O perigo de as Forças Armadas darem um golpe é nulo. Seja com Bolsonaro ou com Lula, a caserna continuará a ter as suas demandas plenamente atendidas pelo governo. Os militares só ganham (mais) com a manutenção da democracia. Claudio Dantas para a revista Crusoé:
Em
4 de fevereiro de 2016, 17 generais 4 estrelas se reuniram no QG em
Brasília, para a 304ª reunião do Alto Comando do Exército. O encontro
era para tratar supostamente de questões recorrentes, como orçamento,
plano de carreira e remuneração, além da organização da Olimpíada do Rio
de Janeiro. “Estamos iniciando o ciclo de planejamento de quatro anos e
essa foi a primeira reunião desse ciclo. Foram encaminhados temas que
vão orientar os próximos anos de atividade”, disse o então comandante do
Exército, general Eduardo Villas Bôas, numa lacônica nota à imprensa. O
comunicado oficial não abordou, naturalmente, o principal tema
discutido naquele encontro: o impeachment de Dilma Rousseff, que seria
aberto dois meses depois. Com o cenário político superaquecido, a cúpula
do Exército avaliava as possíveis consequências do quadro que se
apresentava — e como transformar a crise numa oportunidade. Havia o
temor de que o afastamento da presidente pudesse gerar distúrbios
sociais, assim como o avanço da Lava Jato sobre Lula, que seria alvo de
uma operação da Polícia Federal no mês seguinte. A pressão era grande de
todos os lados e o PT já tinha sondado o Exército sobre a possibilidade
da decretação do estado de defesa, para conter as manifestações de rua
pelo impeachment de Dilma Rousseff. A resposta foi um sonoro não do
general Villas-Bôas.
A
nota oficial vinha acompanhada de uma imagem provocativa, com todos os
generais em torno de uma grande mesa e Villas Bôas na cabeceira. A
derrocada da gestão petista tinha sabor de vingança para os oficiais
reunidos ali, egressos de cinco turmas da Academia Militar das Agulhas
Negras (Aman) de um mesmo período, os anos 1970. Para a maioria ali, o
PT estava colhendo a tempestade de uma ventania plantada em dezembro de
2014, quando a Comissão Nacional da Verdade (CNV) apresentou seu
relatório final que responsabilizava mais de 300 pessoas, entre
militares, agentes do Estado e ex-presidentes, por torturas,
assassinatos e desaparecimentos forçados de militantes de esquerda. Os
integrantes do Alto Comando avaliaram que o documento violava a Lei da
Anistia e representava um ataque à memória de seus antigos comandantes.
Um dos nomes incluídos no relatório da CNV foi o do general da reserva
Leo Guedes Etchegoyen, pai de Sérgio Etchegoyen, presente na reunião, na
condição de chefe do Estado Maior do Exército. Quando Michel Temer
assumiu, em agosto, ele virou chefe do Gabinete de Segurança
Institucional (GSI) e colocou a Agência Brasileira de Inteligência
(Abin) sob seu guarda-chuva. Foi ainda durante os trabalhos da comissão
que Jair Bolsonaro, contemporâneo daqueles generais, passou a ser
apresentado em formaturas de novas turmas da Aman, como candidato a
presidente da República. Logo ele, um ex-capitão expulso por
indisciplina e deslealdade.
Esse
preâmbulo histórico é fundamental para quem quiser compreender o
fenômeno eleitoral de 2018 e como o atual presidente da República foi
usado pelos generais como Cavalo de Troia para a chegada (democrática)
ao poder, com a ocupação, inclusive, da vice-presidência, para garantir
as rédeas do processo, em caso de reincidência por indisciplina ou
deslealdade do ex-capitão. Ao fim dos quatro anos do ‘ciclo de
planejamento’, os integrantes da reunião do Alto Comando haviam assumido
posições de destaque no governo. “Todos foram nomeados para cargos
estratégicos no Palácio do Planalto, em ministérios, estatais,
embaixadas e até fundos de pensão”, afirma o coronel da reserva Marcelo
Pimentel Jorge de Souza, que estuda o movimento de politização das
Forças Armadas. O exemplo foi reproduzido no segundo e terceiro
escalões, com o resto do oficialato (major, tenente-coronel e coronel).
Na posse de Villas Bôas como assessor do GSI de Heleno, em 2019,
Bolsonaro deu o seu recado de agradecimento, ao dizer que “o senhor é um
dos responsáveis por eu estar aqui” e “o que nós já conversamos morrerá
entre nós”. Estima-se que, hoje, existam entre 300 e 400 oficiais
superiores lotados em funções sem qualquer relação com a atividade fim
das Forças Armadas. Eles respondem às diretrizes emanadas pela cúpula
dessa espécie de “Partido Militar“, que tem no general Augusto Heleno,
atual chefe do GSI, um de seus principais caciques. Mas o movimento de
militarização da gestão pública é muito mais amplo. Foi medido no ano
passado pelo Fórum Nacional Permanente de Carreiras Típicas de Estado
(Fonacate), que estimou em mais de 6 mil os militares de todas as
patentes alocados em cargos de confiança em 2020, quase o triplo do que
havia no segundo mandato de Dilma Rousseff. É um número conservador, que
não contempla estatais e escolas cívico-militares, e precisa ser somado
aos 7 mil convocados temporariamente para o INSS.
A
imprensa, em geral, costuma atribuir as patacoadas na área de
inteligência a Carlos Bolsonaro, mas nada é feito sem supervisão
militar, como ocorreu quando o filho 02 do presidente criou a sua Abin
paralela. O exemplo histórico do SNI (Serviço Nacional de Informações)
ensina que ter à disposição uma fábrica de dossiês, com detalhes
sórdidos da rotina de autoridades, pode ser bastante útil na guerra
travada nos bastidores de Brasília. Engana-se também quem lê notícias,
normalmente com fontes em off, sobre a indignação da “ala militar” com
as barbaridades de Bolsonaro. Há tempos, os militares entenderam o
‘método Steve Bannon’ de controle da narrativa e se beneficiam dele.
Declarações estapafúrdias, ofensas e ataques institucionais são táticas
de guerrilha informacional e servem a governos de matiz autoritário para
manter o engajamento da militância, excluir quem não está 100% alinhado
e desviar a atenção da imprensa de temas espinhosos e crises internas.
Quem não lembra do episódio da “golden shower” logo no início de sua
administração? Ao postar um vídeo em que dois marmanjos praticavam atos
libidinosos abjetos em cima de um trio elétrico, Bolsonaro conseguiu
eclipsar notícias que questionavam a falta de resultados nos primeiros
100 dias governo, período que é considerado a ‘lua de mel’ de qualquer
governante. Pulando para o momento atual, vemos um presidente
intensificando os ataques às urnas eletrônicas e disparando ofensas
diárias a ministros do TSE. Alimenta, assim, o temor de um golpe em
outubro e desvia (de novo) a atenção do público sobre a disparada dos
preços dos combustíveis e alimentos, as suspeitas de corrupção e os
inúmeros problemas de gestão.
Nas
últimas semanas, o ministro da Defesa, general Paulo Sérgio Nogueira,
passou a fazer coro ao discurso bolsonarista contra o voto eletrônico,
escalando a crise. Ele se reuniu com o presidente do STF, Luiz Fux, na
semana passada e depois enviou a Edson Fachin, presidente do TSE, ofício
cobrando a divulgação de sugestões da pasta para a “melhoria do
sistema”, incluindo aumento da amostragem de urnas no teste de
integridade e atualização da porta USB dos novos equipamentos. O
documento vazou à imprensa antes de ser entregue ao tribunal, gerando
ainda mais desconforto. Fachin reagiu, por meio da divulgação de ofício
em que afirmou não haver óbice na publicização dos documentos e acusou a
própria Defesa de classificá-los como reservado, devolvendo a bola para
o general. Em seguida, Paulo Sérgio reclamou não ter sido recebido por
Fachin e pediu que as comunicações da comissão de transparência
passassem a ser enviadas diretamente a ele, substituindo na função o
general Heber Portella, chefe de Defesa Cibernética e representante
militar na Comissão de Transparência das Eleições. Na segunda-feira, 9, o
presidente do TSE resolveu divulgar as sugestões dos militares,
acompanhadas de críticas da área técnica e de uma declaração que impôs
limites aos questionamentos . “O quadro de normas aplicáveis ao ano
eleitoral de 2022 já se encontra definido e estabilizado, à luz dos
ditames da Constituição, das leis e das regulamentações deste Tribunal”,
escreveu Fachin, lembrando que o prazo para colaborações havia se
encerrado no dia 17 de dezembro. Segundo o ministro, as observações da
Defesa foram consideradas apenas como forma de “prestigiar o diálogo no
âmbito da Comissão”. E convocou uma nova reunião da comissão para o dia
20 de junho. Nesta quinta-feira, Fachin voltou à carga, dizendo que
“quem trata de eleições são as forças desarmadas”. Um recado duro a quem
tenta desqualificar o processo eleitoral nas Forças Armadas.
No
TSE, o clima é de “decepção” com os militares — que, de alguma forma,
colaboram com as eleições há bastante tempo. Eles participaram do
projeto original de confecção das urnas e auxiliam na logística de
distribuição delas pelo país. Os novos gestos do general Paulo Sérgio
Nogueira foram vistos como um afastamento institucional deliberado. No
Twitter, o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, escreveu que “não
podemos admitir sequer uma bravata relacionada a fechamento do STF, a
cancelamento de eleições, a volta da ditadura militar ou de atos
institucionais”. O presidente do Senado também se reuniu com Fux na
semana passada e, ao deixar o encontro, reiterou sua confiança no
sistema eleitoral. O mesmo fez o presidente da Câmara, Arthur Lira,
nesta semana. “Eu fui eleito nesse sistema durante seis eleições e não
posso dizer que esse sistema não funciona. O sistema é confiável”,
afirmou. Aliado do Planalto, o deputado, porém, tentou minimizar a
crise. “As instituições brasileiras são fortíssimas, funcionam
plenamente.” No mesmo dia, Alexandre de Moraes resolveu testar a
fortaleza das instituições e determinou a fusão do inquérito que apura
os ataques de Bolsonaro às urnas eletrônicas com a investigação sobre a
atuação de uma milícia digital contra a democracia. O ministro do STF
tomou a decisão após a PGR defender que seria “imprescindível” juntar as
duas investigações, antes de decidir se denuncia ou não o presidente. O
movimento rápido foi interpretado como reação ao indulto do presidente a
Daniel Silveira, anulando a condenação imposta pelo Supremo, e também
aos gestos do ministro da Defesa em relação ao TSE, do qual Alexandre de
Mores é vice-presidente.
No
Exército, cresce a percepção de que tais inquéritos afrontam o
equilíbrio entre os poderes, assim como várias decisões anteriores do
STF, como a que impediu Bolsonaro de nomear Alexandre Ramagem diretor da
Polícia Federal, em 2020, após a saída de Sergio Moro do Ministério da
Justiça e Segurança Pública. No horizonte de curto prazo, deve azedar
ainda mais a relação o julgamento da ação que pode estabelecer prazo
para o presidente da Câmara apreciar pedidos de impeachment do
presidente. “Isso invade a competência de outro Poder. Vão obrigar o
presidente do Senado a pautar pedidos de impeachment de ministros do
Supremo também?”, questiona um coronel ligado ao gabinete do comandante
do Exército. O temor de uma ruptura tende a crescer ainda mais num
cenário em que Lula mantém a liderança das intenções de voto e o atual
presidente parece ter atingido o teto de apoio. Militares ouvidos por O
Antagonista, porém, divergem sobre o grau de mobilização interna para
uma aventura golpista.
O
general Carlos Alberto dos Santos Cruz, ex-ministro da Secretaria de
Governo e hoje filiado ao Podemos, diz que “tudo não passa de blefe” de
Bolsonaro e alguns generais, principalmente da reserva. “O quadro todo é
ridículo. A mediocridade desse governo é muito grande e essa manobra
tenta arrastar as Forças Armadas para o conflito. Pode ser que, lá na
frente, meia dúzia da fanáticos não queira aceitar o resultado
eleitoral, daí fica essa agitação, mas duvido que algum militar da
ativa, em sã consciência, arrisque sua carreira“, afirma ele. Santos
Cruz, que chefiou a missão da ONU para a estabilização do Haiti
(Minustah) durante o governo do PT, avalia que o TSE errou ao convidar
os militares para a Comissão de Transparência das Eleições. “Militar não
tem que se meter em eleição“, diz. O coronel da reserva Marcelo
Pimentel Jorge de Souza também não acredita em golpe e expõe o que seria
a estratégia da cúpula do “Partido Militar“: “Pura encenação. O
objetivo é fixar na opinião pública a percepção de que haverá golpe.
Depois, aparecer como aqueles que evitaram o golpe e se capitalizar
politicamente. O projeto é vencer as eleições, derrotar a esquerda ou,
na pior das hipóteses, preservar o poder num eventual governo Lula“. Ele
lembra que os militares alcançaram protagonismo operacional inédito
durante a gestão petista, na condução de programas bilionários de
reaparelhamento das Forças Armadas, em missões de paz internacionais e
operações de GLO (Garantia da Lei e da Ordem) em diversos estados. E que
várias figuras que integram ou integraram o atual governo Bolsonaro se
destacaram nos governos do PT, como Augusto Heleno, Braga Netto e o
próprio Santos Cruz. Esse protagonismo, somado à reação ao revanchismo
da esquerda radical, tem como efeito colateral a consolidação do poder
militar na política.
A
garantia de que não haverá golpe, segundo Marcelo Pimentel, está,
ainda, no fato de que “as cúpulas hierárquicas já estão na alma do
governo federal e também nos estados e nos tribunais superiores”. Ele
aponta que “essas estruturas estão abarrotadas de militares, que também
já contam com o apoio de 30% do eleitorado bolsonarista. Nesta eleição,
teremos ainda mais candidatos militares. A tendência é aprofundar a
participação política de forma ad hoc, como um partido”. Um partido
informal, claro, que trabalhará como uma espécie de “bancada militar“.
Para se ter uma ideia, em 2020, os candidatos militares totalizaram 6,7
mil, um aumento de 12,5% em relação a 2016. Claro está que o ‘Partido
Militar’ não vai recuar, visto que figurar no núcleo do poder político
tem garantido ganhos pessoais e corporativos expressivos para a caserna e
os seus líderes. Uma portaria assinada pelo presidente permitiu, por
exemplo, que militares da reserva em função comissionada acumulem a
aposentadoria com o salário, fora do teto do funcionalismo. Generais
como Hamilton Mourão, Augusto Heleno, Braga Netto e Luiz Ramos dobraram
seus vencimentos mensais, embolsando até R$ 350 mil a mais por ano, sem
contar outras regalias, como cartão corporativo e diárias. No comando da
Petrobras, o general Joaquim Silva e Luna chegava a receber mais de R$
200 mil mensais, com a distribuição de bônus por desempenho. Os
benefícios se estendem aos escalões inferiores, como ferramenta de
cooptação.
Por
meio de outra portaria, o governo convocou 7 mil aposentados e
militares da ativa para trabalharem no INSS, sob a justificativa de
zerar a fila de pedidos de aposentadoria. A família militar também está
animada com os novos tempos, após conseguir escapar da reforma
previdenciária que começou a ser gestada no governo Michel Temer. Com
Bolsonaro, garantiu-se logo no primeiro ano de governo, na única reforma
aprovada até hoje, um regime próprio, com integralidade de vencimentos e
paridade com o pessoal da ativa. Agora, os generais trabalham para que
as Forças Armadas fiquem de fora da “guerra orçamentária“. Na última
quarta-feira 4, Bolsonaro se reuniu com o Alto Comando para avaliar o
andamento dos projetos estratégicos para os próximos dois anos e foi
cobrado a garantir o “fluxo de caixa“. Na sequência, foi feita uma
exposição sobre o cenário eleitoral, classificado como “menos caótico do
que se imagina“. O fluxo de caixa vai muito bem, obrigado. No ano
passado, os militares da ativa e da reserva custaram aos cofres públicos
mais de 90 bilhões de reais. Enquanto os gastos do Executivo com
servidores civis registraram um recuo de 8,4%, de 2018 a 2021, os custos
com os militares aumentaram 5,7% no mesmo período. O mesmo ocorreu com
os servidores inativos: gastou-se menos 4,2% com os civis e mais 3,3%
com os fardados que foram para a reserva.
O
fato é que, seja com Bolsonaro ou com Lula, os militares continuarão a
ter as suas demandas plenamente atendidas. No caso do ex-capitão, as
fricções dele com Hamilton Mourão e das Forças Armadas com o Centrão
foram amplificadas pela imprensa, com a ajuda de Carlos Bolsonaro, um
abilolado incapaz de entender o contexto geral. A relação entre o
Planalto bolsonarista e a caserna nunca sofreu abalos reais. Tanto é que
o general Eduardo Pazuello, ex-ministro da Saúde que se notabilizou
pela sua irresponsabilidade no enfrentamento da pandemia e que não foi
punido pelo Exército por participar de um comício ao lado do presidente,
no Rio de Janeiro. E outro general, Braga Netto, atual
assessor-especial do gabinete pessoal do presidente, é um dos nomes
cotados para ser vice na chapa de Bolsonaro, ao lado do de Damares
Alves. Se Lula for eleito, o “Partido Militar” ficará menos em evidência
no governo, mas não perderá a sua capacidade de alavancar benefícios
para si próprio, apesar das divergências ideológicas com o petismo. Em
abril, Lula enviou Nelson Jobim, ex-ministro da Defesa, para sondar os
granadeiros e ele voltou com uma resposta que tranquilizou o candidato
do PT. “A impressão que fico, nessas conversas, é a de que as Forças
Armadas são totalmente legalistas”, disse ele ao Estadão. É mais do que
uma impressão. Os militares sabem que não existem condições internas ou
externas para uma quartelada. O risco de golpe é nulo também porque Lula
não é Dilma Rousseff, que participou de organização terrorista, foi
presa, torturada e, na visão dos oficiais, quis revanche. Ela é um
retrato na parede, muito mais do que a reunião do Alto Comando do
Exército de 4 de fevereiro de 2016, onde começou tudo a que assistimos. O
petista é homem de confiança, assim como nos tempos em que era
sindicalista e quando foi inquilino do Palácio do Planalto. As Forças
Armadas só têm a ganhar (mais) com a manutenção da democracia, não
importa quem seja o vencedor na eleição de outubro. O “Partido Militar”
veio para ficar, naquele que é o pior dos regimes, à exceção de todos os
outros.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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