Sêneca já dizia que, se soubéssemos o tempo que nos resta, seríamos mais criteriosos com a forma com a qual o gastamos. João Pereira Coutinho para a FSP:
Viver
até os 120, eis o sonho do pessoal. A revista The Economist dedica
várias reportagens ao assunto e declara, de maneira ufanista, que a
quimera está mais perto do que nunca. Cientistas e bilionários, em alegre concubinato, querem fazer dos 120 os novos 60. Como?
Não
vou entrar em detalhes técnicos, até porque eles me escapam. Digamos
apenas assim: restringindo de forma severa o número de calorias que
ingerimos ou usando medicamentos que neutralizam as células
"senescentes", há ratinhos de laboratório que têm vivido mais do que a
conta normal. Seremos nós os próximos?
Não tenho opinião fechada sobre este assunto em particular. Com saúde,
boas companhias e dinheiro para o uísque das crianças, aceito os 120
com um sorriso adolescente, até porque sinto, do alto de meus 47 anos,
que só agora estou no fim da adolescência.
Mas
também pergunto, como um Velho do Restelo fulminando o progresso e a
esperança, se queremos esses 120 pelas razões erradas, ou seja, porque
pensamos que a vida é demasiada breve e que a velhice, como dizia o
general De Gaulle, é simplesmente um naufrágio.
As
duas ideias são comuns no linguajar alucinado dos contemporâneos, razão
pela qual é importante revisitar os antigos, que têm mais a ensinar do
que a histeria hipocondríaca dos bilionários.
Para começar, a vida é breve?
Não é, explicava Sêneca,
em ensaio luminoso sobre o tema, batizado de "Sobre a Brevidade da
Vida". Somos nós que a tornamos breve ao esbanjar todo o tempo que
temos.
Eis o grande paradoxo: qualquer um é zeloso com o seu patrimônio, vigiando os intrusos que se podem apropriar dele.
Mas
o tempo, o maior tesouro que temos, é dissipado com companhias que não o
merecem, em ambições que apenas embrutecem e em ocupações que não nos
enobrecem de qualquer forma. E para quê?
Para
descobrirmos, antes de um belíssimo epitáfio, que o tempo que realmente
vivemos foi só uma pequena parte do tempo que se passou?
É por isso, acrescenta Sêneca, que não há nada mais penoso do que ver alguém, que dilapidou todo esse patrimônio, implorando ao médico que lhe conceda mais tempo para que possa "viver", finalmente!
Eis o segundo paradoxo: é possível ser velho e não ter vivido, e é possível ser jovem e ter vivido mais que um velho.
O
conselho de Sêneca, que me persegue desde os verdes anos, é fulminante:
se soubéssemos o tempo que nos resta, da mesma forma que sabemos o
tempo que já tivemos, seríamos mais criteriosos com a forma com a qual o
gastamos.
E
quem sabe talvez descobríssemos, para nossa imensa surpresa, que o
tempo que temos não é longo nem breve. É apropriado para uma vida humana
apropriada.
E a velhice? Que naufrágio é esse que tanto aterroriza as almas carentes de eternidade?
Catão, o Velho, pela pena de Cícero, tem um diálogo sobre a velhice,
agora editado em português pela Edições 70 e com tradução —antiga, vale
acrescentar— de D. Francisco Alexandre Lobo, que revela o quão
ridículos são todos esses terrores que passamos.
Quatro
terrores, para sermos mais precisos: a velhice significa o fim da vida
ativa, a fraqueza do corpo, a despedida dos prazeres e, claro, a
proximidade com a morte.
A
título benevolente, Catão esclarece tudo: "O homem moderado, o de fácil
contentar, o de macia índole, passa toleravelmente a velhice. Ao
descontentadiço, ao insípido, todas as idades são molestas".
Que
beleza esse português! "Todas as idades são molestas!" Um velho que não
sabe viver a velhice provavelmente foi um adulto que não soube viver a
vida adulta —e um adolescente que teve na adolescência todo o seu
calvário.
Os
terrores da velhice, todos eles, procedem daqui. E é por aqui que eles
devem ser anulados: há várias formas de vida ativa que não se esgotam
durante as canseiras da profissão. A força que temos na velhice é
suficiente para o que a velhice pede de nós. Há vários tipos de prazeres
à disposição de uma mente mais curiosa.
E,
sobre a morte, são os jovens que devem temê-la. Os velhos, ao contrário
dos jovens, têm a suprema consolação de saber que chegaram a velhos.
"Por
que ler os clássicos?", já perguntava Italo Calvino. A resposta é
conhecida: porque eles são nossos contemporâneos, embora sem os defeitos
dos verdadeiros contemporâneos. A passagem do tempo serviu de teste e
peneira para que eles surjam inteiramente novos e originais.
Viver até os 120? Tudo bem. Mas para quem deseja esses 120 pelas razões erradas, nem 1.200 anos seriam suficientes.

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