BLOG ORLANDO TAMBOSI
Emendas Pix vão preencher o espaço deixado pelas emendas secretas. Elas também têm pouca transparência e não garantem gastos públicos de boa qualidade. Natália Lázaro para a Crusoé:
Até
o começo desta semana, as “emendas Pix” eram as primas pobres das
emendas do relator. Com a declaração de inconstitucionalidade dessas
últimas pelo STF, no entanto, as emendas Pix – ou “transferências
especiais”, no linguajar técnico – vão se tornar as estrelas do baile.
Se o seu uso não for melhor regulamentado, acabarão dando origem a um
novo orçamento secreto.
As
emendas Pix são, na verdade, uma fatia das emendas individuais a que
todos os parlamentares têm direito – e cuja execução é obrigatória.
Sempre se pode saber quem é autor de uma emenda desse tipo, ao contrário
do que acontecia com as emendas do relator, da maneira vigarista como
vinham sendo utilizadas. O problema das emendas Pix é outro: os recursos
não estão vinculados a nenhuma finalidade previamente estabelecida – a
nenhum programa ou convênio do governo federal. Como se fosse um Pix, o
dinheiro das transferências especiais cai diretamente no caixa do estado
ou município que o parlamentar decidiu beneficiar, e os gestores locais
podem gastá-lo como bem entenderem.
O
fim das emendas do relator não significa que os parlamentares perderam
os R$ 19,4 bilhões que estavam reservados para elas no Orçamento de
2023. Nas negociações sobre a PEC da Gastança, aprovada pelo Congresso
nesta quarta-feira, 21, ficou decidido que metade daquele valor vai para
os ministérios do governo Lula, mas o Congresso poderá “influir” na sua
alocação entre programas federais. A outra metade vai engordar as
emendas individuais e, por consequência, a fração delas destinada às
transferências especiais.
O
valor reservado para emendas Pix já vinha crescendo ao longo dos anos.
Em 2021, R$ 621 milhões irrigaram as bases eleitorais de deputados e
senadores por meio delas. Em 2022, foram quase seis vezes mais: R$ 3,3
bilhões. O montante previsto para emendas individuais em 2023 era de R$
11,7 bilhões, sendo R$ 3,7 bilhões para transferências especiais. Vai
haver uma explosão quando o Orçamento for revisto. A dotação para
emendas individuais passará a ser de R$ 21,2 bilhões e, se a proporção
anterior for mantida, mais de R$ 6 bilhões ficarão disponíveis para
emendas Pix.
Há
uma discussão sobre quem deveria fiscalizar a aplicação dos recursos
das emendas Pix. Em tese, esse papel cabe aos Tribunais de Contas
estaduais e municipais. Neste ano, a Controladoria Geral da União (CGU)
decidiu verificar, de maneira amostral, o destino que foi dado a emendas
Pix liberadas em 2020. Em poucos casos foi possível seguir até o final o
caminho dos recursos. Quando isso aconteceu, foram detectadas
inconsistências na aquisição de bens e serviços. Em outras palavras, as
emendas Pix também são opacas e não garantem um gasto público de boa
qualidade.
Para
o economista Gil Castello Branco, fundador da entidade Contas Abertas,
as transferências especiais “são cheques em branco, dinheiro pulverizado
em gastos de pouca eficiência”.
“A
falta de parâmetros técnicos e sócio-econômicos distorce as políticas
públicas, amplia as desigualdades regionais e municipais e facilita o
surgimento de casos de corrupção”, diz o especialista.
A
visão do advogado Ricardo Barreto é semelhante: “Se não existe
exigência de que os recursos federais sejam aplicados em determinadas
áreas ou finalidades, as políticas públicas executadas em âmbito
nacional se desarticulam, o que produz danos para o planejamento de
longo prazo.”
A
PEC que deu origem às transferências especiais foi aprovada em 2019 e
sua autora é a deputada federal Gleisi Hoffmann, presidente do PT.
Segundo um levantamento realizado pelo Contas Abertas, foi justamente o
PT o partido que mais utilizou a ferramenta em seus três anos de
existência, com desembolso de R$ 268 milhões. Em seguida vêm o PP, com
R$ 266 milhões e o PSD, com quase R$ 263 milhões.
Parlamentares
petistas dizem que as transferências especiais são importantes para
partidos de oposição – situação em que eles se encontravam durante o
governo Bolsonaro –, pois evita que tenham as mãos atadas pelo governo.
A
ausência de burocracia é uma virtude que parlamentares à esquerda e à
direita atribuem às emendas Pix. O deputado federal Evair de Melo
(PP-ES) diz que ficou reticente a princípio, mas depois enxergou um
“grande avanço” nas transferências. “Desburocratiza, simplifica o
processo e chega mais rápido ao destino”, diz ele. “A liberação de uma
emenda convencional, para uma obra, por exemplo, pode levar quatro anos.
Nessa altura, a obra já custa o dobro. Em convênios, às vezes a
prefeitura não consegue dar suas contrapartidas e com isso a emenda se
perde.”
Kim
Kataguiri (União Brasil-SP) e Alessandro Vieira (PSDB-SE) também
destacam a agilidade das emendas Pix. “A vantagem é que o recurso chega
diretamente ao destino, sem que nenhum centavo se perca no caminho
devido a atrasos com trâmites burocráticos”, diz Kataguiri. Os dois
reconhecem, no entanto, que faltam controles para garantir que os
recursos sejam bem aplicados.
Essa
é, com certeza, uma visão benevolente. Além da falta de controles
adequados, que terão de ser instituídos, repasses de recursos da União
no formato das emendas Pix criam uma relação de clientelismo entre
estados e municípios e os seus representantes no Congresso Nacional.
Esmolas desse tipo não seriam necessárias se a distribuição da receita
tributária entre os entes da federação fosse mais equilibrada. Para que
isso aconteça, é preciso uma reforma tributária. O PT, que propôs a
criação das transferências especiais, promete levar adiante essa reforma
no primeiro ano do governo Lula. A conferir.
“As
transferências especiais, cujo volume lamentavelmente deverá ser
ampliado de modo significativo em 2023, representam um desastre
institucional. Revelam um estágio de desorganização institucional e
federativa que precisa ser enfrentado com urgência por toda a
sociedade”, diz o advogado Ricardo Barreto.
Postado há 13 minutes ago por Orlando Tambosi

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