A cidade que já era politicamente correta antes do politicamente correto
coloca a vanguarda do progressismo na retaguarda do dinheiro. Vilma
Gryzinski, via Mundialista:
Nova York
adora ser Gotham City, adora um vilão se ele for cool como as várias
encarnações do Coringa e adora acreditar que o resto do mundo olha para
lá não como um lugar com museus sensacionais, ótimas oportunidades de
trabalho no mercado financeiro e compras baratas, mas sim o centro de
irradiação de tudo o que é bom e certo.
O interior dos Estados Unidos olha para Nova York como numa anomalia,
um enclave em que alguns dos maiores bilionários do mundo brincam que
são de esquerda, como todo o resto da população. Os mais religiosos a
chamam de Prostituta da Babilônia e enxergam sinais do fim dos tempos em
todas as esquinas de Manhattan.
Os cineastas de filmes-catástrofe, ao contrário, destroem a cidade
de todas as maneiras possíveis como forma de pagar os pecados do
capitalismo e outros.
O prefeito atual, Bill de Blasio (nome verdadeiro: Warren Wilhem Jr.;
assumiu o sobrenome da mãe para parecer mais ”étnico”) fez campanha
enfatizando que sua mulher é negra e foi lésbica. Deve ser reeleito: de
cada oito eleitores nova-iorquinos, sete são democratas.
Foi De Blasio quem definiu o presidente Jair Bolsonaro como “um ser humano muito perigoso”, incentivando o Museu de História Natural a boicotar o aluguel
de um salão para o jantar onde ele receberia o prêmio de Pessoa do Ano
da Câmara de Comércio Brasil-EUA, uma entidade não-governamental.
O boicote pegou fogo, incentivado por brasileiros de esquerda e
pesquisadores americanos relacionados ao museu. A cerimônia normalmente
só tem a turma nacional com dinheiro suficiente para fazer de Nova York
sua segunda casa (geralmente apartamentos enormes), empresários do eixo
Brasil-Estados Unidos e modelos contratadas para deixar as categorias
anteriores babando.
Como de hábito, os vasos conectantes com a realidade são tênues, mas
revelam o conceito espetacular que os nova-iorquinos, nativos ou não,
fazem de si mesmo – uma das chaves para a narrativa vencedora da cidade.
Desde muito antes que o ambientalismo entrasse na moda, os poderosos
da cidade já achavam que sua missão era “salvar a Amazônia”. Quem já
presenciou a certeza com que se acham imbuídos dessa causa – e como
perguntam a qualquer brasileiro, na lata, “Por que vocês estão queimando
a Amazônia?” -, sabe como funciona a coisa.
A simploriedade só aumentou com o enraizamento das causas
politicamente corretas. Cientistas e alunos do Richard Gilder Graduate
Center, por exemplo, mandaram uma carta ao museu dizendo que o aluguel
do salão seria “uma mancha na reputação do museu”.
E mais: “Uma das maneiras que podemos proteger o futuro para
populações indígenas brasileiras, cientistas, cidadãos e movimentos pela
bioconservação é recusar o acesso à nossa casa coletiva ao presidente
fascista que gostaria de efetivamente fazer mal e destruir esses
movimentos e essas pessoas.”
Viram como é fácil salvar a Amazônia?
Um representante do movimento Descolonize Este Lugar ameaçou: “Ou cancelam ou vamos fechar a coisa.”
Protestos no museu, conhecido pelas iniciais em inglês, ANHM, por
mais ardorosamente progressista que seja a direção, fazem parte da
paisagem nova-iorquina. Em 2018, surgiu um movimento para expulsar do
conselho do museu a bilionária Rebekah Mercer porque ela e o pai são
conhecidos pelas grandes doações a causas de direita.
Inclusive, numa exceção relativamente rara à época, para a campanha
de Donald Trump, o nova-iorquino mais odiado pelos nova-iorquinos (10%
dos votos da presidencial de 2016 em Manhattan e no Bronx e 18% no
Brooklyn, mas 57% em Staten Island, definitivamente fora do “planeta
Nova York”).
Rebekah foi acusada de ser anticiência por contribuir para
pesquisadores contrários a premissas do aquecimento global – um deles,
físico de Princenton. Mas os dois milhões de dólares que deu ao ANHM
garantiram que continue no conselho.
O próprio homem que se tornou sinônimo do ANHM, num passado já bem
distante, pode não durar muito em sua versão de bronze na entrada do
museu. Antes, durante e depois de ser presidente, Ted Roosevelt foi um
naturalista e explorador conhecido.
No auge do movimento que derrubou estátuas pelos Estados Unidos,
principalmente de líderes do Sul confederado, o monumento a Roosevelt
levou um banho de “sangue” – tinta vermelha para condenar a expressão de
“patriarcado e supremacia branca” representada pelo presidente a
cavalo, com um indígena e um negro de cada lado.
Se a militância soubesse que Roosevelt, na sua quase trágica
expedição pelo Brasil, conheceu e acompanhou um dos maiores responsáveis
pela proteção a povos indígenas de todos os tempos possivelmente não
ligariam a mínima.
Até mais, acusariam o marechal Candido Mariano da Silva Rondon de ser
da turma do patriarcado branco. Descrito por Ted Roosevelt como “tudo, e
mais ainda, do que se poderia desejar” em matéria de companhia.
“Ele é de sangue indígena quase puro e positivista – os positivistas
são realmente fortes no Brasil”, escreveu Ted Roosevelt em seu libro
sobre a expedição durante a qual perdeu “dez anos da minha vida” e
voltou com malária.
“O Brasil tem a mesma liberdade total em questões religiosas,
espirituais e intelectuais que nós, para nossa sorte, temos nos Estados
Unidos”, comentou sobre a mistura de positivistas, católicos e libres
penseurs entre os companheiros de aventura.
Sobre Rondon, acrescentou que “tem um conhecimento excepcional das
tribos índias e sempre se dedicou arduamente a servir a elas e, na
verdade, servir a causa da humanidade sempre e quando pudesse”.
Quantos nova-iorquinos da turma “radical chique” – a genial expressão
inventada por Tom Wolfe no ensaio de 1970 sobre a festa do maestro
Leonard Bernstein para os Panteras Negras -, poderiam imaginar que
existiu um brasileiro assim?
Certamente não Bill de Blasio, que até hoje não denunciou as atrocidades praticadas por Daniel Ortega na Nicarágua.
Sandinista fervoroso, como tantas pessoas na época em que o país
sofria com a dinastia Somoza, o prefeito é incapaz de fazer autocrítica,
muito menos de criticar Daniel Ortega, o líder da guerrilha sandinista,
hoje é uma espécie de chefe de um culto bolivariano-xamanista.
A melhor coisa que Ortega fez nos últimos tempos foi fracassar no
projeto de abrir um canal para competir com o do Panamá e dar à China
uma via marítima estratégica em continente americano.
É claro que o projeto, atualmente parado, afetaria áreas de natureza
intocada e tiraria de seu território o povo indígena Rama. Segundo
instituições ligadas a essas causas, o regime de Ortega, que virou um
pesadelo repressivo, já matou mais de 10.000 indígenas nicaraguenses.
Existe confirmação? É um exagero? Possivelmente. Mas para Bill de
Blasio, o “ser humano perigoso” é um presidente em cuja conta não pode
ser colocada, por enquanto, uma única vida.
O problema clássico dos radicais chiques é que sempre aparece alguém
mais radical e chique. O prefeito atualmente anda totalmente obscurecido
por Alexandria Ocasio-Cortez, a economista e garçonete que se
transformou em fenômeno político ao desbancar um democrata tradicional
do Bronx e ser eleita deputada.
Alexandria cantou vitória quando Jeff Bezos simplesmente desistiu de
instalar em território nova-iorquino a segunda sede da Amazon, um
projeto que De Blasio aprovava. Foram, assim, pelos ares, 25 mil
empregos e todo o círculo de progresso que um gigante da alta tecnologia
gera.
E é claro que a deputada defendeu inabalavelmente a colega Ilhan Omar
quando apareceu um discurso em que ela proclama que os muçulmanos
americanos passaram a perder liberdades civis – mentira – depois que “um
dia umas pessoas fizeram uma coisa”.
Para a turma radical chique, nem o Onze de Setembro merece respeito.
Imaginem um presidente que está queimando a Amazônia inteirinha…
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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