Ter sido lembrado da imagem do patriotismo, indistinguível da vontade da liberdade, é já um bem que todos devemos aos ucranianos. Não tínhamos sido educados, aqui neste cantinho, para esta experiência. Crônica do professor Paulo Tunhas para o Observador:
Uma
das coisas sobre as quais a formidável resistência ucraniana à invasão
russa nos faz pensar é a questão do patriotismo. E é algo que nós
(incluo-me, é claro, a mim neste “nós”) não nos encontramos
particularmente à-vontade para pensar. Primeiro, porque a ideia de
patriotismo nos aparece como maculada pela ideia de nacionalismo, que é
tudo menos bem-vinda aos olhos da maioria das pessoas. Depois, e
fixando-nos agora em Portugal, as formas sortidas de “patriotismo” que
por cá nos vêm mais facilmente à cabeça, desde o final do século XIX até
aos nossos dias, não se recomendam por aí além. A reacção ao Ultimato
inglês de 1890, que incluiu o horrendo Finis patriae de Guerra
Junqueiro, foi um tristíssimo exemplo de inferioridade e inconsequência
que, de resto, amiúde ressurge, ainda mais ridículo, a propósito de
querelas improváveis e menores. O patriotismo do salazarismo foi uma
construção artificial destinada a manter o país numa imobilidade arcaica
e imune ao mundo em seu redor. O patriotismo do futebol – que atingiu
os píncaros quando Scolari foi seleccionador nacional – representa uma
paródia que só uma grande inconsciência colectiva e a falta de vergonha
das elites permite. E, por fim, o patriotismo de Marcelo – “quando
queremos, somos os melhores do mundo”, com as suas múltiplas variantes –
é de uma infantilidade de bradar aos céus, que espantaria até um
cidadão do Burkina Fasso. Se ele fosse visitar Uagadugu e elaborasse
sobre o tema, os nativos fartar-se-iam de rir.
A
associação entre patriotismo e nacionalismo é, se nos permitirmos uma
simplificação legítima, facilmente contrariável. Os grandes teóricos do
patriotismo – o Maquiavel republicano dos Discursos sobre a primeira
década de Tito Lívio e, mesmo que a interpretação mais corrente o
coloque do lado do nacionalismo, o Fichte dos Discursos à nação alemã,
por exemplo – mostraram amplamente que o patriotismo se concebe em
estreita relação com a exigência de liberdade, algo que não acontece, a
não ser de forma perfeitamente retórica, com o nacionalismo puro e duro.
É, de resto, algo que salta aos olhos na luta dos ucranianos contra o
nacionalismo russo de Putin. O amor da liberdade é um ingrediente
necessário do patriotismo. De que liberdade, antes de mais, se trata? É
uma pergunta importante, porque “liberdade” é uma palavra que pode ser
entendida em vários sentidos. Trata-se da liberdade de um povo se dar,
na medida do possível, as suas próprias leis, que não devem ser ditadas
por outros povos, e de deliberar em conjunto, mais uma vez na medida do
possível, sobre o caminho que quer seguir. É esta liberdade que se
encontra na raiz de todas as liberdades políticas, que, sem ela, não
podem substantivamente existir.
Aceitemos
esta distinção entre patriotismo e nacionalismo, que é, aos meus olhos,
justa. O problema é que ela permanece muito abstracta e não nos oferece
qualquer conteúdo vivencial da palavra “patriotismo”, isto é, não nos
indica nada sobre a maneira de sentir patriótica nem sobre o tipo de
situações em que ela pode eclodir. Ora, há na literatura portuguesa um
autor que, apesar de vários e inevitáveis equívocos, conseguiu colocar
esta última questão de um modo sensível. Estou a falar de Eça de
Queiroz.
Toda
a gente se lembra da passagem d’Os Maias onde se descreve o memorável
jantar organizado por João da Ega no Hotel Central em honra do Cohen. Às
tantas, Ega, levado pelo álcool e pelo seu entusiasmo de demagogo,
proclama que a única esperança de salvação da pátria residiria numa
invasão espanhola. Levar “uma sova tremenda”, uma “medonha tareia”,
ressuscitaria o “espírito público” e o “génio português”. A “catástrofe”
levar-nos-ia a renascer “novos em folha”, e “recomeçava-se uma história
nova, um outro Portugal, um Portugal sério e inteligente, forte e
decente, estudando, pensando, fazendo civilização, como outrora”. Da
enunciação desta terapia de choque, a conversa passa ebriamente para a
organização da resistência à invasão purificadora. Tomás de Alencar
prontifica-se para o combate e para o tiro aos galegos e Dâmaso Salcede,
como seria de esperar, anuncia que “se as coisas chegassem a esse
ponto, se se pusessem assim feias, eu cá, à cautela, ia-me raspando para
Paris”.
O
cómico da argumentação foi, é claro, tomado como indício do
anti-patriotismo de Eça, como, de resto, a totalidade d’Os Maias. É
muito elucidativo ler a recepção imediata do livro, já em 1888, na
imprensa. Várias das críticas censuram a falta de patriotismo de Eça.
Não era coisa nova. Uma polémica célebre com Pinheiro Chagas, em 1880 e
1881, recolhida postumamente nas Notas Contemporâneas, gira exactamente
em torno deste tema.
Como
é natural, a posição de Eça é mais complexa. Num conto contemporâneo da
escrita d’Os Maias, intitulado A Catástrofe, Eça repete o tema da
invasão (o conto, na edição dos Livros do Brasil, vem no volume d’O
Conde d’Abranhos). Ao contrário do que acontece n’Os Maias, em que as
opiniões proferidas no jantar do Hotel Central funcionam claramente como
expressão do ponto de vista das personagens, A Catástrofe fica-se pela
descrição da situação – a invasão e a vida sob a ocupação –, sendo que a
única verdadeira personagem é meramente simbólica: a sentinela
estrangeira que vigia o Arsenal. Só adiante no conto se sabe que a
guerra fora iniciada pela Alemanha e que nem a Inglaterra nos tinha
podido salvar. É provável que a sentinela do Arsenal seja espanhola,
embora isso fique indeterminado. Mas a consequência da invasão, como
n’Os Maias, é, como Ega exuberantemente queria, o nascimento de um
patriotismo que antes não existia. Celebram-se as grandes datas da
história de Portugal na privacidade das casas e espera-se que a geração
crescida sob a ocupação possua valores mais altos do que aquela que
presenciou a perda da independência. E aqui sem gozo nenhum. Dizendo o
mesmo, é o avesso trágico da conversa do Hotel Central.
Provavelmente,
o Eça d’A Catástrofe tem razão num ponto, que, de resto, mencionei
atrás neste artigo: o patriotismo, como coisa distinta do nacionalismo,
só existe verdadeiramente quando é animado pela paixão da liberdade,
maximamente quando essa paixão se manifesta no confronto com quem a quer
oprimir. É isso que faz dele, aos nossos olhos, algo de heróico,
grandioso e belo, que nos comove, como nos comove a coragem do povo
ucraniano, simbolizada pelo presidente Zelensky. Algo que escapa por
inteiro à legião de pobres-diabos, conhecidos ou anónimos, de esquerda e
de direita, Dâmasos Salcede encapotados que não perdem uma oportunidade
para se enternecer com a força de Putin – recomenda-se uma psicanálise –
e de ridicularizar Zelensky, com indisfarçável ódio.
Mas
dizer isto é tudo menos cair em qualquer “romantismo” na matéria. O
patriotismo e o amor da liberdade numa situação de guerra têm um preço
imenso que se paga em terríveis privações, sofrimento e morte, como está
à vista de toda a gente. São uma maldição gloriosa que não devemos
invejar, até porque tal inveja seria uma forma de desrespeito pelo
inominável sofrimento daqueles sobre os quais a maldição heróica tombou.
Basta que, ajudando-os de todas as maneiras possíveis, possamos ver
claramente o significado maior do patriotismo e respeitá-lo e admirá-lo
sem a mitigação que a esperteza dos pobres-diabos, que confundem a
fascinação suscitada pela força bruta com um exercício de liberdade do
pensamento, nos aconselha. Ter sido lembrado da imagem viva do
patriotismo, indistinguível da vontade da liberdade, é já um bem que
todos devemos aos ucranianos. Não tínhamos sido educados, aqui neste
cantinho, para esta experiência.
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