Se o governo quisesse mesmo atuar de forma positiva em matéria tão séria como as doenças mortais, então investiria nos cuidados intensivos que não financiou em vez de tentar impor a ideologia da moda. Manuel Villaverde Cabral para o Observador:
Ao
contrário do que crêem os fanáticos da eutanásia, não há razão nenhuma
para pensar que, de repente, os médicos de todo o país se meteriam a
«eutanasiar» os doentes que lhes caiam na mão e mesmo que o fizessem, o
que seria completamente idiota, não o diriam a ninguém. Estou
absolutamente convencido que a pior coisa que um doente pode fazer é
pedir ao médico que o «eutanasie». A lei que o PS quer impor ao país
contra toda a evidência levará a generalidade dos médicos a dizer NÃO a
tais pedidos contrários à sua ética e reputação.
O
único sítio onde a eutanásia poderia vir a ser praticada seriam as
«casas da morte» especializadas e pagas que um ou outro médico poderia
abrir ao público. Nessa altura, tratar-se-ia menos de eutanásia
hospitalar praticada em hospitais públicos do que desse «suicídio
assistido» que vemos anunciado na internet por algumas raras figuras
internacionais, conforme sucedeu com o cineasta Godard! Obviamente, tais
«estabelecimentos» estariam fora do alcance do cidadão médio e não é
certo que as seguradoras aceitassem esses poucos clientes!
Noutros
países, que não os católicos, é possível que haja quem venha pedir aos
médicos que lhes ponham fim à vida. Em Portugal, porém, tal prática
colocaria a generalidade dos médicos numa situação extremamente
embaraçosa, sobretudo nos hospitais públicos. Só faltava pôr um cartaz
dizendo: «AQUI FAZEM-SE EUTANÁSIAS»! Quem visse isso fugia, como
efectivamente fugirá para a «privada», mesmo sem cartazes afugentadores,
se porventura instituições portuguesas como o Presidente da República e
o Tribunal Constitucional acedessem ao absurdo fanatismo do PS alguns
deputados.
Em
Espanha, acaba de se passar o primeiro ano da lamentável experiência de
«liberalizar» a eutanásia. Ora, a prova da pretensa relevância do
fenómeno terá sido o caso de 800 pessoas em perto de meio-milhão de
óbitos anuais: nem um por cento. Não foi por acaso que o PS afastou
imediatamente a ideia de realizar um referendo que perderia, como já
perdeu o da «regionalização». Por piores razões ainda, o parlamento
português nunca referendou a entrada de Portugal na «Comissão Europeia»
nem, posteriormente, a adesão cega ao «euro», a qual faz hoje com que
Portugal venha baixando sistematicamente na escala da UE, enquanto a
cidadania continua excluída de referendar a Constituição e as suas
alterações, bem como os tratados europeus.
A
questão dos referendos, esses e outros, tem vindo a tornar-se cada vez
mais evitada e é manifesta a prática do PS pretender impor novas regras
fugindo a referendá-las agora que diz ter a «maioria absoluta». Aliás,
41% de votos podem ter dado uma maioria de deputados manipulada pela lei
eleitoral mas não são a maioria dos votantes. Por outro lado, se é
certo que hoje em dia o PCP vem perdendo importância, nem por isso deixa
de ser relevante que seja contra a ideia de permitir a prática pública
da eutanásia no SNS, o qual já está no estado em que está e que todos os
dias vê perder doentes para a «privada», para não esquecer o respeito
formal que o PCP sempre teve em relação à Igreja e ao eleitorado
católico!
Além
disso, a promoção da chamada «morte assistida» é muito mais ambígua do
que pode parecer quando se chora o sofrimento por que passam os
pacientes em estado de doença mortal. Com efeito, tal situação é muito
menos óbvia em alguns casos do que pode parecer, o que impede os médicos
de aliviar o sofrimento dos doentes para além de certa medida. Acresce
que muitos doentes mortais não estão em condições de decidir pedir ou
deixar de pedir a «eutanásia» ao médico. Nestes casos, a família do
doente poderá intervir no sentido de o médico pôr termo ao sofrimento,
vindo porém a revelar-se demasiado tarde que tal «sugestão» não era
isenta de interesses… Este tipo de situação até pode tornar-se altamente
embaraçosa para os médicos, o que faz com certeza que estes ignorem
tais «pedidos»! Não seria a primeira vez que tal veio a revelar-se…
A
concluir esta discussão sem fim cujos riscos éticos, profissionais e
até económicos são, por assim dizer, infinitos, é absolutamente
inaceitável tratar a questão da chamada «morte assistida» da mesma
maneira que se faz propaganda da cartilha ideológica na moda. Com
efeito, não é por acaso que a eutanásia é permitida em muito poucos
países e que a promessa feita aos moribundos não passa de um tipo de
salvação ideológica perante aquilo que se passa diariamente no silêncio
dos hospitais sob a nobre e árdua actividade dos médicos e dos
profissionais de saúde, que por princípio só não salvam quem já não pode
ser salvo. Se o actual governo pretendesse mesmo intervir de forma
positiva numa matéria tão séria como as doenças mortais, então
investiria nos cuidados intensivos que não financiou em vez de tentar
impor-nos a ideologia da moda.
Postado há 2 hours ago por Orlando Tambosi

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