O bom velhinho do shopping é mais erudito e mais barato que o da Lapônia, a sua terra natal lá na Finlândia. Via FSP, a crônica de João Pereira Coutinho:
Meu filho entrou em casa e acusou: "Você é um mentiroso!".
Tecnicamente, talvez tenha razão. Mas fiquei pasmo na mesma. Eu? Mentir? A um filho? Que acusação era essa?
"Papai Noel não existe", disse ele, que chegou aos sete anos crendo que era o barbudo quem trazia os presentes.
"Quem disse que não existe?", inquiri, como se fosse um policial da KGB.
Um coleguinha da escola, afirmou ele.
"Quero nomes", insisti.
"O Roberto."
Dei uma gargalhada teatral, forçada, podemos até dizer mentirosa. "E você acredita no idiota do Roberto?"
Ele ameaçava chorar. Optei pela via mística: "Papai Noel só existe para quem acredita nele".
Ficou confuso, momentaneamente confuso. Mas depois optou pela via materialista: "Ou existe, ou não existe".
Precisava de uma resposta decisiva, dogmática, final. Estupidamente, disse a primeira coisa que me passou pela cabeça.
"Muito bem: você quer conhecê-lo?"
Seus olhos se iluminaram: meu filho era um náufrago, perdido num mar de dúvidas, e eu lhe oferecia terra firme. "Podemos ir ao polo Norte?", arriscou ele.
Pensei
na minha conta bancária implodindo com aquela pergunta. "Não é preciso,
meu filho, ele está no shopping aqui do bairro, recebendo as crianças."
Mas
o pequeno não é otário para se iludir com um Papai Noel de otários.
Emendei imediatamente: "Mas vamos ao polo Norte, se você preferir. Não
tenho nada a esconder".
E
fomos. Aterramos em Helsinque, depois pegamos novo voo para Rovaniemi,
na Lapônia finlandesa. Durante todo o percurso, sentia que viajava com Galileu Galilei a caminho de um congresso de terraplanistas.
"Se
Papai Noel existe", cogitava ele, no seu tom de Sherlock Holmes, "vou
perguntar o que ele me trouxe o ano passado de presente, só para
confirmar". E depois fumava o seu cachimbo imaginário.
Expliquei
que o homem era velho, provavelmente senil, e que eram os elfos que
tratavam de tudo. Ele sorria, como um cínico, e murmurava: "Claro,
claro".
No
dia seguinte, com 20º C negativos, o táxi nos levou até a casa do Papai
Noel. Imaginava uma cabana de madeira, nos confins da floresta, e duas
ou três renas fazendo o que as renas normalmente fazem. Com sorte,
talvez houvesse um trenó.
Encontrei
um gigantesco parque temático —uma Disneylândia natalícia, digamos—
onde o espírito de Natal se pagava em euros e multidões de turistas
esperavam horas, fazendo fila, para conhecer a celebridade local.
O
rosto do pequeno mostrava algum desconforto, como se tivesse blasfemado
contra uma divindade real. O desconforto cresceu com o primeiro elfo:
um anão verdadeiro, vestido a rigor, que se aproximou de nós com um
sorriso de boas-vindas.
Passei ao contra-ataque: "E tem gente que não acredita..."
Ele ficou em silêncio com a minha provocação; era um silêncio culpado e amedrontado. Minha vontade era beijar o anão.
Em
vez disso, fui informado por ele, "sotto voce", que por € 30 o Papai
Noel oferecia um presente. Por mais € 75, tinha direito a fotos e vídeo
do encontro.
Agradeci,
rangendo os dentes, ao mesmo tempo que contemplava uma parede coberta
por fotos de celebridades que tinham estado ali com o mesmo propósito.
Das Spice Girls a Xi Jinping, ninguém faltou à chamada. Pois é: até os ditadores sentem nostalgia pela infância.
E
o momento sacramental chegou. Imagine o leitor um pequeno estúdio de
televisão, estilo talk show. Na poltrona do apresentador, um finlandês
de meia-idade, com barba longa e falsa, dizendo pela milésima vez as
imortais palavras: "Eu sei que você foi um menino bem comportado esse
ano".
Tudo
em dois minutos, o tempo suficiente para tirar a foto e você pensar:
"Milhares de quilômetros depois, e milhares de euros depois, é só isso
que o cara tem para dizer?". Definitivamente, o Papai Noel do shopping é
mais erudito e mais barato.
Mas
não mais convincente: meu filho, abandonando o caminho da heresia, se
lançou sobre o finlandês com um abraço de reconciliação.
"Chupa Roberto!", gritei eu, no meu interior, ao mesmo tempo que as lágrimas corriam soltas pelo meu rosto.
Minha mulher, a meu lado, assistia à cena e, comovida também, comentava: "Isso é lindo".
E era. Mas eu não chorava pela beleza do momento. Chorava porque me sentia o senhor Scrooge ao
ser visitado pelo Fantasma do Natal futuro. Exato: aquele momento em
que o garoto vai descobrir que só há uma coisa pior que uma mentira. É
inventar uma segunda, ainda maior, só para encobrir a primeira.
Se Papai Noel não existe, Papai Coutinho vai deixar de existir.
Postado há 32 minutes ago por Orlando Tambosi
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