu e atrações de
música eletrônica cada vez mais longe dos trios elétricos. Outras
agremiações só vão desfilar um ou dois dias, ou então arrendaram suas
vagas para blocos sertanejos ou de forró.
O Cerveja e Cia, que antes desfilada quinta, sexta e sábado de
Carnaval, inclusive com Ivete Sangalo, só vai sai um dia esse ano. O
Coruja, bloco principal da cantora juazeirense, só desfilará dois dias. O
Fissura sairá com Tomate dois dias, assim como o Balada, que ficará um
dia sem desfilar, e nos outros dias terá Tuca e Léo Santana à frente.
O Baby Léguas, alternativo do Papaléguas, sairá um dia como Blow Out,
aposta de Claudia Leitte para a folia. O tradicionalíssimo Eva também
mudou e desfilará apenas na sexta e sábado de Carnaval. O Inter (antigo
Internacionais), que já teve o Asa de Águia e a Timbalada à frente, em
2017 sairá dois dias com Psirico. O Alô Inter desfila dois dias como
Burburinho e o Pra Ficar terá um dia na avenida como Aviões Elétrico.
É claro que a dinâmica do Carnaval já não é a mesma, que a identidade
dos blocos já se perdeu. Diante disso, uma das estratégias é arrendar as
vagas de blocos tradicionais para atrações de fora, em especial os
representantes da música sertaneja, que têm cada vez mais público e
chegam a esgotar abadás, o que poucos cantores baianos conseguem
atualmente.
Em conversa com Washington Paganelli, presidente da Associação de
Blocos de Trio (ABT), ele afirmou ao Bocão News que há uma conversa com a
Saltur com relação às taxas, mas confirmou que entre os órgãos que
cobram taxas para desfile de blocos no Carnaval estão: “Ecad, Sefaz
Municipal, Sefaz Estadual, Sucom, Bombeiro, Fundo Especial de
Aperfeiçoamento dos Serviços Policiais (Feaspol), Secretaria de Saúde
municipal e estadual, polícia Técnica, Detran e Crea”.
Isso falando em blocos, porque se o assunto for Camarote, a Secretaria
Municipal de Desenvolvimento e Urbanismo (Sedur) é a responsável pela
taxação, que funciona da seguinte forma: taxa para construção de
camarotes: R$ 62,71 por m2 de área construída; atividade sonora: varia
de R$ 92,44 a 3.007,88 a depender do público (quantidade); atividade: R$
563,65 (são as atividades desenvolvidas por terceiros nos camarotes,
como bar, restaurante, salão, dentre outros); e publicidade: R$ 62,71
por m2.

Em recente entrevista ao apresentador José Eduardo, na Rádio
Metróplole, o secretário Claudio Tinoco, da Cultura e Turismo, foi
enfático ao afirmar que a crise tem sua parcela de contribuição para a
ausência de alguns blocos, mas citou outros fatores: “há um problema de
viabilidade que não envolve só taxa dos blocos. Tem o caso dos
cordeiros, uma atividade gerida de forma legítima pela Justiça do
Trabalho, que inviabilizou a atividade pra alguns os blocos manterem
abertos”.
O secretário se refere ao caso dos cordeiros, que recebiam um valor
irrisório, que variava de R$ 10 a R$ 15 reais por dia, além de não terem
a devida proteção individual para o trabalho desenvolvido. A categoria
passou a ter seus direitos cobrados pelo Ministério Público do Trabalho,
que inclui tênis, protetor auricular e luvas, por exemplo, o que
acarretou em mais gastos para os donos de blocos.
Sobre reajuste das taxas, o secretário afirmou: “estamos levantando
informações sobre o volume de arrecadação. Não teve um aumento
significativo. Conversei com o pessoal da Sedur e não houve aumento que
não fosse correção da inflação”. Apesar de todos os problemas, Tinoco
afirmou que está disposto a manter o diálogo aberto com o trade do
Caranval, mas por enquanto quem perde é o folião que cada vez mais deixa
de ver a prata da casa desfilar na folia de momo.

Uma das poucas empresárias que tiveram a coragem de falar ao Bocão News
sobre as taxas cobradas pela prefeitura, Dona Vera Lacerda, do AraKetu,
relatou também dificuldades com falta de patrocínio: “a gente trabalha
pra caramba pra botar bloco na rua e ainda fica com dívida. Hoje é muito
difícil conseguir patrocínio. Os poucos blocos que conseguem é
patrocínio de cervejaria, e ainda assim diminuiu bastante”.
Dona Vera afirmou ao Bocão News que o apoio do poder público faz falta,
em especial por conta das taxas elevadas: “fizemos um levantamento e as
taxas são absurdas. Falta apoio do poder público, e muito, e eu acho
isso um absurdo. A taxa cobrada é absurda e pesa no orçamento. Fizemos o
levantamento pra saber nossas possibilidades e ficamos tristes com
taxas, cordeiros, seguranças, trios absurdamente caros”.

Com tantos entraves e dificuldades, o Ara encontrou uma forma de
desfilar na quinta de Carnaval: “com o trabalho social que temos em
Periperi, pra não ficar sem sair vamos fazer a Batucada do Ara, mistura
de percussão e sopro, com os cantores no chão, lá na Barra”.
A empresária afirmou que está aguardando uma resposta do poder público,
mas que está desiludida: “tá bem difícil, é uma pena”. Em uma breve
análise, Dona Vera Lacerda fez uma projeção na empolgante para a folia
baiana: “há muito tempo venho falando nisso. Do jeito que vai, o
Carnaval da Bahia vai desaparecer. Todos os estados investem em carnaval
de rua, e a Bahia vai ficar fora disso? Não sei mais pra onde vai
caminhar. Eu estou muito triste porque sou uma das pessoas que mais ama o
Carnaval da Bahia e luta por ele”.
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