BLOG ORLANDO TAMBOSI
Coluna de Carlos Brickmann, a ser publicada nos jornais de domingo, dia 15 de maio:
A
Rússia perdeu a guerra na Ucrânia. Combates que deveriam durar dois,
três dias (tanto que Joe Biden, logo que a invasão começou, ofereceu
asilo ao presidente ucraniano) já chegam a dois meses e meio. O poderoso
Exército Vermelho, sem armas nucleares, mostrou que não é tão poderoso
assim. A OTAN cresce como não crescia há muito tempo, com a próxima
adesão de Finlândia e Suécia, e com a decisão alemã de multiplicar os
gastos militares. Boas notícias para o Ocidente e a Ucrânia? Sim – mas
há um problema. A Rússia pode ser um tigre de papel, mas tem dentes
atômicos. E é dirigida por Putin, que se for derrotado perde o poder e a
vida. Que fará?
Dificilmente
Putin se conformará com uma derrota. Pode tentar a grande virada com o
que tem de mais forte, os mísseis atômicos. Ele é perigoso o suficiente
para que se evite humilhá-lo. É preciso encontrar, e rápido, alguma
saída que lhe permita salvar a face (e a vida). Como se fez com o Japão,
no fim da Segunda Guerra Mundial, manteve-se o imperador e milhares de
mortes se evitaram. Procurar os culpados pela guerra é coisa para o
futuro. Hoje, o que se precisa fazer é evitar que a guerra se alastre.
A Rússia sofre militar e economicamente, a Europa paga muito caro o gás e o petróleo.
E
para que? Embora haja malucos achando que é possível desgastar a Rússia
até a impotência, o mundo não é assim. Como dizia Shakespeare, há
muitos séculos, é muito barulho por nada.
Perdendo tudo
Existem,
sim, guerras justas: contra o nazismo e o imperialismo japonês, por
exemplo; como a da Ucrânia contra a invasão russa; como, há 500 anos, a
dos ingleses contra a Invencível Armada espanhola. Mas esta, fora a luta
da Ucrânia contra o invasor, nada tem de justo. O Ocidente viveu até
uma lua de mel com os russos (quando Putin se referia a “nossos amigos
americanos”). Mas o apetite de Putin pela Ucrânia pôs o mundo em risco.
Além das mortes, a Rússia sofre duras sanções econômicas e seus
principais produtos de exportação, petróleo e gás, perderam os melhores
mercados. A Europa, que vivia bem, livre de despesas militares,
dedica-se a torrar euros com armas e soldados. Os Estados Unidos, que
haviam montado uma rede internacional de suprimentos, têm de conviver
com a escassez de uma série de insumos essenciais. Até o Brasil, tão
longe, gasta mais com fertilizantes e sofre com falta de produtos para a
indústria. O risco nuclear é para todos.
Não é nem questão de moral ou justiça: é caso de parar de perder.
Meu mulato...
Isso
também vale para o Brasil. A poucos meses da eleição, nenhum dos
candidatos apresenta seus projetos de governo, caso eleitos. É xingação;
pior, exagera-se na xingação. Lula é chamado de “cachaceiro”? Ele
gosta, sim. Mas Churchill, o primeiro-ministro que liderou a Inglaterra
na Segunda Guerra Mundial, estava longe de ser abstêmio. A rainha-mãe da
Inglaterra, também Elizabeth, tomava sua dose de gim todas as noites –
dizem que a dose era reforçada, do tamanho de uma garrafa. Morreu com
101 anos.
...inzoneiro
Bolsonaro
é acusado de racismo (já deu prova disso, quando Preta Gil lhe
perguntou como reagiria se um filho namorasse uma negra e ele disse que
não discutiria promiscuidade). Mas dizer que um quilombola gordo pesava
sabe-se lá quantas arrobas não é racismo: arroba é uma unidade de
medida. Em geral, usa-se para mercadorias, mas não é depreciativa.
Dizer, numa sala cheia de nordestinos, que ali havia muitos
paus-de-arara que desconheciam a cidade do padre Cícero, só é racismo se
a má vontade for muita.
Vou cantar-te nos meus versos
Vamos
combinar assim: tanto Lula quanto Bolsonaro têm muitos defeitos, o
suficiente para sustentar uma campanha eleitoral inteira. Não é preciso
nem inventar defeitos nem forçar a mão. Que tal explorar só os defeitos
reais?
Aos fatos
Bolsonaro
demitiu o ministro das Minas e Energia pelo mesmo motivo que o levou a
trocar duas vezes o presidente da Petrobras: fazer de conta que está
tomando providências contra a alta dos combustíveis. Este colunista não
sabe se há providências que funcionem; se existem, Bolsonaro não as
tomou até hoje.
Mas
escolheu um novo ministro, Adolfo Sachsida, que é um retrato de seu
Governo. Já disse que Hitler era de esquerda; que é normal que mulher
ganhe menos do que homem. Já foi ligado a Olavo de Carvalho. Bom,
Sachsida assumiu o Ministério com dois problemas na mesa: o aumento dos
combustíveis e o Centrãoduto – uma rede de gasodutos no Nordeste, de cem
bilhões de reais, pagos pelo Governo, que segundo seus adversários terá
um só beneficiário, Carlos Suarez (o S da OAS), único distribuidor de
gás da região.
Em
seu discurso, disse que determinaria estudos imediatos para a
privatização da Petrobras. Não há tempo para isso nesse governo. E
jamais passaria pelo Congresso: onde já se viu o Centrão dispensar vaca
leiteira?

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