BLOG ORLANDO TAMBOSI
Há razões para celebrar a efeméride. Mas só uma corajosa reflexão sobre as deficiências da Carta fará com que o texto siga como o farol mais brilhante das liberdades democráticas. Editorial do Estadão:
Completam-se
hoje 35 anos de promulgação da Constituição de 1988. Há razões de sobra
para que esse marco histórico da democracia brasileira seja celebrado,
mas, especialmente, por ser esta a Constituição, entre as sete que já
vigoraram desde a Independência, a que melhor reflete o justo anseio de
uma sociedade livre e plural por participar das escolhas políticas que,
dia após dia ao longo de todo esse tempo, têm feito do Brasil um país
menos desigual e mais próspero.
Malgrado
as suas muitas deficiências, já tantas vezes apontadas por este jornal,
inclusive durante a Assembleia Nacional Constituinte, e as atribulações
políticas e institucionais ao longo de sua vigência, incluindo nada
menos que a cassação de dois presidentes da República por crimes de
responsabilidade, o fato é que a Constituição de 1988 triunfou sobre os
seus inimigos – sejam os que tentaram sabotá-la no nascedouro, sejam os
que a ameaçaram como nunca nos últimos quatro anos –, ganhou os corações
e mentes dos brasileiros e permitiu ao País experimentar o mais longevo
período de normalidade democrática da história republicana.
Em
respeito aos fatos, porém, é forçoso dizer que, em meio ao
restabelecimento de direitos e garantias fundamentais que foram
eliminados durante a ditadura militar (1964-1985), além da concepção de
todo um arranjo institucional para sustentar o Estado Democrático de
Direito, a Constituição é prolixa, disfuncional e por vezes incongruente
ao longo de seus 250 artigos.
Compreende-se
a sofreguidão com que os constituintes originários decidiram alçar à
Lei Maior uma série de temas que, quando muito, deveriam se
circunscrever à legislação ordinária. Mas essa decisão custou caro ao
País. Não são poucos os direitos que só existem no papel; e não são
poucos os deveres virtualmente impossíveis de serem cumpridos – que o
digam milhares de prefeitos Brasil afora.
Esses
defeitos, omissões e excessos da Constituição não raro têm dado azo a
interpretações equivocadas, no melhor cenário, e manipulações, no pior,
que perpetuam privilégios incompatíveis não só com os princípios que
iluminaram a sua redação, mas com a própria ideia de República. É
espantoso o grau de desassombro com que a Constituição foi violada ao
longo desses 35 anos, ora de forma acintosa, ora por meios
sub-reptícios, independentemente do viés político-ideológico dos
governos e legislaturas de turno.
Entretanto,
boa ou ruim, a Constituição é o que é, e como tal deve ser respeitada
por todos e protegida por aqueles a quem a própria Lei Maior incumbe
dessa nobilíssima missão: os onze ministros do Supremo Tribunal Federal
(STF).
Há
poucos dias, o presidente do STF, ministro Luís Roberto Barroso,
ilustrou bem como o desrespeito contumaz à letra da Constituição, como
se sua validade fosse seletiva ou balizada por interesses
inconfessáveis, pode se enraizar no Estado e na sociedade a ponto de
anestesiar os cidadãos. Para inaugurar sua gestão à frente do Supremo, o
ministro pautou o julgamento da Arguição de Descumprimento de Preceito
Fundamental (ADPF) 347, que trata do “estado de coisas inconstitucional”
instalado nos presídios Brasil afora. Pode-se (e deve-se) questionar a
excentricidade da tese, mas não há como negar que nada avilta tanto os
direitos e garantias fundamentais de uma Constituição dita “cidadã” do
que as condições subumanas do sistema prisional brasileiro. É uma
questão fundamental a ser debatida com coragem e honestidade intelectual
por toda a sociedade.
Neste
35.º aniversário da carinhosamente chamada “Constituição Cidadã”, é
tempo para o País celebrar seus avanços civilizatórios e, ao mesmo
tempo, refletir sobre os não poucos desafios que ainda persistem. É hora
de a sociedade unir esforços para fortalecer as instituições
democráticas consagradas pela Carta Política da redemocratização e
promover as reformas necessárias para que a Constituição seja menos
disfuncional e cada vez mais forte. Só assim ela haverá de seguir como o
farol mais brilhante dos direitos e do sentido de justiça para todos os
brasileiros por muitos anos à frente.
Postado há 5th October por Orlando Tambosi

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