Toda
crítica ao meu candidato é “fascista”, escreve um ativista bacana nas
redes sociais. Como se trata de intolerância consentida, “lado certo” da
história, tudo bem. Fosse uma banalidade isolada, não haveria problema.
Mas não é o caso, infelizmente. O radicalismo estéril voltou com força,
e é provável que dê o tom ao debate eleitoral. Sua versão mais
comezinha é a retórica do “golpe”. Não importa muito se há ou não
conexão com a realidade. Importa deixar claro quem é a democracia, quem é
a escuridão. A democracia deixa de ser um sistema, por definição
aberto, comum a todos, e passa a ser um tipo de propriedade. No fim do
dia é a lógica do medo, velha conhecida do marketing político. Filme
visto em 2018, reprisado mês a mês, nos últimos três anos, e agora
novamente. Sinal de que de algum jeito funciona. Serve de salvo-conduto
para toda sorte de palavrões e gesto intolerante, além de, claro, render
alguns votinhos.
Outro
sinal de que passamos do ponto na histeria política é a destruição
serial das amizades no altar da política. As histórias me chegam a toda
hora. Dos velhos amigos que deixam de se falar; da madrinha
“desconvidada” pelos noivos por um post no Facebook. Da música que o
sujeito se nega a gravar porque o compositor votou no outro candidato
anos atrás. Para quem é militante e faz da política sua vida, isso pode
fazer lá algum sentido. Para a maioria das pessoas, é apenas um sinal de
perda de autonomia pessoal, além de coisas muito básicas sobre a
civilidade. Da política, enfim, que vai invadindo esferas da vida que
deveríamos proteger.
Os
remédios para essas coisas são difíceis. O primeiro deles é cultivar
alguma dose de dúvida sobre si mesmo. Considerar, por exemplo, que você
pode estar redondamente enganado em suas escolhas políticas. O militante
típico costuma rir disso, do alto de sua pilha de certezas. De minha
parte, sempre achei a hipótese fascinante. E um certo alívio. Se por
acaso eu tivesse a “certeza de Deus” de que domino a verdade, meu único
dever seria largar tudo e me tornar profeta Zaratustra de minhas
próprias opiniões. Conheço muita gente assim.
No
limite extremo, essas coisas terminam em tragédia. Foi o que aconteceu
com Wynn Bruce, ativista ambiental que se imolou em frente à Suprema
Corte americana dias atrás. Era budista, tinha 50 anos, sujeito
inteligente, mas estava convencido de que era preciso fazer alguma coisa
com o aquecimento global. Em um fim de tarde de abril, sentou-se em
frente da Corte, colocou fogo em si mesmo e ardeu durante um minuto, sem
um pio. Rendeu algumas matérias tristes nos jornais e uma pequena
homenagem, que juntou cinquenta pessoas. Um dia, quem sabe, seu gesto
inútil será uma nota de pé sobre o perigo de levar certas ideias longe
demais.
Outra
razão para jamais cair no buraco sem fundo do radicalismo político diz
simplesmente que, em que pese a política e as eleições sejam
importantes, tendemos a exagerar. Os políticos, por óbvio, dirão o
contrário. Eles e todo o ecossistema que vive da política, incluindo
ativistas e marqueteiros, tentarão nos convencer de que o que está em
jogo é incrivelmente importante. Dirão que esta eleição “definirá quem
somos”, será a “mais decisiva da história republicana”, como já comecei a
ler por aí. Conversa fiada. Acompanhei todas as nossas oito eleições
presidenciais, desde 1989, e em todas se escutou coisas do tipo.
Eleições fazem parte do feijão com arroz da democracia, e — com mais ou
menos barulho — não será diferente desta vez.
Os
marqueteiros das campanhas também vão tentar nos convencer de que os
candidatos expressam a mais perfeita dicotomia entre o bem e o mal. Que
um é a civilização, outro a barbárie; que um quer a paz, outro a guerra;
que “um quer o ódio, outro o amor”, como vi em um filminho meloso dias
atrás. Bobagem. Nossa história recente é mostra disso. Não faltou gente,
nos últimos anos, dizendo que Lula
e o PT nos empurrariam o “modelo venezuelano” goela abaixo. Que nosso
caminho seria o “socialismo” e coisas do tipo. Não foi. Também não
faltou gente dizendo que Bolsonaro
era o “Chávez brasileiro”, que nosso destino era o “fascismo” ou, numa
curiosa versão do túnel do tempo, a “Alemanha dos anos 30”. Também não
foi. Em ambos os lados, é previsível, os delirantes continuarão
delirando. É da sua natureza, não há muito que fazer.
Uma
boa hipótese para entender o radicalismo reinante em nosso mundo
político vem do que o jurista e filósofo americano Cass Sunstein chamou
de “lei da polarização grupal”. A tese sugere que grupos nos quais a
opinião é homogênea tendem a apresentar uma espiral de radicalização.
Caminham implacavelmente em direção ao ponto extremo já indicado pela
sua posição de partida. Vamos imaginar: se o grupo é bolsonarista, a
turma logo estará vendo uma conspiração diabólica do STF e do “sistema”
para derrubar o capitão; se é antibolsonarista, todos logo estarão
“estarrecidos” (como, alias, li por esta semana) que ninguém perceba o
golpe (sempre ele) que está sendo preparado “à luz do dia”. O.k., pode
haver algum exagero na descrição, mas temo que não. A espiral de
radicalização acontece basicamente pela ausência de ideias
“inconvenientes”, na direção oposta, capazes de funcionar como mecanismo
de freio, obrigando as pessoas (no mínimo) a justificar ou moderar suas
visões, e um efeito identitário, que dá prestígio não a quem produzir
desconforto, mas a quem se mostrar ainda mais leal às ideias da tribo.
Em síntese, geramos homogeneidade em uma sociedade plural, por paradoxal
que isso possa parecer. O fim lógico são as patologias do ódio. A
solução do problema envolve, segundo Sunstein, “apostar em ambientes nos
quais as pessoas se exponham aos pontos vulneráveis de suas próprias
ideias, e não simplesmente a ecos, suaves ou não, de suas próprias
vozes”.
Não
acho isso nada muito simples. Romper com a polarização tribal supõe
alguma disposição na direção dos outros. No fundo, supõe baixar a bola.
Deixar de se imaginar em um episódio qualquer de Star Wars, brigando com
Darth Vader e o império do mal, e imaginar, por um momento que seja,
que o lado escuro da força casualmente possa ser o seu. Como costumava
me dizer um bem-humorado professor, ainda não inventaram o help desk da
verdade. Ainda bem.
O
que no fundo deveríamos fazer é trocar a paixão por um político pela
defesa calma de ideias. De todas, não vejo opção melhor do que a da
liberdade. Além de expressar algo por si só valioso, sem o que somos
apenas um pedaço de nós mesmos, a liberdade é, de longe, a paixão mais
prudente. Se você estiver inteiramente errado na sua defesa, não terá
enfiado goela abaixo de ninguém uma maneira de viver. Não apenas terá
deixado que cada um faça suas escolhas, como jamais defenderá alguém ser
posto no xilindró em razão de suas opiniões. Aprenderá mesmo a
celebrar, com o tempo, que as pessoas pensem de um jeito completamente
diferente do seu, e mesmo que possa haver algo a aprender escutando o
que elas dizem. O que, aqui entre nós, nos dias complicados em que
vivemos, já não é pouca coisa.
Fernando Schüler é cientista político e professor do Insper
Publicado em VEJA de 18 de maio de 2022, edição nº 2789

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