Lei que proíbe falar sobre questões de gênero para crianças pequenas envenena a relação entre governador republicano e a gigante do entretenimento. Vilma Gryzinski:
No
papel, a lei faz sentido para muitos pais: professores não devem tratar
de orientação sexual e identidade de gênero desde o maternal até a
terceira série, quando as crianças estão com nove anos.
Na
realidade do mundo dividido pelas batalhas identitárias, virou uma
guerra entre um governador que quer ser presidente, Ron DeSantis, da
Flórida, e o império Disney, que silenciou e depois desafiou
estrepitosamente a nova legislação.
Atualmente,
a situação é a seguinte: DeSantis pretende acabar, via o legislativo
estadual, onde o projeto já foi aprovado pelos senadores, com o estatuto
que confere à Disney autonomia total sobre seus domínios. O status de
distrito especial, existente desde 1967, permite inclusive a emissão de
bônus de dívida sobre um patrimônio imobiliário bilionário. A Disney usa
recursos próprios para prover água, energia elétrica, estradas,
policiamento e corpo de bombeiros, recebendo benefícios fiscais em
troca.
Seria
um golpe monumental para uma empresa com faturamento de quase 2 bilhões
de dólares e um enorme poder de influência sobre crianças e jovens, num
arco que vai do Marvel Studios à National Geographic.
É
este poder que a Disney, declaradamente, usa e pretende usar mais para
difundir personagens do espectro LGBTQI, segundo as palavras de sua
presidente de conteúdo, Karey Burke, vazadas no começo do mês.
Argumentando
que tem uma filha trans e uma pansexual, Karey disse que a Disney já
tem “muitos, muitos, muitos personagens” que podem ser colocados na
categoria queer. Mas faltam personagens principais desse tipo. E a meta é
ter “pelo menos” 50% de sexualidades alternativas e minorias raciais
nos desenhos animados e filmes que depois viram atrações nos parques
temáticos adorados por crianças do mundo inteiro.
Karey
não é um caso único, obviamente, no mundo Disney. Roy Disney,
sobrinho-bisneto de Walt Disney, um ultraconservador que denunciava
atividades comunistas no mundo artístico, disse que seu enteado, Charlee
Cora, professor de biologia e ciências, é um homem trans. “Estou
explodindo de orgulho pelo que meu irmão e a mulher dele fizeram”,
tuitou Abigail Disney, outra integrante do clã que abraçou causas
identitárias.
A
lei aprovada pelo legislativo estadual da Flórida ganhou de seus
adversários um nome do tipo que cola: “Don’t say gay”. Ou não diga a
palavra gay. Funcionários da Disney fizeram protestos, exigindo que a
companhia se colocasse a respeito. Em 11 de março, o CEO da Walt Disney
Company, Bob Chapek, finalmente fez um choroso mea culpa.
“Vocês
precisaram de mim como um aliado forte na luta por direitos iguais e eu
não correspondi. Sinto muito”, disse ele aos funcionários envolvidos.
Chapek também anunciou que a empresa não faria mais contribuições em dinheiro para campanhas políticas na Flórida.
A
lei discrimina alunos com perfil de gênero alternativo ou é um
instrumento de apoio a pais que consideram absurdo que as escolas
aceitem a mudança de identidade de crianças pequenas, com consequências
físicas e psicológicas que não podem avaliar?
A
questão é explosiva porque não existem respostas simples sobre os
limites entre respeitar e acatar as diferenças de identidade sexual e
resistir às pressões sociais a que crianças e jovens são submetidos, por
modismo comportamental, através do poder avassalador das redes sociais.
Esse
tipo de pressão também levou a Disney à posição nada confortável de
ficar no centro de uma briga em que tem muito a perder, fosse qual fosse
o lado que escolhesse.
Não
é, porém, uma novidade. A empresa criada por um gênio bizarro como Walt
Disney (que não, não teve o corpo conservado numa câmara criogênica,
como muitos acreditam até hoje) já foi acusada de tudo, desde invadir o
mundo com um agente disfarçado do imperialismo como Mickey Mouse (o que
dizer do oligarca Tio Patinhas?) até racismo, sexismo e outros
preconceitos.
Muitos
desses julgamentos são feitos com critérios que não existiam na época
da criação de personagens como o malandro Zé Carioca, a quem deve ser
debitado o feito de ter levado o Pato Donald a tomar uma cachacinha
quando visitou o Brasil como enviado especial da política de boa
vizinhança.
Também
existe uma espécie de “maldição da Disney” abarcando a profunda
instabilidade emocional e os vícios impulsionados pelo sucesso precoce
de atrizes infantis de seriados da empresa. A lista vai de Britney
Spears a Lindsay Lohan, Miley Cyrus, Selena Gomez, Demi Lovato e mais um
longo etc.
Para
mostrar que está acompanhando as mudanças sociais, a Disney eliminou
recentemente a saudação tradicional – “Senhoras e senhores, meninos e
meninas” – do show de fogos de artifício do parque de Orlando, deixando
só a parte final: “Sonhadores de todas as idades”.
Agora,
mães e pais mais conservadores estão defendendo um boicote ao reino
mágico. Também é de se notar que o fim das doações de campanha elimina
um instrumento tradicional de cultivo, digamos, de aliados no mundo
político. Ficar congelado nesse setor pode ter consequências que nem
Elza daria um jeito.
Aliás,
a princesa moderna que não tem um interesse romântico e canta uma
música que já foi considerada um hino à saída do armário (“Esconda, não
sinta, não deixe que eles saibam/ Bem, agora eles sabem/ Ponha para
fora”). Let it go.
Se
as autoridades da Flórida realmente consumarem a cassação dos
privilégios da Disney, podem acabar prejudicando a atração que mais traz
turistas ao estado e, portanto, seus próprios interesses?
Em
inglês, a expressão “operação Mickey Mouse” virou sinônimo de coisa
ridiculamente mal feita. Pode acabar se aplicando a todos os envolvidos
nesse caso.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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