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O livre mercado nunca existiu, é um modelo teórico da ciência econômica e um ideal dos liberais. O capitalismo é uma etapa histórica concreta. Adriano Gianturco para a Gazeta do Povo:
Capitalismo
“consciente”, capitalismo “criativo”, capitalismo “2.0”, capitalismo
“sustentável”, capitalismo “democrático”, capitalismo “social”. Vários
são os adjetivos anexados ao capitalismo. Há cada vez mais livros pop e
artigos de jornal adjetivando o capitalismo, como se o capitalismo
tivesse algo negativo e as pessoas queiram “limpar” o conceito de
capitalismo, adicionando um adjetivo politicamente correto, fofo e de
moda que pisca o olho aos sentimentos e à turma do bem comum.
Na
literatura científica o debate é outro. Se fala de “capitalismo de
Estado”, ou “capitalismo de mercado”, “crony capitalism”, “capitalismo
de laços”, “capitalismo de compadrios”, “capitalismo com características
chinesas”, “laissez faire capitalism”. Esses conceitos se referem a
dois modelos diferentes, um tendente mais ao livre mercado, o outro mais
ao intervencionismo ou dirigismo estatal, ao conluio entre big business
e big government.
Na
verdade, o termo “capitalismo” nasce na literatura alemã de 1800 com
autores como Marx, Brentano, Sombart, Simmel, Weber etc. É a época do
que depois foi chamado de Revolução Industrial. Não tinha exatamente
essa consciência na época, mas se percebia que algo estava mudando. E
para denominar e classificar o mundo que vinha a surgir e o sistema
econômico nascente surgiu o termo capitalismo.
Um
sistema diferente do precedente feudalismo, organizado em latifúndios
de propriedade dos senhores onde trabalhavam os servos. Os servos não
tinham propriedade (privada). Viviam no terreno do senhor, dormiam em
casas, barracos, ou cabanas de propriedade do senhor trabalhavam a terra
do senhor, o que produziam era do senhor e até as ferramentas que
utilizavam eram do senhor. Era uma sociedade binária e dicotômica, só
duas classes, “quem tem” e “quem não tem”. Os fatores de produção eram
terra e trabalho. Uma economia baseada em agricultura e artesanato.
Com
a Revolução Industrial, o mundo muda. Nasce a classe média, que quebra a
dicotomia marxista entre duas classes e faz a revolução industrial.
Campesinos e agricultores abandonam os campos e as áreas rurais e vão
para as cidades (em bairros periféricos dormitórios), viram operários
nas fábricas, “com nada a vender exceto o próprio trabalho”. Eis a
especialização, a divisão do trabalho, a cadeia de produção (todos
pensam na cena de Charlie Chaplin) e a alienação.
Há
uma acumulação de capital sem precedente, as condições econômicas
melhoram como nunca antes na história. O fator de produção mais
importante agora é o Capital no qual entra também a Terra (na ciência
econômica ainda hoje se fala de K e L). Sociologicamente falando, nasce a
classe dos capitalistas.
Nesse
sistema, não é mais o feudo/terra o fator dominante, mas o capital. O
capital é dinheiro, tecnologia, maquinários e meios de produção. É o
predomínio do capital em cima dos outros meios de produção (terra e
trabalho). E para identificar esse novo sistema nasce o conceito de
“capitalismo”. Um sistema de acumulação de capital sem precedente, um
sistema de produção em massa, pela massa, para a massa, baseado no
capital.
Ou
seja, capitalismo não significa, não é e nunca foi “livre mercado”. O
livre mercado nunca existiu, é um modelo teórico da ciência econômica e
um ideal dos liberais. O capitalismo é uma etapa histórica concreta. Os
marxistas criticam o capitalismo porque, segundo eles, o capital
determinaria todo o resto, a política, a cultura a sociedade etc.; ou
seja, o criticam o capitalismo por ter capital demais. Os liberais o
criticam por ter Estado demais mas reconhecem que em comparação aos
outros sistemas econômicos gerou muito mais bem estar, no mundo todo,
especialmente para os mais pobres. Já os marxistas negam esse fato.
Ainda assim, os leigos confundem livre mercado e capitalismo.
Quando
os marxistas afirmam que “vivemos em um mundo capitalista”, estão
certos. Vivemos em um sistema capitalista e não vivemos em um sistema de
livre mercado. O ideal dos liberais é o livre mercado e não o
capitalismo. Os liberais não defendem o capitalismo como modelo ideal,
mas como o melhor sistema até hoje.
Capitalismo
é um sistema menos pior que o feudalismo, pois proveu muito mais bem
estar, liberdade e igualdade, para todo mundo, especialmente os mais
pobres e no mundo todo, mas está longe de ser livre mercado. Proveu tudo
isso sem tentar gerá-los intencionalmente e sem adjetivos.
Adriano Gianturco é coordenador do Curso de Relações Internacionais IBMEC-MG.
Postado há 1 hour ago por Orlando Tambosi

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