BLOG ORLANDO TAMBOSI
Ao faltar a encontro com Lula no G7, Zelenski sugere que, por ora, não considera o Brasil confiável para mediar conflito com a Rússia; para os EUA e a Europa, este não é o momento para a paz. Editorial do Estadão:
Se
algo sobressaiu da participação do presidente Lula da Silva na reunião
de cúpula do G7, em Hiroshima, foi o fato de não ter se encontrado com o
ucraniano Volodmir Zelenski. Esse episódio reforçou a opção do Brasil
pela neutralidade diante do conflito entre Rússia e Ucrânia e pela
criação de um grupo para iniciar a mediação de um acordo de paz. A
questão de fundo exposta em Hiroshima é se vale a pena o País prosseguir
nesse caminho, que inevitavelmente o aproxima de Moscou, por mais que
Lula mencione o sofrimento dos civis ucranianos castigados pela guerra.
Para
os Estados Unidos e a Europa Ocidental, este não é o momento para
conversas sobre paz. A janela se abrirá somente quando os soldados
russos forem empurrados fora do território ucraniano, graças, sobretudo,
ao armamento fornecido pelos integrantes da Organização do Tratado do
Atlântico Norte (Otan). Os riscos dessa estratégia estão calculados – no
limite, o risco de Vladimir Putin responder à derrota nos campos de
batalha acionando o arsenal nuclear.
Lula
discorda dessa estratégia. Em sua vez de falar no G7, criticou a
Rússia, mas insistiu na articulação de um processo de paz. Fora do
púlpito, depois de dizer-se chateado com a ausência de Zelenski no
encontro supostamente marcado para as 15h15 do último domingo no hotel
em que se hospedara, o brasileiro criticou a intenção do Ocidente de
forçar a rendição da Rússia. Vaticinou que levará a uma nova guerra fria
e cravou que a Ucrânia e seus aliados “não querem a paz” neste momento.
O
Brasil não está sozinho ao pregar a neutralidade e o início de um
processo de paz. Índia e Indonésia mantêm-se na mesma linha e igualmente
foram expostas ao constrangimento diplomático armado no G7 de
Hiroshima. A presença de Zelenski não fora antecipada aos países
convidados e elevou o grau de pressão das potências ocidentais para as
nações neutras tomarem partido contra a Rússia.
O
indiano Narendra Modi recebeu Zelenski reservadamente, mas não se
dobrou aos seus apelos. O sul-coreano Yoon Suk Yeol manteve sua oposição
ao envio de armas à Ucrânia depois de encontro bilateral. A colheita do
ucraniano foi farta entre os que já apoiam sua causa. Joe Biden, dos
Estados Unidos, prometeu o aporte de mais US$ 375 milhões para a
ofensiva militar ucraniana e o treinamento de pilotos para o uso de
caças norte-americanos F-16 – o que indica o envio também dos aparelhos.
Índia
e Indonésia têm razões próprias para levar a ferro e fogo sua
neutralidade e insistir no processo de paz. Em condições distintas da do
Brasil, esses países estão no mesmo entorno geopolítico da Rússia na
Ásia e mantêm com Moscou interação econômica e comercial em escala bem
mais robusta que a brasileira. A neutralidade, para o Brasil, está
calcada em princípios – paz a qualquer custo – e em uma indisfarçável
resistência em se opor diretamente à Rússia, de quem é sócia no fórum
Brics junto com China, Índia e África do Sul.
A
ambição do presidente Lula da Silva de se alçar como protagonista de
negociações de temas de interesse global não deixa de ter sua cota de
relevância. Há de se levar em conta ainda o atual contexto político
doméstico. Em certas áreas relevantes, como a econômica, o PT é o
principal foco de oposição. É possível imaginar a insatisfação do
partido de Lula se o presidente aceitasse se aliar ao esforço de guerra
liderado pelos Estados Unidos, o vilão que o lulopetismo ama odiar.
O
fato é que a diplomacia presidencial de Lula por ora obteve alcance
raso e respostas vagas. No G7, tornou-se claro que sua insistência na
neutralidade e na criação de um grupo de paz tem escassa chance de
sucesso. O presidente, porém, diz que irá “até ao fim do mundo” pela paz
entre Ucrânia e Rússia. Noves fora a loquacidade voluntarista de Lula,
há de se pesar o gasto de energia e mobilização diplomática, o
isolamento do Brasil de parceiros relevantes e a perda de potenciais
benefícios. O deselegante chá de cadeira que Lula levou de Zelenski
mostra que o Brasil, por ora, não é visto pela Ucrânia – e, por
extensão, pelos aliados de Kiev – como um mediador confiável.
Postado há 1 week ago por Orlando Tambosi
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