BLOG ORLANDO TAMBOSI
Novos exames de sangue ajudam a confirmar o diagnóstico e a combater o Alzheimer com injeções. Fernando Reinach para o Estadão:
O
envelhecimento vem acompanhado de uma perda gradual da memória. No meu
caso é aquele amigo que aparece na frente e o nome me escapa, ou os
óculos que desaparecem sem deixar vestígios e reaparecem ainda na minha
mão depois de minutos de busca. Sabemos que 25% das pessoas acima de 60
anos sofrem com a perda gradual da memória. A novidade é que esse
fenômeno pode ser revertido, pelo menos em camundongos.
Camundongos
jovens podem ser treinados para associar um estimulo sonoro ou visual a
um leve choque elétrico. Se forem ensinados na infância, esse
aprendizado dura durante a vida adulta, mas são esquecidos quando
envelhecem. E essa perda de memória é gradativa. Faz algum tempo sabemos
que essa perda de memória ocorre ao mesmo tempo que a camada de mielina
que recobre parte das células nervosas (neurônios) diminui. Essa camada
de mielina é como se fosse a capa de um fio, sendo que a parte que ela
recobre, o axônio, é por onde passa o estimulo nervoso. Essa camada de
mielina é produzida por células que abraçam o axônio. Todos esses
componentes do nosso cérebro ficam embebido em liquido cafelo raquidiano
(LCR). É o tal liquor que os médicos coletam quando fazem uma punção na
nossa coluna vertebral.
O
que os cientistas fizeram foi ensinar camundongos a responder a
estímulos na juventude e esperar que eles começassem a esquecer esse
aprendizado. Quando eles já tinham esquecido (na velhice, que ocorre aos
18 meses) seus cérebros foram injetados com LCR coletado de camundongos
jovens (3 semanas de vida) que nunca haviam sido treinados. Durante 7
dias os camundongos idosos receberam essa injeção de LCR. Após mais
alguns dias os cientistas testaram a memória desses idosos e se
surpreenderam ao observar que as memórias que tinham, desaparecido
haviam retornado. Ou seja a perda de memória tinha sido revertida.
Examinando no microscópio o cérebro dos camundongos, descobriram que a
injeção de LCR havia provocado uma recuperação na quantidade de mielina
em volta dos axônios.
O
passo seguinte foi identificar que componente presente no LCR de
animais jovens estava provocando essa recuperação na memória dos idosos.
Após muito buscar descobriram que uma proteína já conhecida dos
cientista, um fator de crescimento chamado Fgf-17, era a molécula
responsável pela volta da memória e que isso ocorria porque o Fgf-17
estimulava o crescimento das células que produzem a camada de mielina.
Esse
trabalho demonstra que a perda de memória pode ser revertida com
injeções de Fgf-17. Como o Fgf-17 é uma molécula que existe normalmente
nos camundongos jovens, e diminui nos idosos, esse tratamento é
extremamente simples e teoricamente seguro.
Agora
os cientistas devem estar testando se o Fgf-17 humano, quando usado
para tratar idosos, pode reverter a perda de memória em seres humanos.
Se isso for verdade, abre uma enorme possibilidade de reverter a perda
de memória dos idosos. E eu vou entrar na fila na esperança de deixar de
esquecer que meus óculos estão na minha mão.
Mais
informações: Young CSF restores oligodendrogenesis and memory in aged
mice via Fgf17. Nature https://doi.org/10.1038/s41586-022-04722-0

Nenhum comentário:
Postar um comentário