BLOG ORLANDO TAMBOSI
Quem é, como pensa e como age o próximo ministro da Fazenda, nomeado por Lula para vender um plano econômico que nem sequer existe, mas já preocupa. Reportagem de Duda Teixeira para a revista Crusoé:
Há
três semanas, o presidente eleito Lula informou o advogado e
ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad de que o nomearia para comandar
o Ministério da Fazenda. Seguiu-se um período de muita boataria e
ansiedade, nos meios financeiro e empresarial. Na última sexta-feira, 9,
a decisão foi finalmente confirmada em público — e teve início o
esforço para tentar prever como será a condução da economia no terceiro
mandato de Lula. A coletiva de imprensa que Haddad deu na terça, 13, as
entrevistas que concedeu como futuro ministro e suas primeiras nomeações
dão algumas pistas, mas não revelam a história toda. Também é
importante analisar seu relacionamento com Lula, retornar ao que Haddad
escreveu e àquilo que ele fez como prefeito. A conclusão mais importante
talvez seja que as promessas de equilíbrio fiscal que Haddad vem
fazendo podem, sim, ser cumpridas. Mas nesse caso, isso se dará por meio
de aumento de impostos e corte de subsídios, muito mais do que pela
contenção dos gastos públicos ou por uma reforma administrativa.
Haddad
iniciou sua carreira na Universidade de São Paulo. Formado em direito,
ele obteve um mestrado em economia defendendo a tese Debate sobre o
caráter socioeconômico do sistema soviético. “Meus anos de universidade
foram marcados pelo convívio com a nata da intelectualidade uspiana”,
escreveu ele em um artigo. No final dos anos 1990, Haddad trabalhou como
consultor na Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas, onde criou a
tabela Fipe de preços de veículos. Mas não se pode defini-lo
propriamente como um economista. Até porque, em 2017, ele admitiu ser
mais um curioso, que gosta de ler sobre o assunto. “Apesar de dar uns
pitacos na economia de vez em quando, eu estudei dois meses de economia
para passar no exame da Anpec (Associação Nacional dos Centros de
Pós-graduação em Economia). Depois eu não estudei mais”, disse Haddad,
em um debate no Insper. Seu doutorado foi sobre marxismo, em filosofia,
em 1996.
Em
2001, Haddad começou a galgar postos técnicos na administração pública.
Foi chefe de gabinete da secretaria de Finanças na prefeitura
paulistana, comandada por Marta Suplicy. Dois anos depois, mudou-se para
Brasília como assessor do Ministério do Planejamento. Entre 2005 e
2012, atuou como ministro da Educação, abarcando os mandatos de Lula e
Dilma Rousseff. Então, ele foi ungido por Lula, que o colocou para
disputar cargos elegíveis. O ex-presidente chegou a participar
pessoalmente da campanha de Haddad para a Prefeitura de São Paulo, em
2012. Foi sua primeira e última vitória nas urnas. Em 2016, reprovado
por metade dos paulistanos, ele tentou a reeleição, mas perdeu no
primeiro turno para João Doria. Teve apenas 16% dos votos.
A
preferência de Lula por seu afilhado político ainda se manifestou em
2018, quando Haddad o substituiu e acabou derrotado por Jair Bolsonaro.
Este ano, Lula insistiu nele duas vezes, ao colocá-lo para disputar o
Governo do Estado de São Paulo e, na semana passada, com sua nomeação
para a Fazenda. Por contar com a estima do chefe, mesmo sem demonstrar
capital eleitoral, Haddad surpreende até petistas. Muitos o chamam pelo
apelido de “tucano”, o que é uma referência a suas posições mais
centristas (comparadas com as dos radicais petistas), ao seu modo
polido, seu jeito elitista, ao seu currículo acadêmico e suas amizades
diversas. “Haddad sempre teve um bom trânsito com alguns tucanos, que
gostam dele. A aliança do Lula com o Geraldo Alckmin, o vice na chapa
presidencial, teve o dedo decisivo do Fernando”, diz o jornalista
Eugênio Bucci, que o conhece desde os tempos da universidade.

Ao
longo dos anos, Haddad e Lula desenvolveram uma amizade profunda. Esta
semana, Haddad disse que essa relação é um “ativo” que pode ser
aproveitado em favor do país. “Isso me dá a possibilidade de conversar
com Lula sem cerimônia, sem nenhuma trava”, disse ele. Quando estão na
mesma cidade, é comum eles jantarem juntos com suas esposas. Ana Estela
Haddad é doutora em odontologia e professora da USP. Às vezes, Lula
pergunta a opinião dela sobre políticas públicas. Janja, mulher de Lula,
é socióloga e se dá muito bem com Ana Estela.
A
principal preocupação com Haddad é como ele irá lidar com a
responsabilidade fiscal. Haddad é contra o teto de gastos, é favorável à
PEC do Gastança, que pode ampliar o buraco fiscal em 168 bilhões de
reais em 2023, e tem dito que é preciso “compatibilizar responsabilidade
fiscal com social”. Para economistas não petistas, essas falas causam
insegurança. “Se Haddad seguir a visão do PT de que o Orçamento é
elástico e de que qualquer despesa é justificável se for a favor dos
pobres, daqui a pouco os mercados vão fugir da dívida pública, os
investidores vão deixar do país, o câmbio será depreciado e teremos
inflação, que vai atingir principalmente os pobres e reduzir o potencial
de crescimento do país”, diz o economista Maílson da Nóbrega, da
Tendências Consultoria.
Outro
temor é de que o PT jogue no lixo outras regras que ajudaram a dar
estabilidade para a economia nos últimos anos. Na noite da terça, 13, o
partido conseguiu aprovar uma mudança na Lei das Estatais na Câmara. Com
apoio do Centrão e de bolsonaristas no Congresso, o PT quer reduzir de 3
anos para 30 dias o período de quarentena que envolvidos em campanhas
eleitorais precisam respeitar antes de assumir um cargo em uma empresa
pública. O texto deverá ser analisado pelo Senado na próxima semana. Se
for aprovada, a medida facilitará a ingerência política em todas as
estatais. No mesmo dia, Lula nomeou Aloizio Mercadante, que trabalhou em
sua campanha, para a presidência do Banco Nacional de Desenvolvimento
Econômico e Social, o BNDES. Com ele no comando, o dinheiro dos
brasileiros poderá ir parar em projetos na Argentina ou em Honduras,
retomando a política petista de buscar uma “integração regional” — e
também de espalhar corrupção pela região. Só no porto de Mariel em Cuba,
o BNDES concedeu uma linha de financiamento de 641 milhões de dólares,
dos quais a ditadura não pagou nem a metade. Na mesma emenda para mudar a
lei, flexibilizaram-se os gastos com publicidade em empresas públicas, o
que, mais do que desnecessário, é suspeito. O próximo alvo de Lula e
dos petistas ainda não é conhecido. Mesmo assim, as ações da Petrobras
despencaram quase 10% na quarta. As do Banco do Brasil, 8%.
Para
se defender das críticas, Haddad tem dito que vai antecipar a nova
âncora fiscal, a qual deverá substituir o teto de gastos e está prevista
na PEC da Gastança para, no máximo, agosto de 2023. Ele também tem
tentado se aproximar do setor financeiro. Na coletiva de imprensa da
terça, 13, anunciou o ex-presidente do Banco Fator, Gabriel Galípolo,
como o secretário executivo da Fazenda. Muito à vontade, Galípolo esteve
ao lado de Haddad no encontro com os jornalistas, sorrindo e piscando
para pessoas nas primeiras fileiras da plateia. O cargo é de extrema
valia, porque se trata da pessoa que cuida do dia a dia da pasta e que
pode compensar a falta de experiência do ministro, que não
necessariamente precisa ser um economista. Mas Galípolo não é visto pelo
mercado como um liberal, nem como alguém entendido em finanças
públicas. Um artigo que ele escreveu em abril com Haddad em defesa de
uma moeda única para o Mercosul, mesmo com a Argentina em plena crise
inflacionária, deixou a impressão de que cálculos políticos podem
atropelar o bom senso econômico. Galípolo assumiu o Banco Fator em 2017,
após a instituição registrar um lucro anual. A empresa, então,
registrou prejuízos em três dos quatro anos seguintes: 36 milhões de
reais em 2017, 18 milhões de reais em 2019 e 29 milhões de reais em
2020. O lucro em 2018 foi magro, de 2,4 milhões de reais. “Não é muito
comum um banco no Brasil dar prejuízo. O fato de que o Fator sob o seu
comando ficou várias vezes no negativo mostra que Galípolo não é
exatamente um modelo de sucesso para a Faria Lima”, diz o jornalista e
analista de investimentos Rodrigo Oliveira, de O Antagonista, que
levantou os balanços do Fator no Banco Central. Galípolo deixou a
empresa quando a corretora do banco foi comprada pelo BTG de André
Esteves (que, aliás, fez campanha para Haddad entrar no Ministério da
Fazenda).

Lula
com Mercadante: interferência política em estataisHaddad também tem se
vendido como um bom gestor. Ele tem lembrado que é o autor da lei das
PPPs, as parcerias público-privadas. De fato, o futuro ministro esteve
envolvido com o tema e sabe como essas coisas funcionam. As PPPs também
são uma especialidade de Galípolo. Caso a dupla consiga incentivar
projetos com o setor privado, mostrará que Haddad não é tão
intervencionista quanto parece ser. As PPPs, contudo, estarão muito mais
na alçada do Ministério do Planejamento, e não na Fazenda. Na mesma
linha, Haddad tem propagandeado sua gestão à frente do Ministério da
Educação, onde criou o Prouni, que dá bolsas para estudantes carentes
estudarem em universidades privadas. Nessa pasta, em 2009, Haddad se
atrapalhou com o roubo do Enem, exame criado com o objetivo de avaliar
os estudantes do ensino médio e que se tornou uma espécie de vestibular.
A prova daquele ano foi obtida por um colégio de Fortaleza. De início, o
governo cancelou somente as questões dos alunos do colégio, mas não fez
nada com as dos estudantes que faziam o cursinho pré-vestibular na
mesma escola. Depois, precisou corrigir o erro. “Haddad fez uma boa
gestão, mas errou ao escolher a instituição que realizou essa prova do
Enem por meio de um pregão eletrônico, que teve como critério apenas o
preço. Como se viu, eles não estavam muito bem preparados para executar a
tarefa”, diz a socióloga Maria Helena Castro, ex-presidente do Conselho
Nacional de Educação.
O
acerto incontestável de Haddad esteve na escolha de Bernard Appy como
seu secretário especial para a reforma tributária. Economista formado
pela USP, Appy é o maior entendido nesse assunto árido. Ele poderá
trazer boas ideias para a simplificação de tributos, tão necessária no
Brasil. Ao que tudo indica, a reforma tributária será usada
principalmente para elevar a arrecadação, de forma a permitir que o
governo possa arcar com maiores gastos. Há projetos para criar uma nova
faixa de cobrança no imposto de renda, para os mais ricos, e para
tributar lucros e dividendos. Seria uma reedição do seu mandato na
Prefeitura de São Paulo, entre 2013 e 2016. Haddad entregou o posto com
as contas no azul. Sua gestão foi considerada como de “equilíbrio
expansionista”, em que a elevação de gastos foi sustentada por um
aumento de receitas, que ocorreram por meio de reajustes do imposto
predial territorial urbano (IPTU) e das multas de trânsito. A regra
provavelmente será gastar primeiro o que não se tem, e correr atrás da
verba depois. “Provavelmente, teremos alguns momentos de maior
irresponsabilidade fiscal e, quando a coisa apertar, eles terão de fazer
ajustes por meio de aumento de impostos e de corte de subsídios para
alguns setores”, diz o economista Ricardo Hammoud, professor de
macroeconomia no Ibmec de São Paulo.
Todos
os anos, o governo brasileiro deixa de arrecadar cerca de 400 bilhões
de reais em subsídios. Haddad tem falado bastante da Zona Franca de
Manaus, que sozinha deixa de pagar 30 bilhões de reais em impostos por
ano. “É bom lembrar que Lula voltará à Presidência com raiva de alguns
grupos que apoiaram o impeachment de Dilma Rousseff ou o seu rival Jair
Bolsonaro”, diz Hammoud. Para acabar com essa “Bolsa Empresário”, só
será preciso vencer a resistência dos grupos de interesses organizados
em Brasília. Subir os impostos, por outro lado, pode ser um problema,
porque afetará o desempenho das empresas, principalmente em um cenário
de baixo crescimento. No próximo ano, a previsão é de que a economia
brasileira cresça apenas 1%. Cobrar taxas maiores poderá sufocar o setor
produtivo. Seria muito mais prudente cortar gastos, mas isso é algo que
o PT não parece estar disposto a fazer. Encontrar um equilíbrio não
será uma missão tranquila para o próximo ministro da Fazenda.
Colaborou com esta reportagem Natália Lázaro
Postado há 2 hours ago por Orlando Tambosi

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