BLOG ORLANDO TAMBOSI
Nossa ladroagem é não só perversa, mas brega, e ainda assim os fanáticos encontram meios de justificar os malfeitos de seus ídolos políticos. Jerônimo Teixeira para a Crusoé:
Nunca
escrevi a respeito da corrupção. O tema me entedia mais do que me
enoja. Para ficar em um escândalo recente, tento acompanhar os enroscos
do clã Bolsonaro com cartões de vacinação e de crédito, mas logo canso.
Não bastasse a figura diligente e sorridente do tenente-coronel Mauro
Cid, agora apareceu um sargento que também cuidava das contas da
ex-primeira-dama. Não tenho paciência para milicos áulicos.
Vários
artigos meus, é verdade, trataram lateralmente de corrupção. Pois aqui é
Brasil, e até escrevendo sobre literatura – ou arte, ou ciência, ou
futebol… – a sujeira em algum momento se apresenta. Mas, até onde
lembro, nunca fiz um texto exclusivamente dedicado à corrupção. Pois
minha aversão à troca de favores e ao tráfico de influência não é apenas
moral: ela é principalmente estética. A corrupção é tão feia quanto
viciosa. Aliás, a corrupção é o mais feio dos vícios.
Outro
dia, revi O Poderoso Chefão 2. No início do filme, um senador corrupto
tenta cobrar Michael Corleone (Al Pacino) pela licença para operar um
cassino em Las Vegas. Queria um dinheiro por fora, como se diria no
Brasil. Gângster de princípios como já fora seu pai, Michael recusa a
proposta. Os meios pelos quais acabará dobrando o senador envolvem a
morte brutal de uma prostituta, mas, no universo ficcional do filme,
essa atrocidade parece mais nobre do que maços de dólares passados por
baixo da mesa.
Reprovamos,
por princípio, a agressão, a guerra, a violência, mas não escapamos ao
fascínio que essas perversidades exercem – que o diga o inglês Thomas De
Quincey, autor de um fino ensaio sobre o assassinato como obra de arte.
O terror extremo pode se aproximar do sublime e os crimes mais
violentos por vezes carregam com eles a grandeza trágica. A corrupção,
ao contrário, é sempre um negócio vulgar, mesquinho.
Eu
proporia uma definição assumidamente falaciosa da corrupa brazuca – uma
definição que contorna aspectos morais e jurídicos essenciais ao objeto
definido: a corrupção brasileira é aquela atividade subterrânea
exercida por gente brega para comprar breguices caras. Minha proposta
tem amparo em numerosos exemplos: apartamento de juiz em Miami; dança
com guardanapo na cabeça em Paris; cueca servindo de cofre; empreiteira
fazendo reforma em sítio com lago e pedalinho; imóvel para guardar
dinheiro vivo; dinheiro vivo para comprar imóvel; propina em Bíblia,
ouro e pneu; e joias, muitas joias ostentosas mas nem por isso
elegantes.
A
breguice vem acompanhada da pobreza retórica. Corruptos e corruptores
só conhecem duas figuras de linguagem: a perífrase e o eufemismo,
empregados para encobrir a natureza ilícita de suas práticas. Sabe
aquela conversa de “inconsistência contábil”? Pois é disso que estou
falando.
Ao
que parece, o recém-lançado livro de Emílio Odebrecht é pródigo nesses
expedientes. Não o li, nem o lerei. Observo, no entanto, que quase todos
os excertos reproduzidos na imprensa são circunlóquios para levar à
conclusão de que a lama das empreiteiras é limpinha. Eis o autor negando
que a Odebrecht mantinha um departamento de propinas: “O que existiu
foi um sistema de geração de recursos não contabilizados, o popular
‘caixa 2”. Sim, o caixa dois é mais popular que Anitta e a capivara Filó
juntas: faxineiras, pequenos comerciantes e entregadores de aplicativo –
todos mantêm algum “faturamento alocado” para “atender contingências
inesperadas”.
A
tentativa de relativizar, distorcer ou até negar fatos relacionados à
corrupção estende-se para além daqueles que lucram com esquemas
ilícitos. Os fiéis das seitas políticas brasileiras têm a notável
tendência de neglicenciar os fatos que implicam seus líderes enquanto
apontam o dedo justiceiro para os malfeitos do campo oposto. E isso
ainda é trivial: o espantoso é quando os sectários consideram que
suspeitas de ladroagem confirmam a virtude de sua seita.
No
século XIV, Giovanni Boccaccio apresentou um paradoxo similar na
segunda novela da primeira jornada de seu Decameron. A história se passa
em Paris, onde dois mercadores honestos – Giannotto, católico, e
Abraam, judeu – tornam-se muito amigos. Preocupado com a salvação da
alma de Abraam, Giannotto busca convencer o amigo a abandonar os “erros
do judaísmo” e abraçar “a verdade cristã”. Tanto insiste que o judeu
afinal admite a possibilidade de ser batizado – mas não sem antes
conhecer o centro do catolicismo, Roma. Giannotto desespera-se: se o
amigo vir de perto a devassidão da corte papal, jamais se converterá ao
cristianismo.
Como
previsto, Abraam assombra-se com os pecados que grassam na cúpula da
igreja: a luxúria tanto “natural” quanto “sodômica”, a glutonaria
desregrada, a ganância que busca lucro até com bens sagrados. De volta a
Paris, ele relata tudo isso a Giannotto. Para alegria do amigo, porém,
decide ingressar no rebanho católico naquele mesmo dia. Abraam concluíra
que, se a fé cristã ainda cresce enquanto seus altos representantes
trabalham para desmoralizá-la, isso prova que ela é “a religião
verdadeira e santa”.
A
corrupção da igreja, portanto, confirma a verdade da fé. À esquerda e à
direita, os fanatizados brasileiros levaram essa racionalização a um
extremo idiotizado. Toda notícia de maracutaia envolvendo seus ídolos
políticos só confirma que estes estão no caminho certo – e que por isso
são perseguidos pelo establishment político, pelos interesses
estrangeiros que conspiram contra nossa soberania nacional, pela mídia,
pela elite. Quanto mais se acumulam indícios e evidências de corrupção,
mais o grande líder se consagra como o único que pode deter a corrupção.
E esse tipo de pensamento mágico corrompe ainda mais o debate público.
(Desconfio que na verdade eu sempre escrevi sobre corrupção.)

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