Pensando nesses meses insuportáveis, criei alguns truques retóricos para vencer discussões, que mostro abaixo. Via Crusoé, a crônica de Alexandre Soares Silva:
As pessoas inteligentes têm um defeito: raciocinam como se todo mundo fosse como elas.
E
tem sido assim ao longo da história. “Hitler pode ser asqueroso, mas
não é bobo”, diziam. “Putin pode ser um ditador, mas é esperto, ele
nunca vai…”, dizem agora. “Joe Biden de bobo não tem nada, ele vai
acabar percebendo que…”
Não, pessoas inteligentes – eles são bobos, sim. Eles de bobos têm tudo. O mundo é dominado pelos bobos faz alguns séculos já.
Isso
se vê também na maneira com que discutem as eleições. “As pessoas vão
acabar percebendo que…” “Lula e Bolsonaro têm cometido tantos erros que
as pessoas vão acabar…” Não, elas não são vocês, pessoas inteligentes.
As pessoas gostam de políticos que dizem e falam bobagens. Até eu gosto
um pouco disso. Quantas eleições seguidas são necessárias pra vocês
perceberem esse fato da natureza humana?
Ou
a certeza que têm em pesquisas de voto. Conheço pessoas que me dizem,
abaixando a voz, que têm acesso a pesquisas seriíssimas, secretíssimas,
feitas por bancos, firmas de investimento e embaixadas de outros países.
Eles me dizem com certeza completa (mas baixinho) que o Lula vai
vencer. Bancos, firmas de investimento e embaixadas de outros países já
estão se preparando para isso. E por mais que essas pesquisas estivessem
erradas em eleições passadas, agora estão certas, agora é outra coisa,
agora é certeza.
Meus
amigos acham que as pessoas inteligentes que trabalham em bancos e
firmas de investimento têm que se preparar para o próximo governo e eles
não seriam burros de basearem os seus investimentos em pesquisas
erradas, seriam? Pessoas que são tão boas com dinheiro? Seriam?
Sim,
seriam, e seriam burros desse jeito específico das pessoas
inteligentes, confiando demais na inteligência das pessoas burras (e,
vou chutar um negócio aqui, não completamente indiferentes a dinheiro)
que fazem as pesquisas de voto.
Seja
como for, os próximos meses vão ser cheios de discussões com amigos e
parentes sobre quem vai vencer e quem vai perder, quem deveria vencer e
quem deveria perder, como quem perdeu deveria ter feito para ganhar etc.
etc.
Pensando nesses meses insuportáveis, criei alguns truques retóricos para vencer discussões, que mostro abaixo.
Uma
técnica retórica que desenvolvi é fazer uma afirmação e logo em seguida
começar a contra-argumentar contra o que eu próprio disse, mas de
maneira tíbia, estúpida, evidentemente motivada por uma insegurança
repelente, de modo que quem ouça cale em si mesmo os contra-argumentos
que estavam começando a surgir na sua própria cabeça, associando esses
contra-argumentos com a tibieza, a estupidez e a repugnante insegurança
que demonstrei logo em seguida, e afirme, com mais convicção que eu, o
que eu mesmo comecei falando. Assim na teoria parece uma técnica de
persuasão infalível.
Demonstração.
O orador, Alexandros de Agrigento, se dirige a uma plateia convicta de
que tal coisa não é assim e assado; seu objetivo é persuadir a plateia
de que, muito pelo contrário, tal coisa é assim e assado:
ORADOR:
Tal coisa é assim e assado (proposição). Se bem que não sei, é mesmo
assim? E é mesmo assado? (insegurança repelente). Gagueja (tibieza).
Talvez tal coisa não possa ser assim, porque bibibi (argumento
estúpido), ou até seja assim, mas não possa ser assado, porque, sei lá,
bibibi e bobobó e blablablá (sequência de argumentos estúpidos), e…
AUDIÊNCIA: Você cansa nossa paciência, Alexandros de Agrigento. É claro que tal coisa é assim e assado.
ORADOR: Mas… mas será mesmo?
AUDIÊNCIA: Claro que sim, deixe de ser estúpido! Tal coisa é claramente assim e assado.
ORADOR: Ok, então. (Desce vitorioso do proscênio, meio curvado, com um sorriso tímido.)
Proposição:
a falta de convicção com que falamos algo pode aumentar o efeito
persuasivo do que falamos, porque é da natureza humana querer chegar
logo a uma certeza e fugir rapidamente da dúvida. Fale algo, demonstre
dúvida sobre esse algo, exaspere a audiência com essa dúvida, e veja a
certeza da audiência se formar em segundos.
Minha
segunda proposição sobre retórica é que o silêncio também tem um grande
poder persuasivo em um tipo específico de pessoa. Um amigo meu diz uma
coisa com que não concordo. Quero rebater, mas sei que, como eu, ele tem
uma natureza que ama a contrariedade e a polêmica. Quanto mais eu
argumentar contra o que ele falou, mais certeza ele vai ter do que
disse. No lugar de rebater, fico em silêncio, ou concordo vagamente com
um aceno de cabeça. Como ele ama contra-argumentar, logo ele se vê na
posição desesperada de ter que contra-argumentar contra o que ele mesmo
falou. Fiz com que os argumentos contrários ao que ele disse surgissem
na cabeça dele com a técnica simples, mas mortal, de não falar nada.
Enfim,
se você quiser saber mais truques de retórica, Schopenhauer tem um
livro sobre isso: Como Vencer um Debate sem Precisar Ter Razão — em 38
Estratagemas. O livro não é tão bom quanto este artigo, mas a modéstia
me impede de dizer isso.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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