BLOG ORLANDO TAMBOSI
Por que a tensão entre os poderes criada por Bolsonaro não vai se extinguir de uma hora para outra no país. Carlos Graieb para a revista Crusoé:
A
penúltima semana de 2022 começou com a perspectiva de uma crise entre
poderes – a primeira do governo Lula, que nem sequer tomou posse.
A
atmosfera ficou tensa na noite de domingo, 18, quando o ministro Gilmar
Mendes, do STF, acolheu um pedido da Rede Sustentabilidade para que
recursos do Orçamento de 2023 fossem reservados ao pagamento de um Bolsa
Família (Auxílio Brasil) de R$ 600,00. Mendes decidiu que os valores
liberados pela PEC dos Precatórios – aquela, que autorizou o governo a
não quitar na íntegra, durante alguns anos, as dívidas judiciais da
União – deveriam ser destinados a essa finalidade. Se ainda faltasse
dinheiro, o Planalto estaria autorizado a abrir créditos extraordinários
para garantir a entrega do benefício assistencial.
A
notícia era ótima para Lula e o PT, que vinham lutando havia mais de um
mês, sem sucesso, para aprovar a PEC da Gastança e assim poder cumprir
as principais promessas da campanha eleitoral. Com a grana do Bolsa
Família assegurada, o partido ficava menos dependente da boa vontade do
Congresso.
A
temperatura subiu de vez na segunda-feira, 19, quando o STF concluiu o
julgamento do orçamento secreto. O voto decisivo foi de Ricardo
Lewandowski, que é amigo de Lula. Por 6 a 5, a corte considerou
inconstitucional o uso de emendas do relator para irrigar com dinheiro
público os feudos eleitorais dos parlamentares. Isso, apesar de as
presidências da Câmara e do Senado terem finalizado, dias antes, um
projeto de resolução que prometia sanar os principais problemas do
orçamento secreto: a falta de transparência e a falta de critérios para a
distribuição dos recursos.
Mais
uma vez, a notícia era boa para o governo eleito, que recobrava o
controle sobre os R$ 19,7 bilhões direcionados para o agora defunto
orçamento secreto.
Satisfação
de uns, ressentimento de outros. As duas decisões minaram a força do
presidente da Câmara Arthur Lira (PP-AL). A primeira, reduziu seu poder
de barganha diante de Lula. A segunda, atingiu em cheio o seu poder de
fazer ou desfazer maiorias no plenário, manejando os bilhões do
orçamento secreto. De repente, até mesmo a reeleição do deputado para a
presidência da Câmara, em fevereiro de 2023, já não parecia certa.
A
primeira reação dos aliados de Lira foi ver nos acontecimentos uma
jogada combinada entre Lula e o STF. Segundo apurou Crusoé, o tribunal
fez chegar aos deputados que Gilmar Mendes e Ricardo Lewandowski não
haviam discutido entre si as respectivas decisões. Mendes teria até
mesmo ficado surpreso com o posicionamento de Lewandowski no julgamento
do orçamento secreto. Mas a desconfiança do Centrão não se desfez.

Estavam
dadas as condições para um choque do governo eleito com a Câmara. Ao
mesmo tempo, parlamentares ligados ao bolsonarismo retomaram suas
críticas ao STF, acusando o tribunal de interferir em questões que
deveriam ser da alçada do Legislativo e do Executivo. Ações do ministro
Alexandre de Moraes durante as eleições, restringindo a liberdade de
expressão inclusive de parlamentares, voltaram a ser lembradas. “O que a
gente tem visto no país é muito grave”, disse o senador Carlos Portinho
ao programa Meio-Dia em Brasília, do Antagonista, nesta terça-feira,
20. “As prerrogativas e funções constitucionais do parlamento vêm sendo
superadas pelo Judiciário. O direito de fala do parlamentar não vem
sendo respeitado. A gente tem visto censura, há um clima até de terror,
de medo, o parlamentar não sabe mais o que pode falar da tribuna.”
A
crise foi evitada porque o PT concluiu que não seria boa ideia
abandonar as tratativas sobre a PEC da Gastança. O propósito de manter
as negociações foi anunciado na própria segunda-feira por Fernando
Haddad, futuro ministro da Fazenda.
Depois
de mais dois dias de discussões, na quarta-feira à noite, a PEC foi
aprovada. O governo eleito disporá de R$ 145 bilhões fora do teto de
gastos, mas só em 2023, e não por dois anos, como queria. O Congresso,
por sua vez, não perdeu acesso aos R$ 19,7 bilhões anteriormente
direcionados ao orçamento secreto. Metade desse valor vai engordar as
emendas individuais, a que todo parlamentar tem direito. A outra metade
será distribuída entre ministérios, mas o Congresso poderá influir na
sua utilização por meio de outros tipos de emenda – as de bancada e as
de comissão.
O
fato de se ter contornado uma crise neste momento não significa que a
paz eterna vai reinar entre os três poderes. Os americanos, no século
18, criaram um sistema de “pesos e contrapesos” porque sabiam que
Legislativo, Executivo e Judiciário são sempre tentados a invadir o
espaço um do outro. A tensão, e não a harmonia, é o estado natural no
relacionamento entre eles. Nos últimos quatro anos, no entanto, Jair
Bolsonaro exacerbou essa tendência, transformando os tribunais
superiores – STF e depois TSE – em inimigos políticos, enquanto cedia
aos interesses e vontades do Congresso como nenhum presidente antes
dele. Isso despertou paixões que não vão se extinguir de uma hora para
outra.
“O
Congresso vem se empoderando há cerca de uma década”, diz o cientista
político Leonardo Avritzer. “Mas seu controle da agenda política e do
orçamento atingiu o ápice no governo Bolsonaro.”
Depois
de experimentarem esse momento de ouro, não se deve imaginar que
senadores e deputados vão se retrair por muito tempo. Eles tentarão
recobrar o terreno perdido com a derrubada do orçamento secreto. Duas
oportunidades para isso delas já estão no calendário estabelecido pela
PEC da Gastança: em 2023, o governo terá de apresentar e aprovar um novo
arcabouço fiscal, além de garantir recursos para os programas sociais
de 2024.
Certas
diferenças de estilo entre Lula e Bolsonaro também devem ser levadas em
conta. Como observa Avritzer, o atual presidente não se esforçou para
impor uma agenda ao Congresso. Esse é um fato atestado por números. Um
levantamento realizado pela Escola de Direito da FGV mostra que
Bolsonaro teve baixíssima capacidade de aprovar leis de autoria da
Presidência no Congresso. Até junho deste ano, sua taxa de sucesso foi
de 39,7% – contra 56,7% de Fernando Henrique Cardoso, 62,2% de Lula e
59,7% de Dilma Rousseff (quem diria), sempre nos seus primeiros
mandatos.
Também
foi baixa a sua “taxa de dominância”, ou seja, a porcentagem de
projetos de sua iniciativa entre aqueles aprovados pelo Congresso:
28,3%, contra 60% de FHC, 62,1% de Lula e 35,1% de Dilma. Sem aptidão ou
apetite para fazer avançar uma pauta legislativa, Bolsonaro preferiu
governar por decretos e polêmicas. Editou mais de 1400 dos primeiros e
produziu as segundas em volume industrial.
Lula
e o PT, ao contrário, devem fazer todo o possível – e talvez o
impossível – para emplacar seus projetos. A luta será bastante
encarniçada, tendo em vista que o bloco de direita e de centro direita
eleito para o Congresso é consideravelmente maior que o bloco de
esquerda. Lula está distribuindo cargos para partidos como MDB e PSD,
mas não poderá contar com essas bancadas na íntegra. Cada votação
importante vai abrir uma janela para que o Congresso tente arrancar mais
um naco de poder do governo.
O
esforço para minar a reputação do STF deverá ser quase que
exclusivamente dos bolsonaristas, a partir do ano que vem. Alguns
políticos da direita liberal podem engrossar as críticas. “Tenho achado
absurdo o que STF está fazendo”, diz o deputado federal Marcel van
Hatten (Novo-RS). “Há uma diminuição enorme do poder do parlamento em
decorrência da exptrapolação dos limites do STF.” O Centrão raiz jamais
comprou essa briga e não deve fazê-lo agora. O PT e a esquerda se
reconciliaram com a corte depois da anulação dos processos da Lava Jato
contra Lula. Mas não é o caso de subestimar o apelo do assunto entre uma
fatia considerável da população. Além disso, o combustível para a
paixão anti-Supremo é quase inesgotável.
“O
escopo de atuação que a Constituição de 88 deu ao STF é tão grande que é
quase inevitável que ele seja visto como uma corte ativista”, diz o
diretor da Escola de Direito da FGV, Oscar Vilhena Vieira. “Ele é
chamado a se manifestar continuamente no timing da política.” É bom
lembrar que, embora os partidos políticos reclamem com frequência das
intervenções do STF, muitas vezes são eles mesmos que acionam o
tribunal. Tanto a ação a respeito do Bolsa Família julgada por Gilmar
Mendes quanto o processo sobre a inconstitucionalidade do orçamento
secreto tinham partidos como autores.
Algumas
das críticas ao STF, no entanto, se devem aos seus próprios erros. É
fato que os inquéritos das fake news e dos atos antidemocráticos, sob o
pretexto de proteger a democracia, resvalaram muitas vezes na censura e
no autoritarismo. Também é fato que o excesso de decisões individuais
enfraquece a legitimidade do tribunal. “O apetite monocrático é muito
grande e há um déficit de colegialidade”, diz Vieira. “O Supremo parece
esquecer que tem mais força quando age coletivamente.” Na segunda-feira,
19, durante a última sessão do ano, a presidente do STF, Rosa Weber,
apresentou os números do tribunal. Segundo ela, o STF proferiu 87.983
decisões ao longo de 2022, das quais 75.351 monocráticas (85,64%) e
apenas 12.632 colegiadas (14,36%).
Nos
últimos quatro anos, o Executivo partiu para o confronto com a cúpula
do Judiciário, enquanto se retraía diante do Legislativo. O Legislativo
desfrutou de uma força inédita, mas sofreu um revés de última hora. O
Judiciário assumiu o papel de defensor da democracia, mas às vezes errou
na dose e se tornou vilão para muitos brasileiros. A mudança de
equilíbrio entre os Poderes é uma herança do governo Bolsonaro com que o
Brasil ainda vai lidar por um bom tempo.
Postado há 1 hour ago por Orlando Tambosi

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