BLOG ORLANDO TAMBOSI
“Só porque você está ofendido, não significa que você está certo”, disse Ricky Gervais. Eli Vieira para a Gazeta do Povo:
Do
massacre do jornal satírico francês Charlie Hebdo em 2015 à censura do
humorista Léo Lins em 2023, a resistência sisuda e autoritária ao humor
provocativo e limítrofe tem uma longa história.
Os profissionais do riso, contudo, não deixam barato e continuam a
oferecer resistência. Confira abaixo, nas próprias palavras deles, o que
eles pensam sobre essa tensão entre liberdade e segurança psicológica.
“Penso que é dever do comediante encontrar onde está o limite e ultrapassá-lo deliberadamente” – George Carlin (1937-2008),
rei do stand-up americano, cujo nome foi parar na Suprema Corte do país
por causa de seu monólogo ‘Sete palavras que você nunca pode dizer na
televisão’.
“A
ideia de que você precisa ser protegido de qualquer tipo de emoção
desconfortável é uma ideia à qual eu definitivamente não me subscrevo” –
John Cleese (1939-), britânico cofundador do grupo Monty Python.
“Quem
avisa, amigo é: se o governo continuar deixando que certos jornalistas
falem em eleições; se o governo continuar deixando que determinados
jornais façam restrições à sua política financeira; se o governo
continuar deixando que alguns políticos teimem em manter suas
candidaturas; se o governo continuar deixando que algumas pessoas pensem
por sua própria cabeça; e, sobretudo, se o governo continuar deixando
que circule esta revista, com toda sua irreverência e crítica, dentro em
breve estaremos caindo numa democracia” – Millôr Fernandes (1923-2012),
famoso jornalista e colunista de humor brasileiro, na última página do
último número da revista O Pif-Paf, fechada em julho de 1964 pela
censura da Ditadura Militar.
“Continuaremos a trabalhar, com a liberdade interior, que é nossa e nunca nos tiram, e com o medo, que é humano” – Millôr Fernandes,
n’O Pasquim, 1972. Na manhã seguinte, o jornal foi apreendido e um
processo contra Millôr foi instaurado ‘pessoalmente pelo Sinistro da
Justiça, Armando Falcão’.
“Não
sei por que o governo faz tanta questão de impor censura, não sei por
que a maior parte dos intelectuais luta tanto pela abolição da censura.
Em nossos pequenos períodos de liberdade o que se percebe é que quase
ninguém tem nada a dizer, ou prefere não dizer, ou, mais comumente, só
deseja mesmo dizer coisas deliciosamente favoráveis” – Millôr Fernandes.
“Se você não pode dizer ‘foda-se’, você não pode dizer ‘foda-se o governo’” – Lenny Bruce (1925-1966), pioneiro do stand-up americano preso repetidamente por causa de leis contra ‘obscenidade’.
“O
problema claro em criminalizar o insulto é que coisas demais podem ser
interpretadas como tal: crítica, ridicularização, sarcasmo, meramente
emitir um ponto de vista alternativo à ortodoxia” – Rowan Atkinson (1955-), ninguém menos que o Mr. Bean.
“O
deputado Gama Lima (que Deus perdoe o eleitorado do estado da
Guanabara) é a favor da censura e dirigiu solicitação ao ministro da
Justiça, professor Gama e Silva, no sentido de endurecer cada vez mais a
repressão ao que ele considera obsceno, pornográfico, amoral e de mau
gosto. Como o ilustre deputado não especificou onde exercer a repressão,
é bem possível que o ministro venha a solicitar, por sua vez, ao
presidente da República, o fechamento da Assembleia Legislativa” –
Stanislaw Ponte Preta, pseudônimo do brasileiro Sérgio Porto (1923-1968).
“A
peça Liberdade, liberdade estreava em Belo Horizonte e a censura
cortava apenas a palavra prostituta, substituindo-a pela expressão
‘mulher de vida fácil’, o que, na atual conjuntura, nos parece um tanto
difícil. Ninguém mais tá levando vida fácil” – Stanislaw Ponte Preta.
“Não
sei se eu teria sido uma comediante de stand-up no Irã porque, como
vocês sabem, o governo lá defende a liberdade de expressão... mas não
tem mais liberdade depois de você se expressar. A coisa fica meio letal”
– Shappi Khorsandi (1973-), nascida no Irã e naturalizada britânica.
“Eis
a virtude da liberdade de expressão: ela torna a ocultação difícil e, a
longo prazo, impossível. Um herege, se tem razão, é tão bom quanto um
anfitrião. Está destinado a ganhar no longo prazo. Não é de se admirar,
portanto, que os inimigos do esclarecimento sempre tenham começado seus
trabalhos pela tentativa de negar a liberdade de fala aos seus
oponentes. É perigoso para eles e sabem disso. Então eles partem para
acusar esses oponentes de todo tipo de crime e contravenção, a maioria
das acusações claramente absurdas — em outras palavras, usam xingamentos
na tentativa de intimidar” – H. L. Mencken (1880-1956), um dos jornalistas satíricos mais famosos dos EUA no começo do século XX.
“Hynkel,
o ditador, governou a nação com mão de ferro. A liberdade foi banida, a
liberdade de expressão foi suprimida e somente a voz de Hynkel era
ouvida. (...) Os ditadores libertam a si mesmos, mas escravizam o povo!
Lutemos para libertar o mundo” – Charlie Chaplin (1889-1977), rei da comédia do cinema mudo, no filme O Grande Ditador (1940), uma sátira contra Adolf Hitler.
“Peguei
[a fase] do Estado Novo, peguei Getúlio Vargas. A Ditadura [Militar]
foi a pior época. Qualquer censura é ruim. Foi ruim no rádio, quando
tinha o DIP, o Departamento de Imprensa e Propaganda. Coloquei [no
texto] ‘você vai para a Europa? Vê se me consegue uns afrescos de
Rafael’. Aí cortaram ‘afrescos’, o cara puxou um comentário: ‘diga
rapazes de maus hábitos’” – Chico Anysio (1931-2012), pioneiro do humor na TV brasileira.
“O assassinato é punido às vezes, a liberdade de expressão, sempre” – Mark Twain, pseudônimo do americano Samuel Clemens (1835-1910), gigante da literatura e humorista.
“Elogiar [o SNI]? Eu não admito isso, tenha dignidade” – Dercy Gonçalves (1907-2008),
uma das maiores humoristas da história do Brasil, sobre o Serviço
Nacional de Informação, órgão de espionagem e censura da Ditadura
Militar.
“Está
na essência da comédia você quebrar tabus e passar por cima de coisas.
Léo Lins é um dos caras importantes porque escreveu um manual de como
começar na comédia. Quando ele estica os limites, ele é importante para
mostrar o que é a comédia” - Cassius Ogro,um dos novos nomes do humor no Brasil.
Postado há 1 week ago por Orlando Tambosi

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