Jornal Nacional teve acesso a depoimentos de sócios da boate Kiss.
Incêndio em Santa Maria deixou ao menos 230 mortos no domingo.
O sócio da Boate Kiss, o vocalista e o produtor da banda Gurizada
Fandangueira deram versões contraditórias nos depoimentos à polícia
sobre o incêndio que destruiu a casa noturna em Santa Maria (RS). O
Jornal Nacional teve acesso ao depoimento das testemunhas.
(veja ao lado)
Já prestaram depoimento à polícia jovens que estavam no local no
momento do incêndio, músicos e sócios da boate, entre eles Elissandro
Spohr, conhecido como Kiko, que foi ouvido no domingo (27). Ele afirmou
que a banda tocava na boate uma vez por mês, mas nunca tinha feito esse
show pirotécnico e nunca havia pedido consentimento para que se fizesse
esse tipo de apresentação.
Ainda de acordo com o depoimento de Spohr, o teto da boate seria de
gesso, com uma camada de lã de vidro acima. No palco, havia uma primeira
camada de esponja para isolamento acústico.
O advogado Jader Marques, que defende Spohr, afirmou que não tinha
certeza sobre o uso de espuma. "Pode sim ter acontecido que o Kiko, com
orientação desse engenheiro, ter adicionado elementos como espuma,
parede, madeira, gesso em outros locais fora do projeto do Ministério
Público e sem o conhecimento do Ministério Público. Pode isso ter
acontecido? Sim, pode, pode ter acontecido."
Spohr também afirma que a lotação da boate era de 1.000 pessoas e que
acredita que no momento do incêndio havia entre 600 e 700 pessoas.
Segundo os bombeiros, a capacidade da danceteria era de 691 pessoas.
Sobre as saídas de emergência, o depoimento é confuso. Segundo Spohr,
havia saídas de emergências que desembocavam na porta principal.
O produtor da banda, Luciano Augusto Bonilha Leão, confirmou à polícia
que era o responsável pela aquisição dos fogos de artifício e contradiz a
informação de que a banda nunca tinha usado fogos. No depoimento consta
que ele havia deixado preparado nas laterais do palco dois fogos
gelados, que é uma espécie de fogo de artifício sem queima. O espetáculo
teria começado por volta de 2h, com o acionamento desses materiais. Por
volta de 2h45, por sensor, o produtor teria acionado outro tipo de
fogo, também gelado, na mão de Marcelo.
De acordo com o depoimento, o produtor conta que percebeu fogo no teto
três minutos depois. Ele declara ainda que não tinham autorização para o
uso dos fogos e não sabiam que isso era necessário.
O vocalista da banda, Marcelo de Jesus dos Santos, foi preso junto com
outras três pessoas na segunda-feira (28). No depoimento, ele afirma que
não sabe qual foi a origem do incêndio, mas reforçou a versão de que os
donos da boate sabiam do uso de fogos lá dentro.
De acordo com Marcelo, o percussionista da banda foi quem avisou que
havia uma pequena bola de fogo no teto. O músico afirma ainda que
recebeu um extintor de um segurança e que tirou o lacre do aparelho e,
sem seguida, percebeu que a válvula indicava que o extintor estava
vazio. Ele teria tentado apertar o gatilho várias vezes, mas nada saía
do extintor.
Ainda de acordo com o Marcelo, em um determinado momento do show, o
produtor lhe colocou uma luva na mão esquerda, com uma vela de
aniversário, de onde sai faísca. Segundo o vocalista, entre seu braço
levantado com a vela e o teto há um distância de no mínimo dois metros,
sendo que a chama da vela não chega a cinquenta centímetros. O vocalista
marcelo afirmou que a banda faz esse procedimento em quase todos os
shows e que já havia feito esse tipo de apresentação na própria
Boate Kiss com autorização dos proprietários.
Investigação
O delegado Marcos Vianna, responsável pelo inquérito do incêndio na boate Kiss, disse ao
G1 na
terça-feira (29) que uma soma de quatro fatores contribuiu para a
tragédia ter acabado com tantos mortos: 1) o fato de a boate ter só uma
saída e a porta ser de tamanho reduzido; 2) o uso de um artefato
sinalizador em um local fechado; 3) o excesso de pessoas no local; e 4) a
espuma usada no revestimento, que pode não ter sido a mais indicada e
ter influenciado na formação de gás tóxico.
O delegado regional de Santa Maria, Marcelo Arigony, afirmou também na
terça que a Polícia Civil tem "diversos indicativos" de que a
boate estava irregular
e não podia estar funcionando. "Se a boate estivesse regular, não teria
havido quase 240 mortes", disse em entrevista. "Mas isso ainda é
preliminar e precisa ser corroborado pelos depoimentos das testemunhas e
os laudos periciais", completou.
Arigony disse ainda que a banda Gurizada Fandangueira utilizou um
sinalizador mais barato, próprio para ambientes abertos e que não
deveria ser usado durante show em local fechado. "O
sinalizador para ambiente aberto
custava R$ 2,50 a unidade e, para ambiente fechado, R$ 70. Eles sabiam
disso, usaram este modelo para economizar. Usaram o equipamento para
ambiente aberto porque era mais barato”, disse o delegado.
O vocalista da banda Gurizada Fandangueira, Marcelo Santos, admitiu em seu depoimento à Polícia Civil que
segurou um sinalizador
aceso durante o show, de acordo com o promotor criminal Joel Oliveira
Dutra. O músico disse, no entanto, que não acredita que as faíscas do
artefato tenham provocado o incêndio. Ele afirmou que já havia
manipulado esse tipo de artefato por diversas vezes em outras
apresentações.
Responsabilidades
A boate Kiss
desrespeitou pelo menos dois artigos de leis estadual e municipal
no que diz respeito ao plano de prevenção contra incêndio. Tanto a
legislação do Rio Grande do Sul quanto a de Santa Maria listam
exigências não cumpridas pela casa noturna, como a instalação de uma
segunda porta, de emergência. A boate situada na Rua dos Andradas tinha
apenas uma, por onde o público entrava e saía. Outra medida que não foi
cumprida na estrutura da boate diz respeito ao tipo de revestimento
utilizado como isolamento acústico.
A Brigada Militar informou nesta quarta que a
boate não estava em desacordo com normas de prevenção
contra incêndios em relação ao número de saídas. Segundo interpretação
da lei, o local atendia as normas ao possuir duas saídas no salão
principal. Mas as portas, no entanto, não davam para a rua, e sim para
um hall. Este sim dava para a rua através de uma só porta. "Foi um ato
possível que o engenheiro conseguiu colocar", disse o tenente coronel
Adriano Krukoski, comandante do Corpo de Bombeiros de Porto Alegre.
Jader Marques, advogado de Elissandro Spohr, um dos sócios da boate, disse que a casa noturna estava em "
plenas condições"
de receber a festa. Ele falou sobre documentação da casa, segurança,
lotação, e disse que a banda Gurizada Fandangueira não avisou que usaria
sinalizadores naquela noite. O advogado ainda afirmou que o Ministério
Público vistoriou o local "diversas vezes".
A Prefeitura de Santa Maria se
eximiu de responsabilidade
pelo incêndio e entregou alvará para a polícia que mostra data de
validade de inspeção para prevenção de incêndio, feita pelo Corpo de
Bombeiros. A prefeitura afirma que a sua responsabilidade era apenas
sobre o alvará de localização, que é válido com a vistoria do ano
corrente. O documento informa que a vistoria foi feita em 19 de abril de
2012.
O chefe do Estado Maior do 4º Comando Regional do Corpo de Bombeiros, major Gerson Pereira, disse na quarta que a casa noturna
tinha todas as exigências
estabelecidas pela lei vigente no Brasil. "Quem falhou, que assuma a
sua responsabilidade. Nós fizemos tudo o que estava ao nosso alcance e
não vou entrar em jogo de empurra-empurra", afirmou.
O Ministério Público do Rio Grande do Sul abriu um inquérito civil na terça para
investigar a possibilidade de improbidade administrativa
por parte de integrantes da Prefeitura de Santa Maria, do Corpo de
Bombeiros e de outros órgãos públicos por terem permitido que a boate
Kiss continuasse funcionando mesmo com as licenças de operação e
sanitária vencidas.
Entenda
O incêndio na boate Kiss, em
Santa Maria, região central do
Rio Grande do Sul,
deixou 235 mortos na madrugada do último domingo (27). O fogo teve
início durante a apresentação da banda Gurizada Fandangueira, que fez
uso de artefatos pirotécnicos no palco. De acordo com relatos de
sobreviventes e testemunhas, e das informações divulgadas até o momento
por investigadores, é possível afirmar que:
- O vocalista
segurou um artefato pirotécnico aceso.
- Era
comum a utilização de fogos pelo grupo.
- A banda comprou um
sinalizador proibido.
- O extintor de incêndio
não funcionou.
- Havia
mais público do que a capacidade.
- A boate tinha apenas
um acesso para a rua.
- O alvará fornecido pelos Bombeiros
estava vencido.
- Mais de
180 corpos foram retirados dos banheiros.
- 90% das vítimas fatais tiveram
asfixia mecânica.
-
Equipamentos de gravação estavam no conserto.
(
Veja o que já se sabe e as perguntas a responder)