Da minha parte gostaria de recomendar só livros escritos por carecas. Se todos podem ser narcisistas, por que os carecas não podem? Já mandei até fazer uma camiseta com as palavras LEIA CARECAS. A crônica de Alexandre Soares Silva para a revista Crusoé:
É
a época de fazermos listas de melhores livros do ano, e de nos
entregarmos gostosa e descomplicadamente ao narcisismo racial e sexual
mais desvairado possível: negros recomendando livros só de negros,
mulheres recomendando livros só de mulheres, e homens brancos
recomendando livros só de negros e mulheres.
Talvez
os homens brancos consigam recomendar, ali no meio dos nove outros
livros, algum livro escrito por um dos últimos brancos que ainda chamam
atenção no mundo literário-jornalístico: Cormac McCarthy, Michel
Houellebecq e mais uns seis caras no mundo (três deles Ian McEwan). É
arriscado, mas os homens brancos ainda acham isso permissível, no final
de 2022, se os nove outros livros que eles recomendaram foram escritos
por Chimamanda Ngozi Adichie. Em 2023 talvez não dê mais, mas por
enquanto noto que ainda é possível.
Nunca
entendi essa reclamação das mulheres de que homens não lêem mulheres,
porque, ué –– o que poderia ser mais natural? Crescemos ouvindo
histórias contadas por mulheres, não? Pelo menos eu cresci ouvindo minha
mãe me contando histórias, e a minha tia Emery, que contava sempre a
mesma história de um crocodilo numa banheira (ainda é a minha história
favorita).
Depois
disso, aos onze anos, forçado na escola a ler Lygia Bojunga Nunes e
Maria Clara Machado, o que é que eu lia por vontade própria, assim que
chegava em casa? Agatha Christie, ora bolas – dezenas de livros dela,
por anos e anos, como todos os moleques da minha geração e também das
gerações precedentes, desde pelo menos 1920.
Mas
sim, é verdade: todos sabemos que Agatha Christie foi tão oprimida por
um mercado literário machista que foi obrigada a trabalhar como
costureira no Brás até a velhice, esquecida por todos, ceguinha devido
às más condições de trabalho, diabética, pegando ônibus no terminal
Largo 13, fazendo capinhas de bujão de gás pra suplementr a renda,
enquanto os homens só queriam ler os romances policiais escritos por
algum homem medíocre de cachimbo na boca.
Da
minha parte gostaria de recomendar só livros escritos por carecas. Se
todos podem ser narcisistas, por que os carecas não podem? Já mandei até
fazer uma camiseta com as palavras LEIA CARECAS.
Mas,
se for sincero, nenhum dos meus autores favoritos era careca. Talvez só
P. G. Wodehouse, razão pela qual o amo de modo desvairado. Mas quem
mais? Borges tinha entradas mas não era tecnicamente careca. Chesterton
tinha bastos e assimétricos cabelos frisados como se tivesse um poodle
castanho grudado de um lado só da cabeça. Machado de Assis era
praticamente um lobisomem. Jane Austen enfrentou alguns problemas na
vida, mas tenho certeza que a calvície não foi um deles. E Mark Twain
tinha mais cabelo que Bonnie Tyler no vídeo de Total Eclipse of the
Heart.
De qualquer forma, eis a lista dos melhores livros que li em 2022:
Um Deus Passeando Pela Brisa da Tarde, Mário de Carvalho (cabelos)
Galahad em Blandings, P. G. Wodehouse (careca)
Trabalho Impróprio para uma Mulher, P.D.James (muié)
Parmênides, César Aira (cabelos)
Home Sweet Homicide, Craig Rice (muié)
A Ilíada, tradução de Odorico Mendes (cabelos)
Apologia de Sócrates, Platão (cabelos? Ninguém jamais mencionou que fosse careca)
Berta Isla, Javier Marías (semi-careca)
A Trilogia de Alexandre, Mary Renault (muié)
A Conquista do México, Willliam H. Prescott (cabelos com entradas)
Essa
é a minha lista, caso alguém queira saber. É a lista verdadeira, cá
entre nós, mas não é a lista oficial que vou mandar à imprensa caso me
perguntem. Como quero ficar de bem com a esquerda uma vez na vida,
especialmente agora, vou roubar a lista que a romancista e contista
Conceição Evaristo fez dos seus “livros prediletos” para o UOL esta
semana.
Agora
a lista é minha também, é a minha lista, amo esses livros loucamente,
juro, esquerda, e não me digam que preciso lê-los para amá-los:
Leite do Peito, de Geni Guimarães
Solitária, de Eliana Alves Cruz
Eu Sei Por Que o Pássaro Canta na Gaiola, de Maya Angelou
Amada, de Toni Morrison
O Olho Mais Azul, de Toni Morrison
Cartas para Minha Mãe, de Teresa Cárdenas
Olhos D’água, de Conceição Evaristo
Poemas da Recordação e Outros Movimentos, de Conceição Evaristo
Da Vida nas Ruas, ao Teto dos Livros, de Clarice Fortunato
Diário de Bitita, de Carolina Maria de Jesus
Sim,
é verdade. Conceição Evaristo cedeu não só ao narcisismo racial e
sexual como também ao narcisismo old school e citou dois livros dela
mesma na sua lista de livros preferidos.
Acho
isso de uma inocência realmente admirável. Me dá até coragem de fazer a
mesma coisa, e citar agora como meu favorito de 2022 o meu próprio
romance Totolino, publicado esse ano pela editora Danúbio. Certamente
foi um dos livros que mais tive prazer em reler em 2022. Devo mentir?
Mas menciono o livro não tanto por vaidade, vocês sabem. É mais pela necessidade cívica de incluir um autor careca nessa lista.
Postado há 1 hour ago por Orlando Tambosi

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