BLOG ORLANDO TAMBOSI
No contexto atual, ao invés de esvaziar a instituição, os governos teriam de fortalecer a estrutura da chancelaria, com reforço humano e orçamentário. Artigo do diplomata Rubens Barbosa para o Estadão:
A
política externa nos últimos 200 anos do Brasil independente sempre
teve um papel muito relevante na defesa do desenvolvimento econômico,
dos interesses concretos do País, de sua projeção externa e mesmo de uma
atuação, muitas vezes, acima da capacidade de seu poder efetivo.
Nos
últimos 30 anos, o Itamaraty vem perdendo espaço no contexto dos
sucessivos governos por razões de política interna e mudanças externas.
Internamente, emergiu uma tecnocracia que passou a representar
interesses setoriais no exterior, como a área econômica, o setor
agrícola, o de defesa e o de polícia. Externamente, o mundo se
transformou pela rapidez da informação, a facilidade dos contatos entre
chefes de Estado com conversas e encontros frequentes.
Nos
últimos 15 anos, um novo elemento contribuiu para o esvaziamento do
Itamaraty: a politização e a partidarização da política externa e a
atração de lealdades ao presidente, ao ministro e às ideias por eles
defendidas. Essa tendência vem acompanhada pela redução de recursos
orçamentários e por crescentes dificuldades enfrentadas pelos diplomatas
em termos de fluxo de carreira que tornaram o seu trabalho mais difícil
e suas funções diplomáticas mais burocráticas e menos estimulantes para
o desempenho de suas missões.
Exemplos
recentes desse esvaziamento político são a retirada da Camex e da Apex,
a dualidade de funções entre a assessoria presidencial e o ministro do
exterior, a perda de espaço nas secretarias internacionais dos
ministérios, a ação subnacional, a marginalização dos embaixadores nas
reuniões em nível de chefe de Estado e a perda da coordenação das
negociações internas nas áreas de comércio exterior, inclusive no
tocante ao Mercosul, ao meio ambiente e às agendas multilaterais
(direitos humanos, energia, costumes, gênero e outras).
Isso
significa que estamos assistindo ao fim da presença do Itamaraty e à
perda de espaço das embaixadas no exterior? Fora dos quadros do
Itamaraty há quase 20 anos, tenho um distanciamento que me coloca em
posição de oferecer algumas considerações pessoais longe de interesses
corporativos ou posições defensivas, mas apenas voltadas para o que me
parece mais relevante para o País.
Nos
dias de hoje, vistos do ângulo dos interesses permanentes do Brasil, e
não do governo de turno, o Brasil e o mundo mudaram. Quatro milhões de
brasileiros em todos os continentes esperam assistência não só para
providências pessoais, mas sobretudo para apoio em momentos de crise nos
países onde vivem. O cenário global, para países do porte do Brasil,
apresenta novos e significativos desafios geopolíticos que, em muitos
casos, parecem ser ignorados internamente como se o País fosse imune ao
que acontece no exterior, seja na área econômica, na de defesa, na
saúde, na inovação e na tecnologia. A pandemia e a guerra na Ucrânia,
além da rápida mudança na ordem internacional, com o isolacionismo dos
EUA, a crescente tensão entre os EUA e a China e o reaparecimento da
Rússia, transformaram o cenário global, colocando os países – e o Brasil
não é exceção – cada vez mais dependentes do exterior em muitas áreas,
inclusive tecnológicas e industriais. O 5G e a inteligência artificial,
as restrições derivadas de preocupações protecionistas e de meio
ambiente e mudança de clima, sem falar nas questões de segurança e de
defesa, são novos desafios. Integração regional (que o Brasil deveria
liderar), abertura de novos mercados para produtos brasileiros, novos
acordos de livre-comércio e a formação de blocos políticos e
econômico-comerciais são algumas das realidades que qualquer governo
brasileiro terá de enfrentar nos dias de hoje e no futuro previsível.
O
Itamaraty, como sempre fez no passado, poderá, de maneira eficiente,
ajudar a interpretar o momento de transição para um mundo pós-ocidental,
como acentuado por Lula na reunião do G7. Nesse contexto, ao invés de
esvaziar a instituição, os governos teriam de fortalecer a estrutura da
chancelaria, com reforço orçamentário e humano, para que possa atuar
como uma antena de captação dessas mudanças e oportunidades, um
instrumento de negociação em novas áreas (tecnologia e inovação), um
braço (assistência técnica) para o exercício de soft power na América
Latina e na África, um fator de inteligência para a segurança nacional e
defesa, um suporte eficiente para a ação de outros órgãos federais,
estaduais e de apoio à comunidade brasileira no exterior e aos
empresários.
No
momento de polarização interna, deve ser lembrado, tanto aos
governantes quanto aos diplomatas do Itamaraty, que a diplomacia, como
carreira de Estado, tem um dever de lealdade ao governo legítimo do
momento ao implementar suas decisões, sem evidentemente ser partidária e
muito menos militante do partido e do governo no poder. O embaixador,
como representante do presidente da República, do governo e de seus
ministros, é o responsável pela autoridade do Estado no país em que está
acreditado e uma relação de confiança deve existir como pressuposto de
seu trabalho. O Itamaraty tem de ser revigorado e recuperar sua
capacidade de interpretação do sentido das mudanças globais e sua
competência para articulação e coordenação interna de todas as ações do
governo no exterior.
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