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Presidente da SBMFC, Zeliete Linhares Leite Zambon entende ser igualmente prioritária a formação de especialistas. Hoje, a atenção primária conta somente com 10 mil médicos, enquanto o mínimo necessário seria de 70 mil A Medicina de Família e Comunidade é uma especialidade de inserção 100% centrada em gente. No dia a dia, responde pela atenção primária em unidades de todo o país, primando pela competência e resolubilidade. A presidente da SBMFC, Zeliete Linhares Leite Zambon, assevera que a médica e o médico de família e comunidade fazem toda a diferença no processo de assistência à saúde aos cidadãos. Aliás, na prática, eles tratam de saúde de forma integral, registrando e analisando desde os estudos populacionais à gestão dos cuidados. Zeliete alerta, no entanto, que a atenção primária conta somente com 10 mil médicos, enquanto o mínimo necessário seria de 70 mil. Nesse contexto, a SBMFC compreende ser indispensável a injeção de investimentos à área, com vistas a ampliar a malha de atendimento e qualificá-lo continuamente, além de valorizar as médicas e médicos, priorizando a estratégia de saúde à família e estimulando a formação de alto nível e a especialização. A propósito, ela defende a revogação da lei que congelou os investimentos de saúde por 20 anos e que há 8 anos deixa o sistema engessado.
Qual o impacto da crise brasileira na medicina de família? Temos de solucionar a defasagem de 60 mil profissionais na especialidade. Países como Portugal, Espanha e a própria Inglaterra investiram na formação e na capacitação. Assim, equacionaram seus sistemas. Quando conseguirmos isso aqui, estaremos em condição para resolver 85% dos problemas de saúde. Estudos registram que outros 14% são da atenção secundária e 1% de casos de internação. Esse é o principal gargalo que trava a assistência qualificada?
Um dos muitos. Cada vez mais, a gente só consegue atender as pessoas que comparecem às unidades, pois há falhas estruturais: os investimentos em saúde estão congelados; as unidades com carência de equipamentos, recursos humanos e ferramental para atendimento. Em nosso dia a dia na linha de frente, muitas vezes, quando uma pessoa finalmente consegue chegar para receber assistência, já não é mais possível resolver no campo primário, na na unidade. A agravante é que, se esse paciente não é atendido no nível secundário, vai para a internação, para a atenção terciária. É um vício sistemático: gestão equivocada, menos soluçoes, mais gastos. Há uma saída a curto prazo para a gestão em saúde? É difícil. Aliás, não podemos passar para a população versão de que será fácil. Não será. Precisamos da reconstrução do sistema de saúde, a situação é bem grave. Nesse contexto, aumenta ainda mais a responsabilidade e a importância da medicina de família e comunidade. Destaco outra vez: os médicos de família e comunidade tem de estar à frente das instâncias de gestão em saúde. Devemos integrar, opinar e ter voz decisória nas coordenações do sistema. É o processo natural e racional, afinal, desempenhamos a atenção primária, construímos dados populacionais, conhecemos as carências e necessidades da população. O que esperar do próximo governo? O principal desafio é obter verba para a saúde. Outro ponto essencial é investir na atenção primária, inclusive como protagonista do sistema de gestão. É da maior relevância priorizar a formação em medicina da família e comunidade, além de outras especialidades em que há carência para a assitência. A SBMFC foi convidada para recente reunião do grupo de transição da saúde do novo governo. Por favor, como foram os debates? Fizemos uma ponderação para reflexão entre o grupo de transição: a saúde é 100% relacionada com a economia. A As pessoas precisam comer, ter acesso a condições básicas de sobrevivência. No Brasil registramos 62 milhões de pessoas — ou 29,4% da população — na pobreza, em 2021, considerando parâmetros do Banco Mundial. De acordo com o levantamento divulgado em 2 de dezembro, ou seja, dias atrás, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), é o maior índice desde o início da série, em 2012. A realidade é essa: sem equilíbrio, com fome e miséria, não há um povo saudável. De que forma o medicina de família e comunidade pode interferir para resgatar o equilíbrio no campo da saúde?
Nossa especialidade preza justamente por esse equilíbrio em suas ações diárias. Busca detectar os problemas socioeconômicos desde suas raízes. Na atenção primária, o médico, em sinergia com a equipe de saúde da família, é o primeiro contato.
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